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3 Fluxo do Tempo

 

Enquanto as artes plásticas são espaciais, a ficção literária é uma arte predominantemente temporal: toda diegese pressupõe um começo, um meio e um fim. Um romance constituído por um complexo de valores temporais, em que se explicam o tempo do narrador, o tempo do relato e o tempo do leitor. (D’ONOFRIO, 2001:99)

 

Em Orlando encontra-se uma seqüência cronológica dos fatos, isto é, apresenta um início, um meio e um fim em todos os conflitos apresentados  independentemente e na obra em sua totalidade.

Trata-se de um enredo, como já foi abordado, que se iniciou no século XVI e termina em 1928. 1928, foi a data de publicação de Orlando, sexto romance de Virginia Woolf, composto por seis capítulos.

Não se encontra nenhuma referência do narrador que relacione o número de capítulos ao sexto romance da autora. Mas, a data  de publicação parece-nos estar explicitada nas últimas linhas da narrativa, no que tange a data especificamente: “a meia-noite de quinta-feira, de 11 de outubro de Mil Novecentos e Vinte e Oito” WOOLF, 1994:238.

 


Não se pode afirmar, no entanto, que a autora se referia ao fim da obra e não ao final da narrativa, pois o tempo do autor e do narrador, não é o mesmo. Se fizermos um suposto “diálogo” entre ambos, teríamos a autora em seu tempo real, visto aqui, como cronológico e psicológico associados, intervindo diretamente no tempo real do narrador. Esse último, então, interferiria na seqüência temporal de Orlando, personagem principal, que estaria mergulhado em seu tempo real. Mesmo assim, não  confirmaríamos a relação entre as datas, pois cairíamos no erro de igualar o do término da narrativa e da obra ao  momento exato da publicação.

Tal abordagem serve para enfatizar a não-equivalência temporal, pois a cada instante o tempo se apresenta de forma diferente. Passado, presente e futuro estão simultaneamente interligados e sofrem interferência direta daqueles que os estabelecem como referência.

 

Trataremos, agora, da comunicação momentânea causada pelo discurso, isto é, o tempo presente da narrativa entre o narrador e o leitor. Pois toda obra literária têm a seu tempo modificado a cada leitura realizada, motivada pelo desejo, pelas expectativas e pelo repertório do leitor. Repertório esse que pode limitar ou ampliar a obra explorada.

 

Assim, pode limitar o tempo da leitura propriamente dita ou ampliá-la até os limites das associações temporais que o leitor poderia realizar durante a sua vida. Pois, a cada vez que o leitor retoma determinada obra estaria de certa forma, retomando o dia em que a leu pela primeira vez. Não em sua totalidade, pois o passado foi transformado, assim como o indivíduo, no decorrer do tempo.

 

Há, assim, uma quebra na linha temporal retilínea, aproximando-se, em pensamento, o contato do leitor com o tempo do narrador. Mas o tempo presente se manifestaria novamente, estabelecendo um início, provocando a existência de uma nova diretriz temporal, independente da anterior.

 

Teríamos um leitor que adquire um conhecimento por experiência prévia do contato com o tempo e o espaço, tão significativos apenas, se esse leitor assim o determinar.

 

Mas agora chegamos a um episódio que se encontra no meio do caminho, de forma que não é possível ignora-lo. Contudo é sombrio, misterioso e não - documentado; de modo que não há como explicá-lo. Volumes inteiros poderiam ser escritos para interpretá-lo; completos sistemas religiosos criados sobre o seu significado. Nosso simples dever é expor os fatos até onde são conhecidos, e então deixar o leitor fazer com eles o que puder. WOOLF,1994:53.

 

 

Nesse sentido “ o tempo da enunciação pode ser linear ou sofrer inversões” (D’ONOFRIO,2001:100). Em Orlando há uma ordem linear, no que tange à seqüência lógica dos fatos e, em certos trechos, utiliza-se o narrador de inversões, ora antecipando os fatos: “ Ele - pois não havia dúvida quanto ao seu sexo, embora a moda da época fizesse algo para disfarçá-lo” (WOOLF,1994:15) e somente na página 24, define tal época como “A época era Elisabetana” (WOOLF,1994:53). Ora retomando os fatos;

 

 E como estava a caminhp, podemos aproveitar a oportunidade-...- para chamar a atenção do leitor, mais particularmente do que podemos fazer no momento, para uma  ou duas observações que escaparam aqui e ali no curso da narrativa.  WOOLF,1994:137.

 

O que acontece em Orlando, em relação ao tempo diegético ou do enunciado, está explicitado no tempo cronológico e no tempo psicológico.

 

Primeiramente, abordaremos o tempo cronológico, que pode ser observado na narrativa desde a seqüência dos séculos, das horas até as estações do ano e a idade da personagem.

 

... A grande nuvem – suspensa não apenas sobre Londres, mas sobre todo o território das Ilhas Britânicas no primeiro dia do século dezenove... WOOLF,1994: 165

 

 ...Uma manhã de junho – era sábado, dia 18 – ele se levantou à hora de costume e quando o camareiro...WOOLF,1994: 53

 

... com a nona, a décima e a décima primeira badaladas, uma enorme escuridão se espraiava por Londres inteira. Com a décima segunda badalada da meia-noite,... WOOLF1994: 164

 

O livro inicia a narrativa no século XVI. Há uma marcação temporal cronológica durante toda essa narrativa, como vimos acima. Mas,  a título de interação com fatos que ocorreram nessa época, observa-se que em 1558, Elizabeth primeira se torna rainha da Inglaterra governando até 1603.

 

Em 1900, diz o narrador: “[...] A rainha Vitória ocupa o trono, e não a Rainha Elizabeth, mais que diferença[...}” Woolf,1994:172.

 

Têm-se, nas passagens, a relação dos fatos históricos e o fluxo do tempo cronológico a “marcar” os acontecimentos. Assim como, no início da narrativa, encontram-se referências ao passado da família de Orlando.    Observa-se no trecho abaixo, o próprio fluxo da narração em cadeia, explicitado pela conjunção aditiva (e), revelando um traço de oralidade, gerando a sensação de tempo:

 

Os antepassados de Orlando tinham cavalgado nos campos de asfôdelo e nos campos de pedra e nos campos banhados por estranhos rios e tinham decepado muitas cabeças, de muitas cores e de muitos ombros, e as tinham trazido para pendurá-las nas vigas... WOOLF,1994:15

 

 

 

O tempo cronológico é visto por alguns como um tempo fixo, pois segue padrões pré-estabelecidos. A convenção temporal nos é apresentada através de calendários, por exemplo, mera tentativa de aprisionar datas e fatos. Mas, os momentos podem ser resgatados, através da memória, e trazidos à tona pelos desejos e lembranças das personagens, encaixemos aqui, também, o leitor como participante direto desse resgate. 

 

Como vimos anteriormente, “ [...]O passado ao ser rememorado, perde sua pureza de passado e torna-se presente[...]” D’ONOFRIO,2004:101.  Essa noção de um tempo não-absoluto nos é apresentada através do tempo psicológico, uma das  características dessa obra em questão e, de autores, influenciados pelas teorias psicanalíticas , dentre elas, as teorias de Sigmund Freud.

Abordar o ser humano em sua totalidade, abrange explorar os limites de sua existência. Sua integridade não se apresenta tão somente sob seus aspectos físicos ou aos fatos que o envolvem durante a sua vida. Mas à sua percepção da realidade e às escolhas pertinentes sob esse prisma.

 

Para enfocarmos o tempo psicológico, primeiramente trataremos do indivíduo que se encontra em Orlando, personagem principal. Tal enfoque se faz necessário para estabelecermos uma relação entre os fatos ocorridos com a personagem e suas atitudes interiores e os resgates da temporalidade de tais fatos.

Orlando encaixa-se no arquétipo, do que chamaria Carl.G. Jung, de introspectivo. A personagem, apesar de viver objetivamente no decorrer dos séculos, tem sua energia voltada para o seu interior. Em diversos momentos da leitura da obra encontram-se sua atitude introspectiva, seus recortes mentais das situações e suas fugas para seu “esconderijo interior”.

 

Abaixo, alguns trechos retirados da obra que apresentam esse “indivíduo” chamado Orlando:

 

... Orlando permaneceu olhando fixamente enquanto o homem girava a pena entre os dedos de um lado para outro; fitava e meditava, e então, muito rapidamente, escreveu meia dúzia de linhas e ergueu a vista. Depois do quê, Orlando, vencido pela timidez, saiu em disparada e alcançou o salão de banquetes, justo a tempo de cair de joelhos e, inclinando a cabeça confuza ... WOOLF,1994:21

 

...  Depois, de repente, Orlando caía numa de suas expressões de melamcolia... Pois o filósofo tem razão ao dizer que nada mais espesso do que a lâmina de uma faca separa a felicidade da melancolia...WOOLF,1994:37

 

... - Tudo termina em morte – dizia Orlando, aprumando-se, o rosto velado de tristeza. (Pois era assim que sua mente trabalhava agora, em violentas oscilações entre a vida e a morte, sem se deter no meio, de modo que o biógrafo também não pode parar, tem que voar tão rápido quanto possível e acompanhar o passo das ações impensadas, apaixonadas e loucas e de súbitas palavras extravagantes a que é impossível negar, Orlando se entrega neste momento de sua vida.) ...WOOLF,1994:38

 

 

Há referências a essas introspecções de Orlando, nos relatos de seus inúmeros transes e sonos profundos, pós-traumáticos:

 

...  Não conseguiu ser acordado. Jazia como se em transe, sem respiração perceptível; e embora levassem os cachorros para latir sob sua janela...ele não acordava, não se alimentava e não deu sinal de vida durante sete dias inteiros.... WOOLF,1994:53/54

 

... Mas se aquilo foi sono, não podemos deixar de perguntar de que natureza são os sonos como esses. Serão medidas terapêuticas- transes durantes os quais as mais torturantes lembranças, os ventos que parecem capazes de inutilizar a vida para sempre são varridos com uma folha escura que alisa sua aspereza e doura mesmo os mais feios e mais desprezíveis com brilho e incandescência? WOOLF,1994:54/55

 

 

 

Virginia Woolf utiliza-se as técnicas do fluxo de consciência na elaboração de Orlando. Nota-se, que a obra oscila entre as tais técnicas, consideradas básicas por Robert Humphrey,: Monólogo interior direto: quando a personagem apresenta o conteúdo de sua consciência; Monólogo interior indireto: quando o narrador intervém na apresentação da psique da personagem; Solilóquio: quando a personagem que narra se dirige formalmente a um destinatário. E Descrição Onisciente: um narrador-observador narra, a vida interna e externa da personagem.

 

 Tais técnicas trazem à tona ou enfocam a consciência da personagem principal, ou seja, a área de atenção mental da personagem. Não trata-se apenas  da memória, pois, essa, para Virginia:

 

A memória é a costureira, e uma costureira caprichosa. A memória faz a agulha correr para dentro e para fora, para cima e para baixo, para lá e para cá. Não sabemos o que vem a seguir ou o que virá depois. WOOLF, 1994:62

 

Segundo D’Onófrio, a consciência serve de tela sobre a qual se projeta o material romanesco e o fluxo é a passagem entre várias categorias temporais. Têm-se nessas definições, o retrato da obra em questão. Pois o enredo está vinculado ao estado de consciência de Orlando, nas diversas fases internas e externas da personagem.

 

 

 Mas o tempo, infelizmente, embora faça florescerem e murcharem animais e vegetais com surpreendente pontualidade, não tem o mesmo efeito simples sobre a mente humana. A mente humana, por outro lado, atua com igual estranheza sobre o corpo do tempo. Uma hora, uma vez alojada no estranho elemento do espírito humano, pode ser estendida cinqüenta a cem vezes mais do que sua duração no relógio; inversamente, uma hora pode ser representada com precisão por um segundo, no tempo mental. WOOLF,1994:75

 

Considerações finais

 

A leitura realizada da obra, de Virginia Woolf, não apenas comprova a impossibilidade de uma análise total e fechada da mesma. Como também, aflora a necessidade de se explorar ainda mais algumas temáticas apresentadas e outras que não foram citadas, durante a execução do estudo em questão.

A questão temporal foi abordada sob o ponto de vista amplo, desde sua função como elemento da narrativa e pelo fluxo do gênero romanesco; passando pelo fluxo da história e fluxo da consciência, esse último, visto tanto como técnica do romance, como área mental humana. Assim como nas passagens da obra e nos relatos supostamente explicitados, através do narrador, pela autora.

Convém salientar que as citações, do capítulo direcionado ao gênero romanesco, foram estrategicamente explicitadas com o intuito de enfatizar a provável  descoberta do fluxo do romance no tempo, dentro da obra analisada. Foi uma leitura pessoal e agradável que serviu de motivação para a abordagem seguinte e, ainda, de  percepção da erudição da autora.


Observou-se, durante o estudo, o desafio da autora em demonstrar seu conhecimento abrangente, da História e da Literatura. E, também, suas preocupações com o ser humano, o que engloba os limites e expansões,  físico-mentais e, ainda, com suas obrigações sociais, morais e afetivas, numa época em que ela mesma, conflitava entre seus  dramas pessoais e sua luta por espaço social.

O indivíduo, explicitado em Orlando – personagem -, enfatiza a existência de uma linha tênue entre a própria existência humana, vida e morte; entre as convenções morais, sociais, sexuais, territoriais, etc. E, ainda, uma fronteira frágil que existe entre a noção de tempo e espaço, pré-concebidos pela humanidade, em detrimento à consciência individual e coletiva.

Há a intenção de dar-se continuidade nesse estudo e abordar as temáticas que, aqui não o foram.  Entre essas está a questão mítico-religiosa, pois em Orlando encontram-se referências à  dúvida da existência  de um Deus único ou habitual, ao culto à natureza e à possibilidade de uma vida pós-morte. E, ainda, abordar, a temática psicológica da obra que não foi explorada a contento, devido a sua complexidade, o que motiva um estudo mais detalhado.

Enfim, não se tem como finalizado o trabalho em questão pela simples impossibilidade de finalizar-se algo, que posteriormente possa ser retomado. Assim como o tempo, objeto de análise, a leitura de uma obra tem um rumo cíclico e ultrapassa qualquer limite objetivo.

 

Referências

SANTAELLA,  Lúcia e NÖTH, Winfried. Imagem, Cognição, Semiótica e Mídia. Rio de Janeiro: Iluminuras, 2005.

WOOLF, Virginia. Orlano. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 2004.

SAMUEL,  Rogel. Novo Manual de Teoria Literária. Petrópolis, RJ: Editora Vozes Ltda, 2002.

FREUD, Sigmund. O Mal Estar da Civilização. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda, 2002.

ORLANDI, Eni P. Análise do Discurso. Campinas, SP: Pontes Editores, 2000.

DÓNOFRIO, Salvatore. Teoria do Texto 1 – Prolegômenos e teoria narrativa. São Paulo: Editora Ática, 2001.

JUNG, Carl G. O Eu e O Inconsciente: Petrópolis, RJ: Editora Vozes Ltada, 1996.

HUMPHREY, Robert. O Fluxo da Consciência. São Paulo: Editora McGraw-Hill do Brasil Ltada, 1976.

SILVA, Vitor Manuel de Aguiar e. Teoria da Literatura. Coimbra: Livraria Leopoldina, 1973.

 

 

 

 

Nadia Rockenback
Enviado por Nadia Rockenback em 20/07/2008
Reeditado em 20/07/2008
Código do texto: T1089443

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Sobre a autora
Nadia Rockenback
Magé - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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