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Marinheiros

“Não dá pra explicar a vida / Num samba curto” (Paulinho da Viola)


A Globonews está reprisando entrevista feita em 1998 pelo jornalista Genetom Morais Neto com o maestro George Martin, responsável pela produção de todos os discos dos Beatles. Exibida dentro da série Milênio, a entrevista é rica, embora a versão apresentada seja curta para explicar a trajetória do quarteto de Liverpool.

Ainda assim, trouxe a informação que me faltava para entender um mecanismo crucial da música e da vida. Trata-se justamente dos elementos musicais e poéticos das canções “Hey Jude” e "I am the Walrus", assinadas por John Lennon  e Paul Mcartney, mas na verdade criações individuais de Paul e John, respectivamente, comercializadas sob a marca que criaram, e que virou sinônimo de sucesso.

A história (ou seria lenda?) do grupo registra que Paul compôs a canção para consolar Julian, filho de Lennon, uma vez que seu parceiro estava se separando de Cinthian, a primeira mulher. Em lugar de Julian (talvez até por questões de ética ou de métrica), a letra consagrou o personagem “Jude”.

Se, entretanto, observarmos a letra (transcrita abaixo) veremos que a poesia fala de alguém dando conselhos sobre como compor uma canção, mudando-a de triste em alegre (e melhor); e também sobre como viver melhor. Não tenho muitas dúvidas em acreditar que na verdade se tratava de um recado de Paul ao próprio John, cujo nome caberia perfeitamente na métrica. Por sorte, a entrevista de Martin reforça esta suspeita. Tentem cantar “Hey Julian” para verem do que estou falando.


O maestro, chamado de “o quinto beatle”, explora um pouco na entrevista a já conhecida rivalidade entre os dois líderes da banda, calcada em cima das diferenças de personalidade e de aptidões musicais: Paul, mais dócil e melodista criativo; Lennon, o rebelde, mais profundo e habilidoso com as palavras, mas menos gracioso nas melodias.

Nos últimos anos de vida, o produtor já não escondia sua preferência musical por Mcartney, cujo caráter das composições combinavam com sua formação clássica e sua visão de mundo. Os elogios a Lennon foram quase sempre sujeitos a ponderações. Em outras entrevistas, Martin chegou a se referir ao fato de que John passara a compor canções “estranhas” por causa do envolvimento com drogas. Além disso, Paul aderia com facilidade às propostas de Martin para enriquecer as músicas com material erudito e montagens de estúdio, ao passo que Lennon queria “tocar rock and roll”, e realizar discos "objetivos". Daí que o álbum Abbey Road tem um lado ao gosto de Paul/Martin e outro de Lennon. Não estou me referindo aqui a George Harrison e Ringo Star por terem tido menor influência no resultado final de gravações e shows.

Na entrevista à Globonews, Martin diz que Lennon se sentia “enciumado” porque as melodias de Paul faziam mais sucesso, chegando a se referir com tristeza à pouca aceitação de “I am the Walrus” . Quem se der ao trabalho de examinar a letra desta canção (transcrita abaixo) verá como a melodia agressiva, carregada de força rítmica, veicula uma mensagem irônica construída com estilhaços da vida cotidiana, numa crítica feroz ao conformismo e à mediocridade.

“Hey Jude” e “I am the Walrus” deixam claro, portanto, o antagonismo entre os dois astros, o que não impediu a tempestuosa amizade entre os dois, só interrompida nos anos finais da banda. Segundo Martin, essas diferenças até estimularam o desenvolvimento deles como compositores, já que a competição não se mostrou destrutiva. “Eles estavam constantemente subindo um no ombro do outro”, na expressão do maestro.

O percurso da vida acabou demarcando esses territórios emocionais e ideológicos: Lennon, inimigo declarado do sistema, morreu assassinado em Nova York por um maníaco, enquanto Paul e Martin chegaram mesmo a fazer shows em homenagem à rainha Elizabeth.

Antagonismos à parte, ninguém nunca duvidou do talento de John, embora Martin, a propósito de ilustrar como o beatle era “um homem pouco prático”, tenha dito a Genetom que  john não era capaz de “trocar um fusível queimado nem AFINAR UMA GUITARRA”. Para mim, essa é uma observação séria do ponto de vista musical. Teria Lennon a tendência a se encostar nos demais trazendo músicas mal acabadas para serem finalizadas no grupo?

É preciso respeitar as afirmações do produtor, embora em sua carreira pós-Beatles, Lennon tenha mostrado mais substância que seus ex-companheiros, a meu OUVIR.

Bom, chego agora ao objetivo inicial deste artigo: discutir como o modelo psíquico e emocional de uma pessoa se reflete no tipo de composição musical que faz ou que gosta de ouvir.

Começo por perguntar o que é uma melodia? Ora, para ser abastante óbvio, e um dos elementos do que chamamos música: os outros dois são o ritmo e a harmonia. Esta última é baseada em acordes - a execução conjunta de três ou mais notas para acompanhamento da melodia.

O que torna uma melodia graciosa? A combinação das notas, sejam variadas ou não. O compositor pode usar diversas seqüências: subir e descer uma "escadinha", ou voltear em torno de três notas até encontrar outra combinação. Quanto menos brusco for o intervalo de altura entre as notas (um, um e meio ou dois tons), mais agradável será a sensação do “passeio” ao ouvinte, o que não quer dizer que um grande salto não possa provocar emoção, desde que depois tudo se equilibre. Esta não é uma regra rígida, principalmente se levarmos em conta que há inúmeras culturas musicais no planeta. Falo da música popular ocidental de cunho comercial.

Intervalos freqüentes de meio tom provocam tensão, assim como intervalos aleatórios dão a impressão de uma coisa sem pé nem cabeça, como em muitas peças de jazz. A insistência na repetição de notas costumam levar à monotonia, e só funciona bem quando há uma intenção bem realizada, como no exemplo do “Samba de Uma Nota Só”, em que a música reafirma o que diz a letra e vice-versa. Outro exemplo em Jobim é aquele trecho de “Eu Sei que Vou te Amar”, em que a nota insiste para enfatizar a declaração de intenções do letrista. Chico Buarque usou também um expediente parecido na canção “Cotidiano”, em que a mesma linha melódica vai se repetindo, de forma a ilustrar a idéia de rotina. Ocorre que há nos bossanovistas e seus seguidores uma consciência maior sobre a arquitetura da canção que nos roqueiros.

A arte do melodista, que Paul aprendeu muito bem e na qual se tornou um mestre, é realizar a melhor combinação dessas possibilidades todas para encontrar o roteiro sonoro e emotivo que tenha a maior correspondência possível com o universo emocional e cultural do ouvinte. Um tanto de previsibilidade e um pouco de surpresa. Mas de nada valeria a habilidade, se a canção não fosse vista como a tábua de salvação para o náufrago.

Qualquer um que já tenha ouvido suas canções ou o visto falando, percebem o quanto Paul é amoroso – é até difícil imaginar alguém que tenha amado Lennon mais do que ele. Face aos dramas da infância pobre em Liverpool, tendeu a encontrar maneiras de driblar os problemas ou suportá-los, e ainda ver o lado bom da vida. Seu modo de criar reflete essa capacidade de fluir entre obstáculos, ao invés de tentar derrubá-los na porrada. Em “Hey Jude” ele aconselha: “não carregue o mundo sobre seus ombros”. E ensina que a canção e a vida podem melhorar se você “movimenta os ombros”, ou seja, dá de ombros, indicando que não pode resolver problemas de alçada muito superior.

Paul faz baladas que ajudam as pessoas a suportar as vicissitudes, ao passo que John procurava formas de derrubar tudo o quanto considerava errado ou frustrante. Um se conforma e consola; o outro reage, reclama, chega a urrar, enquanto chuta o que estiver mais próximo. Um apenas lamenta; o outro critica ferozmente. Um é doce; o outro, ácido.

Quem tiver paciência pode consultar as partituras das duas canções no songbook dos Beatles. Na versão que tenho, “Hey Jude” está na página 370 e “I am the Walrus” está na página 219. Mesmo quem não entende completamente os meandros da escrita musical, pode observar que as notas registradas por Paul sobem e descem pelas linhas da pauta descrevendo um trajeto de curvas e sinuosidades. As linhas da canção de John são quase retas, com pouca variação de notas. Uma é como um riacho se esgueirando entre pedras; a outra é um aríete batendo contra os pilares da sociedade.

Para entender um pouco mais a origem dos Beatles  e senti-la em sua profundidade, uma sugestão é assistir à caixa com com cinco DVDs da série Beatles' Antology. A outra e é ver  o filme “ O Mestre dos Mares” (http://www.aol.com.br/filmes/fornecedores/aol/2004/01/30/0002.adp). As canções de marinheiros cantadas em meio à dureza das batalhas e das tempestades parecem ser o caldo primordial em que se formou  a cultura do povo de Liverpool.

A música de Paul traz essa carga de sofrimento, mas parece pintar uma Inglaterra, uma Liverpool,e, em última análise, o mundo, como se fosse a ilustração de histórias e lendas antigas – dourando paisagens e personagens, que mesmo em sua rude pobreza não parecem nos revoltar. Tudo está lá, distante no tempo. John pintou essa realidade com um traço moderno, pós-Picasso (confiram seus desenhos e verão), para esfregá-la na cara das elites e do público.

Talvez ironizando o verso de Imagine, Martin o chama de “um sonhador”, de maneira até depreciativa, embora elegante, concluindo que “no lugar onde ele (John) se encontra, deve estar realizando seus sonhos”. Achei isso um pouco cruel. O maestro diz a Genetom que meses antes de John ser assassinado, jantou com o beatle no apartamento do edifício Dakota. Ali teriam discutido o passado e reatado a velha amizade, mantendo, entretanto, projetos artísticos distintos. De Martin, o último foi um disco com suas canções preferidas dos Beatles, gravadas por amigos e estrelas do cinema. Entre as músicas...“I am the Walrus”. Teria sido essa a forma que Martin encontrou de pacificar seus conflitos com John, dando a ele a notoriedade que tanto ansiou para a canção-aríete?

Em meio a essas considerações, revejo minha própria vida e minha  maneira de compor, tentando compreender porque tenho escolhido este ou aquele caminho em atitudes e linhas melódicas. Ao pôr em evidência os arquétipos extraídos da vida desses dois heróis da canção, tento chegar a uma formulação sobre certos princípios da existência humana, como a convivência de opostos. No caso de John e Paul, essa tensão gerou um produto artístico de uma riqueza e uma qualidade ainda insuperadas. Quem pode explicar que um fosse tão  generoso e conservador, e o outro tão egoísta e paladino da justiça? As dores sofridas por John por causa do afastamento dos pais poderia explicar essa contradição, mas quem é que vai saber mesmo?

Ao fim, Lennon pareceu encontrar a paz nos braços de uma artista de vanguarda vinda de uma etnia rejeitada no Ocidente. (Seria Yoko a mãe pela qual ele tanto chamou e, ao mesmo tempo, a encarnação de uma arte voltada para a superação do passado?). Além disso, dedicou-se de corpo e alma à tarefa de criar Sean, o que talvez o tenha reconciliado com seu próprio pai.

Há pouco tempo, a imprensa noticiou que Mcartney decidira mudar os créditos das canções que compostas sozinho ou liderado: passariam de “Lennon & Mcartney” para “Mcartney & Lennon”, fazendo justiça a si próprio, já que Lennon exigiu que seu nome aparecesse sempre em primeiro lugar.

Eis alguns caminhos da vida e da canção, num minúsculo retrato, sujeito a todo tipo de distorção e erros interpretativos. Penso que, assim como os rapazes de Liverpool, nos assemelhamos aos marinheiros do navio do Capitão Jack Sortudo, colhidos em meio à sina das borrascas e de guerras nas quais temos de lutar sem termos sido chamados a opinar se concordamos ou não. Há que remar, e, quando for a hora, desembainhar espadas, colocando a própria vida em risco em prol do projeto dos poderosos.
 
Obs.: Direitos Reservados ao autor.


"I am the Walrus

I am he as you are he as you are me and we are all together.
See how they run like pigs from a gun, see how they fly.
I’m crying.

Sitting on a cornflake, waiting for the van to come.
Corporation tee-shirt, stupid bloody tuesday.
Man, you been a naughty boy, you let your face grow long.
I am the eggman, they are the eggmen.
I am the walrus, goo goo g’joob.

Mister city policeman sitting
Pretty little policemen in a row.
See how they fly like lucy in the sky, see how they run.
I’m crying, I’m crying.
I’m crying, I’m crying.

Yellow matter custard, dripping from a dead dog’s eye.
Crabalocker fishwife, pornographic priestess,
Boy, you been a naughty girl you let your knickers down.
I am the eggman, they are the eggmen.
I am the walrus, goo goo g’joob.

Sitting in an english garden waiting for the sun.
If the sun don’t come, you get a tan
From standing in the english rain.
I am the eggman, they are the eggmen.
I am the walrus, goo goo g’joob g’goo goo g’joob.

Expert textpert choking smokers,
Don’t you thing the joker laughs at you?
See how they smile like pigs in a sty,
See how they snied.
I’m crying.

Semolina pilchard, climbing up the eiffel tower.
Elementary penguin singing hari krishna.
Man, you should have seen them kicking edgar allan poe.
I am the eggman, they are the eggmen.
I am the walrus, goo goo g’joob g’goo goo g’joob.
Goo goo g’joob g’goo goo g’joob g’goo.



Hey Jude

Hey, Jude, don't make it bad
Take a sad song and make it better
Remember to let her into your heart
Then you can start to make it better
Hey, Jude, don't be afraid
You were made to go out and get her
The minute you let her under your skin
Then you begin to make it better.
And any time you feel the pain, hey, Jude, refrain
Don't carry the world upon your shoulders
Well don't you know that its a fool who plays it cool
By making his world a little colder
Hey, Jude! Don't let her down
You have found her, now go and get her
Remember, to let her into your heart
Then you can start to make it better.
So let it out and let it in, hey, Jude, begin
You're waiting for someone to perform with
And don't you know that it's just you, hey, Jude,
You'll do, the movement you need is on your shoulder
Hey, Jude, don't make it bad
Take a sad song and make it better
Remember to let her into your heart
Then you can start to make it better"
Nelson Oliveira
Enviado por Nelson Oliveira em 25/01/2006
Reeditado em 05/03/2006
Código do texto: T103599
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Sobre o autor
Nelson Oliveira
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 55 anos
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