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Descrevendo as virgens de Tambaú

Dizem que o melhor carnaval do mundo é aquele das escolas de samba do eixo Rio - São Paulo. Não poderia haver maior engano. Aquele lá é o maior e mais famoso. O melhor carnaval do mundo é o paraibano, mais especificamente, ganhando fôlego na capital João Pessoa.

É bem verdade que a autora aqui aproveita a crônica para cantar com entusiasmo sua terrinha, correndo o risco de exagerar. Mas, no duro, me esquivando de qualquer nativismo, ainda afirmo que o carnaval de Jampa é melhor que o do Rio.

Aquela estrutura de escola de samba, aquele monte de moças seminuas, os globais do momento desfilando de mestre-sala, nada disso me atrai. Soa paradisíaco para os gringos, é fato, e muitos brasileiros gostam, mas eu (pura preferência pessoal) não aprecio. Nunca tive saco de assistir desfile pela TV, sou doente do pé e acho o apelo sexual ridículo.

Na verdade, nada contra sexo. “Safadeza” em dose homeopática (ou não) é sempre algo interessante. A referida festa pessoense, por exemplo, tem na sexualidade seu ponto mais forte. Só que nós aqui fomos mais inteligentes: em vez de lotar os meios de comunicação com bundas, lotamos as ruas da cidade com criaturas bizarras, conhecidas por “virgens de Tambaú”.

Essas moças são, nada mais nada menos, do que rapazes. Isso mesmo. Uma vez por ano, e só 1, os homens de João Pessoa libertam seu lado feminino (que juram ser “sapatão”), acordam mulheres mesmo e botam as fantasias pra fora, junto com as pernas peludas em minissaias provocantes.

E não há desfile da beija-flor que supere o prazer de pegar um carro e percorrer Bessa-Manaíra-Tambaú, apreciando a criatividade dos caras. Você vê homens imensos apertados em roupas microscópicas, barrigões brancos saltando para fora de shortinhos, garrafa vazia de refrigerante de 2L (daquelas de plásticos) imitando seios, gritos falseteados, unha pintada, camisolinha do piu-piu... Lembra, de certa forma, outro bloco tradicional nosso, o CAFUÇU, onde a palavra de ordem é mau gosto e extravagância. E levam a palavra de ordem às últimas consequências. São tão extravagantes que é impossível falar de tudo. Os acessórios são variadíssmos. Os temas, também: seja batgirl, odalisca ou tiazinha, só não vale, aqui, ser homem.

 Lógico que não apenas os homens brincam com a sexualidade nesse dia. Nós moças (talvez não tão virgens como as de Tambaú, mas moças, na biologia), tratamos nossas novas amigas com a cumplicidade típica do sexo feminino.

Fenômeno social interessante, este é o único dia do ano em que se registra uma adesão maciça à causa gay. Grande parte disso se deve aos homens que resolvem “passar para o outro lado” de manhã cedinho e, lá pelas 4 da tarde, não sabem nem em que lado da cidade estão, que dirá o lado de sua sexualidade. Algumas mulheres também dão sua contribuição, resolvendo-se lésbicas por 1 dia, e percorrem nossa modesta polis gritando: liiiiinndaaaaaa! Gostosssaaaaaa!

Melhor: João Pessoa é uma cidade pequena, onde encontros casuais não são raros. É um prazer topar na rua com nossos professores, médicos e demais profissionais sérios em roupas inimagináveis e atitudes que até Deus duvida, e que manchariam qualquer reputação em qualquer outro dia do ano.

A coisa toda é tão empolgante que lembra um pouco o baile de carnaval antigo, onde sexo era o tempero, e não o prato principal. Adaptados aos novos tempos, é bem verdade que nosso melô está mais para o “beat da beata” do que para o “abre alas”, mas preservamos dos antigos a alegria carnavalesca genuína. A festa aqui é mais interessante porque nem é um cabaré ambulante nem, tampouco, falta animação. Na verdade, o sincretismo de velho e novo, a mente provinciana do povo e acanalhação típica da época produzem uma bagunça que podemos chamar de carnaval.

O fato é que, segunda-feira, não resta pedra sobre pedra. O pessoal dá carga máxima no domingo e tenta levar o resto da semana como se nada tivesse acontecido, apesar da ressaca coletiva.

Esquecemos os excessos e levamos a semana, ainda com os  comentários, piadas que vão morrendo com os dias, até que chegue outro carnaval. E uma coisa que deve permanecer na cabeça das pessoenses é a dúvida: se eles nos divertem mais quando estão pulando de calcinha e batom, ou se quando, no dia seguinte, voltam a ser nossos maridos, pais, namorados... Afinal, é bem verdade que os queremos nossos homens. Mas todo mundo ama as virgens de Tambaú...
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 18/02/2006
Código do texto: T113594
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
44 textos (139772 leituras)
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Jéssica Callou