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CAXIAS e as lições da BALAIADA

CAXIAS e as lições da BALAIADA
FLAVIO MARTINS PINTO
Guardadas as devidas proporções, no tempo e no espaço , podemos extrair ensinamentos daquele conflito interno ocorrido no século passado.
A partir de 1839 na Província do MARANHÃO,
BALAIO impunha sua lei e ordem ao arrepio das autoridades legais. O MARANHÃO constituía-se um feudo particular de uma horda de bandoleiros, que se aproveitava da ausência do Estado e da conivência de quem deveria tomar as devidas providências, para sobrepor-se aos direitos dos demais cidadãos. A nada respeitavam ou temiam. Seus atos extrapolavam tudo que se podia considerar como atos de bandidagem. Um exército de miseráveis á margem da lei , como a vingar o desprezo da sociedade para com eles, assolava com suas armas de fogo e poder de intimidação toda população maranhense.
A Vila de CAXIAS, a Princesa do Sertão, foi tomada e subjugada após um cerco de 46 dias. Foi o triunfo da miséria humana. A desforra do crime contra a lei. Era a nata da podridão humana triunfando contra a honra e a sociedade. Como num cortejo bárbaro, BALAIO desfila ante seus seguidores que, dispostos em alas, o reverenciam num cortejo sinistro. E impune a besta vencia e desafiava e debochava do anjo da lei e da ordem.
E os políticos o que faziam?
Degladiavam-se entre si acumulando rebarbas nos feudos de BALAIO. Locupletavam-se. Mandavam e desmandavam num mar de impunidades e descaso para com o povo, desencadeando uma torrente de atos e horrorosos cometimentos. Apodrecia o poder público e o quadro social se degradava.
Mas nem tudo estava perdido.
O Conde de LAGES mandou chamar o TenCel LUÍS ALVES DE LIMA E SILVA , lhe determinando:
-Coronel, são necessários os seus serviços nesta hora. O fanatismo do cangaço com a luta dos partidos ameaça o MARANHÀO. É preciso estancar este sangue de qualquer forma. E já.
Era a resposta do Império, mesmo engajado na Revolução Farroupilha, ante a ameaça da falência total da autoridade na província maranhense.
A tarefa era penosa, mas ao alcance de quem seria, mais tarde, proclamado como o maior de todos os soldados.
Ao chegar ao seu destino, pouco mais de dois meses após o recebimento da missão e já na condição de Presidente da Província e Comandante Militar, emite uma proclamação ao povo , concluindo:
-“Maranhenses! Mais militar do que político, eu quero ignorar os nomes dos partidos que, por desgraça, entre vós existem. Deveis conhecer as necessidades e as vantagens da paz, condição de riqueza e prosperidade dos povos e, confiando  na Divina Providência, que tantas vezes nos tem salvado, espero achar em vós tudo o que for mister para o triunfo de nossa santa causa”.
O que aconteceu a seguir foi um bem montado cêrco militar com efeitos imediatos. O Exército saneado, preparado especificamente, motivado e tendo a seu lado a ação presencial efetiva do Estado, asfixia os fora da lei. Muitos de imediato, ao pressentiram a derrota, aliaram-se as tropas legais e passaram a ser algozes dos seus ex-companheiros , gerando enorme cizânia entre eles. O serviço de Informações da tropa legal também atuava neste sentido, desarticulando os criminosos.
A perseguição era implacável. Não havia trégua, sendo os revoltosos presos ou mortos. Contudo, ao ser preso, não era maltratado, sendo-lhe dispensado um tratamento humano e digno. Esta era a marca do futuro Duque de CAXIAS. Este tratamento humanitário rendia inúmeros dividendos para as tropas legais, dentre eles a adesão de bandidos que abandonavam a sua lida a margem da lei para se tornarem parte das forças legais ou simplesmente afastavam-se de seus comparsas. Ocasionava também a necessária confiança na ação da tropa legal por parte da população e uma indiscutível ascendência moral.
A firmeza e a disciplina dos soldados vão desmantelando , aos poucos, os covis de bandidos, retomando vilas, fazendas, cidades e restabelecendo a lei e a ordem. Os bárbaros fogem e são presos e caçados em operações desencadeadas até os limites da província.
Enquanto o poder militar atuava, como Presidente da Província,o TenCel Luís Alves de Lima e Silva desencadeava uma série de medidas que beneficiavam o povo, dentre elas , a construção  de escolas, estradas, pontes, hospitais, armazéns e proteção ao comércio.
Mas que lições poderemos tirar ainda daquele conflito distante ?
Os ensinamentos convergem para a ação do Estado naquilo que é sua responsabilidade através dos seus elementos constituídos: a segurança dos seus cidadãos. Muito se assemelhava a situação com a que se encontrava , e se encontra agora em 2003, a cidade do Rio de Janeiro , quando do emprego das Forças Armadas na Operação Rio , particularmente nos campos político e psicossocial.
CAXIAS deixou-nos, além da sua magnanimidade , perfeita visão dos problemas.
Os bandidos, na realidade são seres humanos e como tal devem ser tratados, embora a sua reconhecida periculosidade e desrespeito com a sociedade.
Outra lição que nos deixa o nosso maior soldado é  de que a tropa legal no combate a marginália, jamais deve pensar em agir como eles, pois num curto espaço de tempo, certamente a eles igualar-se-á. Criar-se-á mais um núcleo de celerados com todo o aparato legal nas mãos. Perderia a  tropa legal a ascendência moral necessária para manter a disciplina, o moral da tropa, a confiança em si e por parte da população no seu trabalho. Esta, ao pressentir a firmeza certamente a apoiará em tudo, particularmente no que se refere as atividades de Inteligência.
O suporte intimidador e coator da marginália face a população  só regrediria após ação conjunta da força legal com suas atividades policiais específicas e a do Estado no campo psicossocial, ou seja , educação , saúde, empregos e saneamento básico. O engajamento deve ser total. Caso contrário....pois a bandidagem aguarda a ausência do Estado para impor sua lei.
Contudo nada poderá ser feito sem o apoio integral da população. Esta tem de ser atuante e não se omitir, pois sua sobrevivência estará em jogo.
Certamente o povo maranhense , ciente disto, atendeu ao chamado do  jovem Tenente-coronel, tudo no século XIX, sem a parafernália de comunicação esclarecedora e informadora ao nosso dispor hoje.
O resultado todos conhecem.
FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 15/02/2006
Código do texto: T112396

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
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