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O ciclo do ciclone

O ciclo do ciclone

   Há alguns anos, neste espaço democrático da rede, nosso brilhante colega Fábio Doyle, abordou uma passagem relativa à uma frase de sua filha, sobre não ser preciso comprar jornal diariamente, pois as notícias são sempre as mesmas. E agora, eu aproveito o gancho para ilustrar e confirmar tal repetição.

   Tenho um colega que certo dia me mostrou uma coleção inusitada: seu pai arquivara durante quase 50 anos (entre 1930 e 1980), protegidas por plástico e encapadas com papelão escuro e resistente, a 1ª página dos jornais que comprava regularmente. Toda 5ª feira ele guardava a 1ª página do jornal que costumava adquirir, para que não tivesse muito volume a armazenar. Mesmo assim, eu folheei 10 tomos. E observei que só havia uma diferença (além da época, é claro) das notícias que encontramos estampadas hoje em dia: a grafia (farmácia com ph era uma delas – já a palavra ladrão, continua da mesma forma).

   Os grandes vilões eram membros do governo ou seus patrocinadores. Os ralos dos cofres públicos eram a Previdência (em menor escala – mais difícil pois ainda não era unificada), orçamento da União, verbas de ensino, saúde e segurança. As formas de desvio também eram as mesmas: um empréstimo solicitado a uma grande entidade estrangeira (ou venda de títulos públicos) para uma ação social, uma grande obra com muito concreto ou um super faturamento de equipamentos evaporavam em alguns meses. Os deputados também já recebiam bem para embromar 3 vezes por semana. Naquela época já existia caixa 2, 3, 4, ... – e as vítimas, eram as mesmas: elementos da população, sangrados em seus impostos múltiplos, se esfolando por baixos salários e sendo iludidos por novelas fantásticas. Como ainda não havia tv, usavam o rádio, que mantinha a fantasia por meses a fio. As promessas também se repetiam às vésperas de cada eleição: acabar com as secas, enchentes nas cidades, doenças nas zonas pobres, criação de oportunidades para os jovens, falta de escolas e prisão dos que roubavam o dinheiro dos contribuintes.

   Portanto, podemos observar que a forma de condução de nossa nação em nada mudou, pois se tal formato permite a manutenção eterna da elite no poder sem maiores esforços, não há porque alterar o quadro.

   Só desejo alertar e convidar aos jovens de agora, que continuem a adquirir e a ler os jornais que seus pais compram. Eventualmente obtenham exemplares da mídia amestrada e outra independente (a de menor tiragem). Iniciem uma coleção similar à que citei acima, guardando os dois tipos de periódicos. Mas não precisam esperar 50 anos para comprovarem o que já sabemos. Dentro de uns 2 ou 3 anos, num dia de chuva, reunam a família e alguns amigos. Abram sua valiosa coleção e relembrem cada fato que ainda estará vivo em suas memórias. Em grupo, vocês compreenderão todo o cenário do circo que está montado há mais de um século e perceberão as frestas por onde passam os raios da Verdade. E neste momento, despertando da anestesia coletiva, estarão dando o primeiro e decisivo passo para se transformarem em cidadãos conscientes e capazes de erradicar de nossa terra, o ninho de ratos que arrasa nossa dignidade. Ninho este que alimentamos por muitos anos enquanto era pequeno e depois cresceu e assumiu o controle atropelando os homens de bem que na boa fé se acomodaram e se viram atados às concessões permitidas enquanto se deslumbravam com as diversões baratas oferecidas para distraí-los. Hoje, despertamos cheios de esperanças, que se esvaem assim que tomamos contato com nossa rotina diária e percebemos um quadro similar ao deixado por enfurecidos ciclones que arrasam nossas vidas.
Haroldo
Enviado por Haroldo em 31/01/2006
Código do texto: T106591
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Sobre o autor
Haroldo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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