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Veste que apodrece

Os anos se somam, a idade avança, e todos constatamos com o tempo que o que fica mesmo são os sentimentos. Aprendemos uma dinâmica interessante um dia desses que aplicamos em uma de nossas palestras:
Pedimos um voluntário que supostamente fosse nascer. Perguntamos o que ele precisava para nascer. Ele respondeu que precisava dos pais. Ótimo e óbvio! Aí perguntamos à platéia quem seriam os pais. Apresentaram-se dois voluntários. Seguimos depois com  uma série de perguntas, que o voluntário foi respondendo, e para cada resposta havia necessidade de novos voluntários se apresentarem para comporem e representarem o que podemos chamar de família, recursos ou bens materiais necessárias à vida do candidato ao nascimento. No grupo somaram-se irmãos, professores, amigos, cônjuge, empregador, líder religioso, sogros, cunhados e filhos. Uma multidão agregou-se ao nosso primeiro voluntário, para curiosidade da platéia.
Na seqüência, imaginamos diversas situações que normalmente ocorrem na vida de qualquer pessoa e que resultam em separações. Por exemplo: viagens ao exterior, acidentes fatais, mortes naturais, conclusão de cursos, desemprego, aposentadoria, casamento de filhos.
A cada situação apresentada (morte, viagem, casamento, mudança acidente, etc), por hipótese, o candidato representativo do personagem envolvido voltava para a platéia, de forma que, após várias situações, nosso primeiro candidato voltou a ficar sozinho perante o público. A idéia da dinâmica era mostrar de quantas pessoas e recursos estamos cercados para tornar viável a existência no planeta. E, da mesma forma, de como tudo isso é frágil e passageiro, diante das circunstâncias e situações que a vida pode apresentar.
No final da dinâmica, com o candidato já sozinho e supostamente representando estar bem idoso (devido aos comentários acrescentados durante a abordagem), perguntamos: o que sobrou, amigo? Você separou-se de seus familiares, perdeu seus bens, está idoso e enfermo. O que ficou de sua vida?
E aí a sábia resposta que vale para todos nós: Ah! Ficou a experiência vivida, ficaram as saudades, os sentimentos!
Sim, notável! Ë o que fica mesmo. E que verdadeiramente levamos conosco.
Daí o título do artigo. O corpo, embora necessário e útil, tem tempo limitado de uso. Em síntese, no final mesmo, é apenas veste que apodrece. Sem ele, contudo, não podemos viver as extraordinárias experiências de aprendizado proporcionadas pela vida humana.
Isto lembra o dever de respeitá-lo integralmente, e dele cuidar, até o limite fixado pela própria natureza. Porém, não somos o corpo, estamos nele.
Neste ponto surge a necessária abordagem sobre as ilusões do orgulho diante de pretensões descabidas de domínio e falsa superioridade, oriundas de títulos, riquezas, posições ou condição social. Estamos num corpo que é uma veste que apodrece com o passar dos anos. O que fica mesmo são os sentimentos que nutrimos, a simpatia que conseguimos despertar, a esperança que conseguimos distribuir. Estes nunca apodrecem. Acompanham-nos garantindo o retorno da gratidão e das alegrias distribuídas, que sempre voltam ao autor.



Orson
Enviado por Orson em 21/03/2006
Código do texto: T126297
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Sobre o autor
Orson
Matão - São Paulo - Brasil, 56 anos
298 textos (94352 leituras)
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