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A HISTÓRIA DA LASANHA

Itália tão bela, senhora distinta, coroas e jóias adornam teus feitos, sem peso tu és, na fé de teu povo, na arte em Florença, Romeu e Julieta, Amore e Pietà.

No ano de 1998, morei no país do Pavarotti, da massa e da música romântica. Itália, país do velho continente. De riquezas múltiplas e beleza incomparável. Entre muitas lembranças o passeio de gôndola em Veneza. Uma visita ao Vaticano. Uma moeda jogada na Fontana de Trevi. Um pedido para que encontrasse a pessoa certa, diz a lenda que quem toca no seio da estátua de Julieta, na cidade de Verona, se casa. Casei cinco anos depois,  com uma moça de olhos muito azuis e de origem italiana. Julieta demorou, mas atendeu meu pedido.

Visita a museus, catedrais, viagens de trens, ida a Faculdade de Bolonha, a primeira do mundo. O Teatro Scala. Amigos brasileiros e italianos. Frio. Neve. Sorvete italiano. Pizzas. Alguns quilos a mais, pois, com certeza, a Itália não é um país light.

Aluguei um quarto no apartamento de uma velha senhora, na cidade de Casalecchio de Reno, vizinha de Bolonha. Uma pessoa de bom coração. Vivida. Sofrida. Logo de saída, já me mostrou as fotos dos três maridos dos quais era viúva. Queixa dos filhos. Receitas de muitos remédios. Pessoa precavida, pois até a foto para ser colocada no túmulo quando falecesse já havia sido tirada. Ela aprendeu algumas palavras de português e, eu, de dialeto. Ouvi histórias da guerra e de um país que conhecia através livros de história e geografia. E ela, com certeza, aprendeu que o Brasil não é apenas o país do Carnaval e do futebol.

Certo dia resolvi comer uma lasanha. Claro que não preparei a massa. Comprei uma lasanha congelada. Pronta. Bastava só aquecer. Dizia na caixa que bastavam 30 minutos. Então, lá fui eu comer a “típica lasanha bolonhesa”. Segui as instruções da caixa. Liguei o forno e coloquei a lasanha. A fome era grande. O tempo era contabilizado. Aquela lasanha estava demorada... Pensei que talvez fosse a massa ou um problema no forno. Passado algum tempo, começou a sair fumaça pelo forno. Fiquei assustado. Vi labaredas de fogo. A casa ficou toda esfumaçada. As cortinas pretas. A estatua da santa desfigurada.Pobre madona. E a lasanha  literalmente carbonizada. Não sei se pedi socorro em português, italiano ou em dialeto, pois a nonna, por sorte minha, havia saído para passear de bicicleta.

Naquele momento, não sei se me senti um incendiário criminoso, um pecador por denegrir a imagem da santa ou “um menino travesso”. Prefiro a terceira opção, apesar dos meus vinte e oito anos, na época, pois afinal de contas, sou cristão e não ficaria bem para um advogado.

Logo vieram os vizinhos. Eram baldes cheios d’água. Panos no chão. Gritos. O prédio se mobilizou diante daquele acontecimento. Depois de muita insistência conseguimos apagar o fogo, secar o chão, limpar os objetos empoeirados e abrir as janelas para que saísse aquele cheiro de queimado. Não sabia o que estava acontecendo, afinal que mal tem em esquentar uma lasanha? Acaso, a fome é pecado? Eu queria comer a lasanha e acabei quase pondo fogo no apartamento. A penitência do pecado da gula foi muito alta!

Depois de apagado o fogo, a velha senhora chegou no apartamento. Apavorada. Achei que seria despejado. Ela me disse desaforos que não entendi. Eu estava mais perplexo do que todos. Depois de algum tempo ela me explicou o porquê daquele fogo. Na parte interna do forno, ela guardava jornais velhos, tapetes de borracha, alguns documentos pessoais e contas que já havia pagado. Como ela utilizava só o forno, comia quase que sempre galinha frita com ramo de alecrim, o forno era usado para guardar certos pertences. Uma espécie de baú improvisado. Por isso, quase incendiei a casa. Queimei a lasanha. E é claro, eu me tornei mais conhecido no prédio.

O outro dia, cedo, levantei da cama. Com certeza, ainda sob o impacto do ocorrido. Mas, de pronto, outra surpresa. Na mesa de cabeceira, às 6:00 da manhã, estava anotado no papel, todos os gastos e o quanto deveria paga-la. Claro que não discuti valores. Logo, de pronto, paguei o devido. Pedi desculpas. Comprei maças no supermercado para a senhora, na tentativa de “limpar a minha barra”. Entretanto, ela continuava me olhando desconfiada... A partir daí, para desfazer aquela imagem negativa, passei a ter cuidados excessivos, aluguel pago antecipado e até o quarto deixava mais organizado. Comida só cozida ou frita. Congelados? Nem de graça. Apesar do esforço, não conseguia olhar para aquele fogão com a mesma simpatia de antes...

O tempo passou e minha estada na Itália chegou ao fim. De lá para cá, muito tempo se passou. Minha amiga idosa continua viva e talvez até andando de bicicleta. Acho que, por precaução, não alugou nenhum quarto para outro brasileiro...

Restaram boas lembranças de viagem. Tornei-me Professor de Italiano e um apreciador de ópera, massas e uma comunhão maior com a igreja católica. O desejo de voltar à Itália, andar de gôndola com minha esposa, agradecer o casamento à estátua de Julieta e rever um grande amigo, o meu pai italiano. Por certo, quando preparo lasanha, sempre olho o forno e penso nas labaredas de fogo. Baldes d’água. Gritaria e confusão. Hoje, com certeza, conto este episódio numa roda de amigos e em tom de piada. Ninguém economiza gargalhada.Talvez até mande a minha história para a Denise Fraga, do Fantástico. Apesar de tudo, como diz o poeta: tudo vale a pena se a alma não é pequena por que la vita é bela.
pássaro poeta
Enviado por pássaro poeta em 25/01/2006
Código do texto: T103554

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Sobre o autor
pássaro poeta
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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