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Terra e céu. Uma visão crítica da seca do nordeste


     Eu morei na Paraíba, em João Pessoa, quando, entre 1980 e 1985 exerci a função de Superintendente da Caixa. Lá conheci seca, vi a miséria do povo, mas também me deparei com a inércia de alguns, a desfaçatez dos políticos, o coronelismo.

     Certa vez, eu visitava a cidade de Patos, no agreste, e olhando para o céu cheio de nuvens, naquele dia quente, me atrevi a dizer: “Acho que vai chover, está nublado...”. Um caboclo me atalhou: “Deus lhe ouça, doutor, tá assim há três anos...”.

     Mais tarde, conversando sobre a seca com outras pessoas, escutei delas uma frase no mínimo curiosa: “Aqui na Paraíba a terra é boa, o céu é que não presta...”. Depois, aprofundando a afirmação, fiquei sabendo que o subsolo (a terra) é excelente, cheio de lençóis freáticos, que poderia, se bem explorado, resultar em bons açudes a despeito do sol inclemente (o céu).

     O grande problema de lá, sempre foi e persiste até hoje, é o coronelismo, a política do cabresto, onde os homens públicos e os aspirantes a mandatos têm atreladas as pessoas e as instituições, de forma que tudo passe por eles, no sentido de obter prosélitos e votos.

     O cidadão, no meu exemplo da Caixa, tinha direito a uma operação bancária, mas vinha à agência (quando não à Superintendência) pela mão de um político. Isso gerava cabresto, formava curral e ensejava dependência.

     O coronelismo funcionava em parceria com a Sudene. Só recebiam os caminhões-pipa aqueles municípios politicamente “alinhados”. Na época da seca a Sudene inventava, nos mesmos municípios, as “frentes de emergência” que era a contratação da família toda, a uma ridícula ajuda-de-custo, onde as pessoas trabalhavam de sol-a-sol fazendo montículos de terra aqui, ali e acolá, na esperança de que, quando chovesse, se formasse ali um açude. Ridículo!

     O problema não era a falta de verbas, mas o mau uso delas e a falta de projetos adequados. Recordo que o Presidente da Caixa, com sua irreverente verve de carioca afirmou certa vez que “se cada nota de um cruzeiro que veio para o nordeste fosse transformada em um copo d´água, toda a população teria morrido afogada”.

     Hoje vejo o debate, de certa forma inócuo e ideológico contra a transposição do rio São Francisco. As oposições instrumentalizam certos segmentos do povo, através de Ongs e outras entidades, pois a obra, se concluída terá um quilate dos canais de Suez ou Panamá, ou assemelhada à obra de Hokenhein (na Alemanha), onde um canal passa por cima de um rio, fazendo um cruzamento de duas vias navegáveis. As oposições jamais consentiriam com a aquisição de tamanhos ganhos políticos.

     Na época falavam em “falta de vontade política”. Hoje existe esta vontade e agora estão contra. É certo que o projeto pode prejudicar cerca de 100 mil pessoas das populações ribeirinhas, mas vai levar água a três milhões. É ilusório, senão má-intenção falar na existência de açudes naturais. Milhões de pessoas nao podem ficar à mercê de algo fortuito e espontâneo.

     É preciso planejar e investir, caso contrário os problemas de cem anos para cá vão continuar os mesmos. Uma das causas da guerra de Canudos foi a enrolação que o povo pobre foi submetido. Aí apareceu o "conselheiro" e foi considerado subversivo, "quinta-coluna".

     Alguns segmentos da mídia, criticam sem saber por que o fazem, apenas inspirados por alguns “comunicadores” de araque acham que é assim. É a mesma coisa com o MST. Os Jabor da vida falam em “bandidos” sem se dar conta que há bandidos em todos os segmentos da sociedade. A partir dos engravatados.


                          Doutor em Teologia Moral
Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 24/07/2008
Código do texto: T1095259

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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 72 anos
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Antônio Mesquita Galvão



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