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Como os jesuítas de hoje vêem a atuação da Companhia de Jesus no período colonial brasileiro?

Dada a importância dos Jesuítas para a história não só do Brasil, mas de todo o mundo colonial, a história da Companhia de Jesus e consequentemente de seus missionários é um rico e absorvente tema para pesquisa. Por causa disso estou aqui me propondo a pesquisá-los, investigá-los e entender melhor a saga desses religiosos. Os jesuítas foram de fundamental importância para o estabelecimento da transição para uma nova ordem social, cultural e territorial na Capitania do Rio Grande, como em todo Brasil. Com a conversão e a aculturação dos povos nativos, os jesuítas vão plantando as sementes do Cristianismo e promovendo a dilatação das fronteiras coloniais, com o avanço territorial das suas missões e o domínio espiritual das nações indígenas, criando uma nova fase na história. Essa nova fase é descrita em sua correspondência de forma entusiasta e bastante entusiasmante. O estudo e a análise dessa correspondência demonstram a atuação dos padres da Companhia de Jesus com relação ao avanço dos colonizadores em terras da capitania e da dominação de conquistadores sobre conquistados.
Na análise dessas cartas procurei investigar: a catequese; quais as relações estabelecidas entre os missionários e a população nativa; analisar como se dava a percepção do pecado e a construção da lógica da culpa dentro do binômio jesuítas/índios; e as mudanças ocorridas cultural, social e religiosamente pela influência de um sobre o outro. Analisei o discurso jesuíta como consagração do trabalho dos missionários, levando para o além-mar a propaganda vitoriosa da missão, fornecendo assim o estímulo necessário à formação e à vinda de novos missionários que se incorporariam a ela na Capitania do Rio Grande, buscando trazer à luz toda a realidade existente no discurso contido nas cartas, bem como a simbologia do real, ora latente, ora patente, que permeiam as falas, as descrições e o apelo propagandístico que tais cartas encerram.
As cartas que são a princípio o veículo de comunicação entre os padres nas aldeias e missões, os provinciais nos colégios e o General da Companhia em Roma descrevem de modo geral as aldeias, os índios e os trabalhos de conversão. Essas cartas acabam adquirindo matizes diversos, no que diz respeito à comunicação efetiva de atitudes, recepção, localização, contrastes, conflitos e definitiva aculturação das massas gentílicas.
Nessa rica correspondência, podemos perceber grande preocupação, por parte dos missionários, com a formação de Missões de Aldeamento em número que fosse suficiente para o sucesso da empresa evangelizadora, com a moralização do clero, a disposição dos missionários pelas aldeias, o sofrimento de alguns noviços por causa do árduo trabalho e a perdição de outros, assim como a grande preocupação com a conversão e a conservação do gentio.
Os padres jesuítas, descreviam a localização do espaço geográfico a ser coberto pela evangelização, os limites de jurisdição, a dor dos índios sem a doutrina, ocasionada pela demora de se ter, às vezes, um padre na aldeia. Fazem a propaganda da boa recepção da glória de Deus nas aldeias e para os índios e o grande desejo que os gentios expressavam de ser cristãos, posto que já estivessem cônscios, pela pregação dos padres de que a salvação de suas almas só seria possível pela conversão á fé cristã, por fazerem parte da Igreja e que aqueles que não conhecessem o criador estavam cegos
As cartas enaltecem uma arte que já fazia parte da tradição da Companhia, a arte da persuasão. A pregação, a arte do sermão, como exercícios do discurso, sempre estiveram associados aos padres da Companhia. As estratégias discursivas se tornam evidentes pela colocação corporal do missionário em sua efetiva vivência. O corpo é o espaço simbólico e instrumental para o discurso e a prática religiosa, pois garante a continuidade do trabalho, porque da correta e bem pensada atuação deste corpo no espaço, com gestos e atitudes adequadas dependia o sucesso ou o fracasso dos projetos evangelizadores. Os próprios manuais de retórica usados pelos missionários, mostram uma grande atenção aos gestos e à pronúncia.
Através da análise feita, eu acredito inclusive, que os missionários preparados e treinados na técnica do convencimento, com toda uma postura corporal previamente estudada e elaborada, usando o corpo como espaço simbólico e instrumental com sua política de gestos e modelos de comportamento, também se preocupavam com a história e tinham a consciência do que é ser histórico e usaram sua correspondência não apenas como meio de comunicação entre si e/ou com a metrópole.Que além da preocupação com a propaganda, com a narração do real e de toda sua simbologia, os padres da Companhia de Jesus, também se preocuparam com a posteridade e usaram as cartas com a intenção de registrarem na história, sua atuação e seus feitos na forma de catequese.
Como existem “casas” de Jesuítas espalhadas, hoje, pelo mundo, decidi, através da história oral, investigar a seguinte problemática: Como os jesuítas de hoje vêem a atuação da Companhia de Jesus no período colonial brasileiro? Além disso, por toda a importância que esses missionários tiveram na formação de “um povo brasileiro”, e por hoje terem caído num certo esquecimento, julgo pertinente trazer à luz a forma pela qual se dá a atuação da Companhia nos dias atuais. Busco investigar as mudanças e permanências dentro das suas regras, dos seus costumes, do seu treinamento e da sua ideologia no decorrer dos tempos. Identificarei transformações que se operaram (se houverem transformações) e de que forma isso se deu.
Ao pagar o “Seminário de História do Brasil I”, com a professora Maria Emília Monteiro Porto, tive contato com algumas cartas jesuíticas. Ao todo foram lidas dez cartas jesuíticas, escritas entre o século XVII e o século XVIII. Vi-me absolutamente fascinada pelo trabalho, pelas técnicas de um treinamento quase militar desses missionários. Após a análise dessas cartas, que encerram a realidade e a simbologia do real permeando as falas, as descrições e o apelo propagandístico no discurso dos “soldados” da Companhia de Jesus, decidi que deveria estudar mais o assunto e é isso que venho, dentro das minhas limitações, procurando fazer desde então.
O tema já foi abordado por vários historiadores consagrados na historiografia brasileira e outros que não tiveram esse destaque. Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, aborda de passagem a atuação dos missionários jesuítas. Quando fala da vontade de mandar e a disposição para cumprir ordens dos portugueses, no capítulo intitulado Fronteiras da Europa, diz: “Não existe, a meu ver, outra sorte de disciplina perfeitamente concebível, além a que se funde na excessiva centralização do poder e na obediência” (HOLANDA, Raízes do Brasil, p. 39). E ainda, segundo Sérgio Buarque, os Jesuítas representaram melhor do que qualquer outro o princípio da disciplina pela obediência, deixando, como exemplo disso, as suas reduções e doutrinas, e nenhum Estado totalitário conseguiu sequer vislumbrar o milagre da racionalização que os Jesuítas conseguiram em suas missões na América portuguesa. Em outras passagens, meio soltas pelo livro, relata a respeito da organização dos Jesuítas em suas reduções, sempre fazendo um contraponto com a estrutura psicológica do conquistador português e com situações com as quais esses se deparam em terras brasílicas, como quando ele diz sobre o futuro da rede urbana que: “[...] ao passo que nessas o agrupamento ordenado [...] o que se exprime é a idéia de que o homem pode intervir, [...] a história não somente “acontece”, mas também pode ser dirigida e até fabricada [...]”. (HOLANDA, Raízes do Brasil, p. 39).
O mesmo Sérgio Buarque aborda esse tema em “Visão do Paraíso”, quando se refere em algumas passagens à mão-de-obra farta para a agricultura, a gentios domesticados, prontos para se baterem em luta contra índios contrários em favor dos colonos, quando fala em índios cristãos, nos remetendo imediatamente às missões jesuíticas, onde esses índios aldeados constituíram reserva de guerreiros e mão-de-obra à disposição da Coroa e dos colonos, na empresa colonial. Relata sobre a atitude missionária, que, em sua opinião, se baseava no realismo e não no idealismo, pois o julgamento daqueles sobre os indígenas não era de forma alguma lisonjeiro. Para Nóbrega, os índios eram como “uns papéis brancos” onde se poderia escrever o que se quisesse; eram os índios como cães em se comerem e se matarem e como porcos no seu modo de vida e na forma de se tratarem. E até Anchieta, nosso doce evangelizador, diz que para “esse gênero de gentes não há melhor pregação do que a espada e vara de ferro”. Anchieta se compara a um veterinário pela necessidade que surgiu de cuidar das doenças dos índios. Sérgio Buarque de forma crua e realista desmistifica aquela visão que geralmente se tem do “missionário bondoso” e de que nem os missionários e, talvez, principalmente eles, tinham dos nativos a visão do “bom selvagem”.
Em Trópico dos Pecados, Ronaldo Vainfas abordou o tema dentro da visão histórico-religiosa da Reforma, do Concílio de Trento e da chamada Contra Reforma, que nada mais foi do que outra Reforma só que dessa vez dentro da instituição eclesiástica e teria acontecido independente da primeira, implicando uma profunda reforma dos costumes e das moralidades vigentes pela reordenação da sociedade à luz dos valores cristãos. O espírito da Contra Reforma, segundo Vainfas, chegou ao Brasil pela voz dos Jesuítas, através da aculturação dos povos nativos, nos mesmos moldes que se pretendia fazê-la na Europa. Lá se procederia através da aculturação massiva popular e rural. De-culturação e catequese das massas, demonização e aculturação dos campos. A visão portuguesa do gentio foi singular, pois foram os Jesuítas os que mais produziram discursos a respeito do assunto no Brasil. Fala do dia-a-dia da catequese, na correspondência interna em que se abordavam os problemas da missão, e nos discursos predominavam a detração, a hostilização dos Jesuítas com relação aos índios. Nóbrega chega a dizer que, exceto por um ou dois padres, os demais não nutriam simpatia pelos gentios.
E seguindo esta análise, Vainfas vai relatando os horrores que os índios causaram aos padres e a constatação de que os portugueses também haviam caído no desregramento natural da terra. Por isso, se fazia urgente a catequese e a aculturação indígena, assim como a reafirmação da cristandade dos “patrícios”.
Fátima Martins Lopes aborda esse tema em seu: Índios, Colonos e Missionários na Capitania do Rio Grande do Norte, no qual critica e historicamente relata a saga dos padres da Companhia de Jesus desde a sua chegada, passando pelas Missões Volantes às Missões de Aldeamento, deixando claro, no decorrer do seu texto, a importância das Missões Jesuíticas para o povoamento dos sertões nordestinos, em especial da Capitania do Rio Grande. Segundo o seu relato, a função do missionário era “salvar almas”, mas também a de formar uma massa domesticada que servisse em todos os aspectos à colonização da terra. Essas determinações são encontradas no Regimento das Missões e no posterior Diretório dos Índios. Segundo Fátima, “pode-se dizer, que sobre o pretexto da propagação cristã, da proteção ao indígena e da implantação da civilidade sobre o caos que gerou o etnocídio indígena, encontra-se o substrato da ideologia mercantilista européia”. Isso deixa claro para nós que, apesar do objetivo religioso, o que se faz mister é o objetivo político-econômico de possibilitar a colonização portuguesa, que dependia do trabalho indígena, que estava sempre à sua disposição, manso e cordato nos redutos formados nas Missões Jesuíticas.
Maria Emília Monteiro Porto, em sua Tese de Doutorado, aborda o tema, falando à priori da relação estabelecida entre a religiosidade medieval e a mística das devoções populares do Nordeste brasileiro, contrapondo os conceitos de cultura popular e erudita, identificando a passagem do medieval para o moderno. Segundo a autora, a primeira modernidade desenvolvida no ocidente foi levada à América pelo cristianismo a finais do século XVI. O ambiente moderno da conquista de novas terras traduziu-se em idéias e práticas. E foi a Companhia de Jesus integrante ativa no processo de conquista através de evangelização na América. Os padres da Companhia de Jesus foram modelos de inovação desde a sua fundação e, como tal, chegam ao Brasil, com uma teoria e uma prática discursiva, um embate ideológico e práticas culturais que participam da Idade Moderna e que envolveram a Capitania do Rio Grande nesta modernidade.
Partindo da conquista do litoral e adentrando pelos sertões, Emília vai relatando a atuação dos Jesuítas, descrevendo os missionários como soldados desbravadores e o seu trabalho catequético como a ação de conquistar, demarcar territórios, dominando pela defesa da fé, criando na região uma identidade cultural, como síntese do seu processo colonizador, que foi se desenvolvendo ao longo da sua presença na Capitania até o momento da sua expulsão de todas as colônias portuguesas, dentro do contexto da política pombalina. Além de referenciar a correspondência da Companhia de Jesus “como texto básico sobre o qual desenvolveu o processo de análise e interpretação: O intérprete e o texto apresentam seus horizontes próprios e a compreensão supõe a fusão desses horizontes”. (PORTO, p.26).
A minha proposta de trabalho diferenciar-se-á dos trabalhos que já foram feitos a respeito do tema sobre o qual me propus estudar, por que: A partir da bibliografia existente, reunirei dados, conhecimentos e identificarei o Jesuíta de hoje como sucessor daqueles da colônia, descobrindo através da história oral como esses Jesuítas vêem a atuação da Companhia de Jesus no período colonial.
O objetivo do presente estudo é demonstrar, através de análise das fontes historiográficas tomadas como base, a importância da Companhia de Jesus para a formação do território brasileiro através da catequese, da aculturação, do aldeamento como reduto da mão-de-obra necessária para o desenvolvimento colonial, partindo da análise da história da Companhia de Jesus, da importância do seu papel no avanço territorial e no posterior desenvolvimento econômico da colônia, estabelecendo uma relação entre os missionários que chegaram ao Brasil nos primórdios da colonização e os jesuítas de hoje. Faz-se necessário para tanto saber o que ficou e o que mudou e, principalmente, o que pensam os jesuítas de hoje sobre a atuação dos jesuítas de ontem na empresa colonizadora. E, para que isso se torne possível, será preciso investigar as regras da formação do missionário de ontem e conhecer a formação do jesuíta atual, verificando as mudanças ocorridas, nos critérios que regem a Companhia.
Na cidade de João Pessoa – PB se encontra uma casa de formação jesuítica e para lá eu fui para atingir o objetivo final proposto neste estudo. Lá entrevistei o padre Henrique, um dos superiores desta casa. Padre Henrique é jesuíta há vinte e cinco anos e ordenado padre há catorze. Gaúcho de nascimento, de Salvador do Sul, pequena cidade da Serra Gaúcha. Ingressou na Companhia de Jesus aos vinte e oito anos (hoje ele tem 53), antes era funcionário público municipal, nunca se casou e sempre manteve a castidade, mesmo antes de entrar para a vida religiosa, pois na comunidade alemã de rígidos preceitos onde vivia sexo antes do casamento era muito mais que um escândalo, segundo ele. Henrique pertence também a uma família de religiosos, de várias ordens e, também diocesanos. Foi criado praticamente, em uma paróquia pertencente aos jesuítas, pois dois tios seus já falecidos eram religiosos da Companhia. Muito atencioso e gentil, o padre Henrique me esclareceu muitos pontos e me deu conhecimento de outros que eu desconhecia completamente.
Quando pergunto sobre as suas motivações pessoais, fora a procedência familiar, ele me diz que as suas motivações foram se transformando ao longo do tempo. Diz que a princípio queria salvar o mundo, conhecer o mundo, mas que depois de adquirir certa maturidade pessoal e espiritual, passou a querer apenas trabalhar pela Companhia, nas obras da Companhia, onde quer que a Companhia precisasse dele.
Os jesuítas são pertencentes a uma ordem religiosa apostólica autônoma que, no que diz respeito à missão da Igreja, tem especial atenção para atender às necessidades da Igreja Católica na pessoa do Papa, que, assim é seu superior último.
Quanto à especificidade da ação, a Companhia de Jesus se dedica, especialmente, à educação; missões “ad gentes”, isso é, ir para onde não há pastores e clero autóctone para aí iniciar a evangelização, incluindo trabalho com refugiados em Angola e Moçambique; nativos; formação do clero (estudos filosóficos e teológicos e formação espiritual) e paróquias. Destacam-se, sobretudo, três áreas: educação, formação do clero e evangelização. Em São Paulo e No Rio de Janeiro atuam junto às populações carentes das favelas e na Amazônia junto às populações ribeirinhas fazendo todo um trabalho social que é executado pelos padres e pelos irmãos jesuítas.
Os jesuítas atuam em cerca de 128 países por todo o mundo. Na África, além de trabalhos na área paroquial e educação, também há um trabalho específico e bastante amplo, com refugiados, especialmente em Angola e Moçambique como já foi dito anteriormente. Em muitos países, os jesuítas estão em atividades missionárias, enviados pelo Papa para atividades específicas nas áreas de evangelização, formação de novos jesuítas e educação. Atuam em todos os países da América Latina. No Brasil são três províncias (conjunto de estados independente da localização regional): no Sul (RS, SC, PR, MT, RO), com sede em Porto Alegre; Centro Leste (SP, RJ, MG, GO, TO), com sede no Rio de Janeiro; Nordeste (ES, BA, PE, RN, CE, PI, MA,), com sede em Salvador e uma região, dependente da província do Nordeste (PA, AM, RR, AP, AC) com sede em Manaus. Os jesuítas estão presentes, especialmente em três áreas apostólicas: universidades e colégios (fundamental e secundário) e educação popular, nas três províncias; comunidades inseridas em meios populares – indígenas (MT, RO), populações ribeirinhas (AM, RR, AP), favelas (RJ, SP), etc.; paróquias, geralmente de periferia e no mundo rural, especialmente no Sul.
A estrutura hierárquica jesuítica é bastante clara: Um Superior Geral (em Roma), para toda a ordem, com um conselho e assessores para as diferentes áreas apostólicas; em cada país, provinciais que se ocupam do governo da província (no Brasil são três), em outros países, geralmente uma província apenas; nas províncias há obras que são comandadas, cada uma, por um superior local (colégio, paróquia etc.). A organização da ordem dos jesuítas sempre foi assim. Há algumas transformações que foram sendo feitas ao longo do tempo. Essas, contudo, restritas a adaptar o trabalho missionário às exigências de cada época. De modo geral a estrutura é a mesma do tempo da fundação.
O processo de formação dos religiosos começa pelo noviciado que são dois anos obrigatórios para quem entra na ordem. Cada província tem a sua casa de noviciado A segunda etapa é o Juniorado que de acordo com a situação do indivíduo em termos de conhecimento de português, literatura, história, etc. tem uma duração de um ou dois anos. A casa do juniorado se localiza em João Pessoa, para onde vão todos os jesuítas nessa fase. Depois do juniorado, iniciando a terceira fase da formação, tem o estudo da filosofia. Os jesuítas fazem vestibular como todo mundo e vão pra faculdade de filosofia em Belo Horizonte. Mesmo sendo um vestibular específico para aquele curso em Belo Horizonte, pois o curso é reconhecido pelo governo federal (MEC), tendo que se submeter às normas gerais das Universidades. Portanto, tem que fazer vestibular e tem que alcançar uma nota mínima pra entrar, em especial por que o número de vagas é limitado.
Os jesuítas por terem dedicação exclusiva ao estudo devem concluir o curso de filosofia em apenas três anos. Depois do estudo da filosofia, entra-se numa fase que é chamada por eles de magistério. Esse magistério é um tempo entre a faculdade de filosofia e a de teologia. Pode durar um, dois, três anos, depende para onde a pessoa vai. Ele sempre vai trabalhar em alguma obra da Companhia, geralmente colégios, por isso o nome de magistério. A fase derradeira da formação dos religiosos é a do estudo da teologia, etapa obrigatória para a formação de qualquer sacerdote católico, independente da denominação. A faculdade de teologia fica igualmente em Belo Horizonte, no Instituto Santo Inácio. Só depois do curso de teologia, que no caso dos jesuítas é feito sob as mesmas condições do de filosofia, e atingindo certas condições intelectuais e espirituais, o religioso será ordenado padre. Um processo longo que pode durar até treze anos.
Além dos padres jesuítas, existem também os irmãos jesuítas, que exercem as mesmas tarefas, com exceção do sacerdócio. Os irmãos são membros da Ordem dos Jesuítas, fazem os votos de pobreza, castidade e obediência da mesma forma, mas não são ordenados padres. Esses irmãos cumprem todas as etapas de formação até o magistério e ao invés de fazer teologia, obrigatória para a ordenação, fazem outros cursos como direito, administração, etc. Trabalham em questões administrativas e também atuam na pastoral.
Na minha entrevista com o padre Henrique, conversamos sobre a identidade dos jesuítas, as especificidades da sua ação nos dias de hoje, onde se dá essa atuação no Brasil e no mundo. Ele esclareceu a respeito da estrutura hierárquica, da organização e das transformações sofridas ao longo do tempo. Foi relatado no decorrer da entrevista, como se dá o processo de formação dos jesuítas, desde a sua fase inicial até a ordenação no fim do processo.
Segundo o entrevistado, durante o processo de formação se estuda a fundo a história da Companhia de Jesus e a sua atuação no período colonial. Esse estudo de forma mais forte ou mais fraca se dá no decorrer de toda a formação e depois dela.
Conversamos sobre a visão que o jesuíta de hoje tem sobre a atuação da Companhia durante a colônia, as mudanças ocorridas nas regras de atuação da Companhia ao longo do tempo, a conversão, o avanço das fronteiras coloniais e a escravidão. Sobre a percepção do pecado, sobre céu, sobre inferno, sobre Deus, o diabo e o papel do mal na vida do homem e a sua influência no mundo.
Donde se conclui que, apesar do passar do tempo a Companhia de Jesus continua sendo uma Organização de vanguarda, atuando em todas as frentes. E ainda, apesar da modernização de hábitos e costumes, se adequando às transformações do mundo, continua conservando os mesmos traços, a mesma força doutrinária, a mesma estrutura interna e a mesma legislação, desde sempre. Em tempo esclareço que sobre a legislação da Ordem, não se pode ter acesso. È um documento sigiloso que não pode ser divulgado para além da ordem, deixando assim uma enorme lacuna em nosso arsenal de conhecimento acerca dos jesuítas, ontem, hoje e sempre.
Todos os aprofundamentos acerca dos assuntos abordados durante a entrevista estão na sua transcrição, contida no roteiro de entrevista anexado a esse estudo.


ENTREVISTA COM O Pe HENRIQUE

1- Quem é o entrevistado? Onde e quando nasceu? A infância? Por que a opção pela Companhia de Jesus?
Carlos Henrique Muller, padre jesuíta, nascido em 16 de outubro de 1954, na cidade de Santa Cruz do Sul, RS. A infância aconteceu, toda ela na cidade de Salvador do Sul, na serra gaúcha, em paróquia pertencente aos jesuítas. Até os 28 anos de idade, os jesuítas foram presenças constantes na vida de Igreja: catequese, liturgia, missões populares, educação fundamental. Além disso, dois tios, já falecidos, eram padres jesuítas.
A opção pela Companhia de Jesus está, assim, quase que totalmente explicada. Há também motivações de cunho missionário. Conhecendo a Companhia de Jesus e onde trabalha, o desejo de fazer parte desse projeto e entrar nessa congregação.

2- Qual a identidade dos jesuítas? Quais as especificidades da ação jesuítica hoje?
A ordem dos Jesuítas foi fundada por um grupo de pessoas, sob a liderança de Santo Inácio de Loyola e reconhecida pela Igreja em 1540. Logo depois de fundada a ordem se colocou sob o comando do Sumo Pontífice para a missão. Assim, os jesuítas são, uma ordem religiosa apostólica autônoma que, no que diz respeito à missão da Igreja, tem especial atenção para atender às necessidades da Igreja Católica na pessoa do Papa, que, assim é seu superior último.
Quanto à especificidade da ação, a Companhia de Jesus se dedica, especialmente, à educação; missões “ad gentes”, isso é, ir para onde não há pastores e clero autóctone para aí iniciar a evangelização, incluindo trabalho com refugiados, nativos; formação do clero (estudos filosóficos e teológicos e formação espiritual) e paróquias. Destacam-se, sobretudo, três áreas: educação, formação do clero e evangelização. Em São Paulo e No Rio de Janeiro atuam junto às populações carentes das favelas e na Amazônia junto às populações ribeirinhas fazendo todo um trabalho social que é executado pelos padres e pelos irmãos jesuítas.

3- Onde os jesuítas atuam no Brasil e no mundo?
No mundo todo os jesuítas atuam em cerca de 128 países. Na África, além de trabalhos na área paroquial e educação, também há um trabalho específico e bastante amplo, com refugiados, especialmente em Angola e Moçambique. Em muitos países os jesuítas estão em atividades missionárias. São enviados pelo Papa para atividades específicas nas áreas de evangelização, formação de novos jesuítas e educação. Atuam  em todos os países da América Latina. No Brasil são três províncias: no Sul (RS, SC, PR, MT, RO), com sede em Porto Alegre; Centro Leste (SP, RJ, MG, GO, TO), com sede no Rio de Janeiro; Nordeste ( ES, BA, PE, RN, CE, PI, MA), com sede em Salvador e uma região dependente da província  do Nordeste (PA, AM, RR, AP, AC), com sede em Manaus.
Os jesuítas estão presentes, especialmente em três áreas apostólicas: universidades e colégios (fundamental e secundário) e educação popular, nas três províncias; comunidades inseridas em meios populares – indígenas (MT, RO), populações ribeirinhas (AM, RR, AP), favelas (RJ, SP), etc.; paróquias, geralmente de periferia e no mundo rural, especialmente no Sul.


 
4- Como é a estrutura hierárquica dos jesuítas e como se organizam? Sempre foi assim ou sofreu transformações ao longo do tempo?
A Companhia de Jesus tem uma estrutura hierárquica bastante clara: Um Superior Geral, para toda a ordem, com um conselho e assessores para as diferentes áreas apostólicas; em cada país, provinciais que se ocupam do governo da província (no Brasil são três), em outros países, geralmente uma só província; nas províncias há obras que são comandadas, cada uma, por um superior local (colégio, paróquia etc.). A Companhia, como um todo tem um projeto apostólico e cada uma das províncias também. Nas obras se põe em ação o plano apostólico local, sempre em comunhão com a missão da ordem como um todo.
A organização da ordem dos jesuítas sempre foi assim. Há algumas transformações que foram sendo feitas ao longo do tempo (500 anos). Essas, contudo, estão restritas a adaptar o trabalho missionário às exigências de cada época. Basicamente a estrutura é a mesma desde o tempo da fundação.

5- Como é o processo de formação dos jesuítas?

Tem o noviciado que são dois anos obrigatórios para quem entra na ordem. Cada província tem o seu. Então, são dois anos na sua província, nessa casa que é chamada de noviciado. Aqui (João Pessoa) é o Juniorado que seria a 2ª etapa da formação. De acordo com a situação dele em termos de conhecimento de português, literatura, história, etc. pode ficar um ou dois anos. Tem uns que já têm curso superior quando vêm pra cá, aí o trabalho vai ser de se integrar com o grupo, de conhecer melhor a ordem. Que é o que se faz aqui também, conhecer melhor a ordem, estudar documentos da ordem, mas dependendo da situação educacional ele vai ser aconselhado a ficar aqui mais um ano talvez. Geralmente é dois anos no máximo. Eu, por exemplo, quando entrei já tinha um curso superior. Fiquei só um ano, pra estudar português e história, porque há muito tempo eu tinha parado de estudar. Então, aqui, eu recuperei o hábito do estudo, leitura, hábito da reflexão mais acadêmica, nesse um ano, com muito exercício de leitura, escrita, redação quase toda semana, pra começar a escrever de novo, escrever bem. Fiquei um ano só. Tem uns que ficam dois.
Aí depois do juniorado vem o estudo da filosofia, a gente faz o vestibular como todo mundo e vai pra faculdade de filosofia, que é lá em Belo Horizonte. Apesar de ser específico para aquele curso em Belo Horizonte, o exame tem que ser feito, pois esse curso é reconhecido pelo governo federal (MEC), então ele tem de se submeter às normas gerais das Universidades. Portanto, tem que fazer vestibular e tem que alcançar uma nota mínima pra entrar. Então, é possível rodar nesse vestibular, fazer a coisa toda aqui e quando chegar na hora do vestibular não passar e passar um ano em outra casa, pra fazer o vestibular de novo.

6- E essa casa seria como uma casa de passagem onde ele ficaria aguardando o vestibular do ano seguinte?
Eles vão trabalhar em alguma das obras da Companhia da província de origem. Um colégio, uma paróquia, uma residência, onde eles ficam estudando, lendo, se preparando de novo para fazer o exame.
Existem muitos leigos que entram nessa faculdade de filosofia lá em Belo Horizonte também, e membros de outras congregações. Então, tem que fazer vestibular, que as vagas são limitadas, 50 ou 60 no máximo, se não, não se aproveita o curso lá bem aproveitadinho né?

7- No processo de formação há uma discussão sobre a atuação jesuítica no período colonial?O que se discute? Em que momento é feita essa discussão?
No noviciado a gente conhece a Companhia de Jesus a fundo, quando se estuda a História da Companhia de Jesus e se estuda também a História da Companhia de Jesus no Brasil. A gente vai ver toda a questão do trabalho dos jesuítas no Brasil, o que aconteceu, o que mudou o que permaneceu igual, a gente vai ver no noviciado. A história da Companhia no Brasil, livro do Serafim Leite é muito usado pra isso Tem outras obras também de jesuítas que falam da província de onde vieram que contam mais detalhadamente alguns casos, fatos mais específicos da Companhia naquela província.
Serafim é abrangente para todo o Brasil. Reúne numa obra só o que se estudou ao longo de 70, 80 anos, em uma compilação muito bem feita de tudo que se tinha de estudo sobre a História da Companhia no Brasil, até a época que Serafim leite fez esse conjunto de obras né... No noviciado se estuda isso. Aqui no juniorado, como é no nordeste, há momentos em que a gente visita algumas casas do nordeste, lugares onde antes havia jesuítas. Por exemplo, a gente vai fazer daqui a alguns dias uma excursão, que a gente chama de excursão cultural. A gente vai daqui até Juazeiro, passando por diversos lugares onde hoje não tem jesuíta nenhum, mas que antigamente, lá pelos anos de 1600, 1700, andaram os jesuítas, por exemplo, o padre Gabriel Malagrida, que é o padroeiro aqui da casa.  Ele tem um santuário aqui perto da Ponta Seixas, que chamam Santuário de Nossa Senhora da Penha, que foi ele que construiu. É uma das coisas que eu lembro assim por alto desse padre Gabriel Malagrida. Mas ele andou pelo interior da Paraíba, Pernambuco, aonde ia fazendo o seu trabalho missionário, de evangelização, de catequização das pessoas e assim por diante. Isso se olha um pouco aqui, porque o juniorado está aqui, aqui é o momento em que se estuda história, se estuda literatura, então é o momento em que todas essas coisas vão aparecendo, os sermões de Vieira, Anchieta, tudo isso vai sendo passado aqui né?! Aqui a gente trata de modo mais a fundo essas questões, de modo mais específico da região.
Na filosofia é um tempo mais teórico, um tempo em que a gente estuda mais filosofia mesmo. A gente faz em três anos, os jesuítas fazem em três anos um curso que os leigos podem fazer em cinco ou seis anos. Os jesuítas, como têm dedicação exclusiva ao estudo durante esse período, é três anos pra fazer a faculdade e acabou se não acabou, tem alguma coisa errada. Então tem que terminar essa faculdade em três anos.
Depois do estudo da filosofia, entra-se no que a gente chama de magistério, que é um tempo entre a faculdade de filosofia e a de teologia, um, dois, três anos, depende aonde a pessoa vai pra trabalhar. O trabalho é sempre em alguma obra da Companhia, geralmente colégio, por isso que a gente chama de magistério, mas pode ser também em alguma paróquia ou alguma obra social. Aí se conversa muito mais sobre a história da Companhia no Brasil em termos mais regionais. A forma como foi a ação da Companhia na região em que aquela pessoa está, por exemplo, eu sou do Rio Grande do Sul, durante o tempo que eu estive nesse período de magistério, a gente conversava muito, lia bastante, sobre as reduções jesuíticas do Sul, do Paraguai, da Bolívia, que era o trabalho mais ou menos conjunto que os jesuítas faziam durante aquele tempo, lá pelos anos de 1600, 1700, por aí, até a expulsão dos jesuítas por Pombal. Essas reduções não estão na obra da História da Companhia de Jesus no Brasil de Serafim Leite. Tem obras que falam delas, mas não estão na obra de Serafim Leite. Porque os padres jesuítas que trabalharam no Rio Grande do Sul na época, eram vindos da Argentina, do Chile e da Espanha, e ainda havia o Tratado de Tordesilhas, e o lugar onde eles trabalhavam ficava do lado de lá, do lado Espanhol do tratado de Tordesilhas. Então, isso está fora da História da Companhia no Brasil. O Serafim Leite tem um capítulo na sua obra onde ele explica porque as reduções guaraníticas estão fora dessa obra. Por causa desse problema, nao eram jesuítas vindos pra trabalhar no Brasil, eram argentinos, paraguaios, chilenos, uruguaios, que iam entrando pra fazer aqueles aglomerados que a gente chama de reduções.

8- O senhor fala do estudo de filosofia, do período chamado magistério antes da teologia. A etapa da teologia é uma etapa também obrigatória?
A teologia é obrigatória para todos que vão ser padres, independente de serem jesuítas, franciscanos, diocesanos, quem vai exercer o sacerdócio na Igreja Católica tem que fazer o curso de teologia, para que possa ser ordenado padre. Mas também, depois do curso de teologia, só é ordenado se alcançar determinadas condições.

9- Quanto tempo é o curso de teologia?
Para nós jesuítas é três anos, nas mesmas condições do de filosofia, porque nós temos dedicação exclusiva no estudo da teologia também. Fala-se que a formação da Companhia é muito longa, mas ela é toda concentrada nesses momentos, tem uma variedade um pouco mais ampla de etapas de formação para a formação da pessoa em si, do religioso em si. Não é só o estudo da filosofia e da teologia que interessa, é também a formação do jesuíta enquanto religioso, então toda a dinâmica da vida espiritual, da vida comunitária, da vida pastoral também é formada durante todo o tempo, por isso que é longa.
A formação do padre diocesano não é tão longa por que os diocesanos não fazem noviciado, já são dois anos a menos, não fazem juniorado, já tem um ano a menos. Filosofia e teologia são o que eles tem que fazer obrigatório. São seis anos. É o tempo médio de formação do padre diocesano. Agora, dependendo do lugar onde ele está, esses dois cursos podem ser feitos meio conjugados, e aí de repente em cinco anos ele faz os dois cursos integrados, como se fosse um curso só.

10- O senhor tinha falado sobre atuações em paróquias. Essas paróquias são da diocese e os jesuítas atuam apenas como sacerdotes, ou essas paróquias onde atuam os jesuítas pertencem à Companhia?
As paróquias sempre pertencem à diocese, a paróquia é parte da estrutura diocesana. Como nós temos uma casa de formação aqui com padres estudantes, então o bispo perguntou se a Companhia não gostaria de assumir esse lugar aqui como paróquia da Companhia. Então, a Companhia assumiu. Se a Companhia sair daqui, a paróquia passa a ser administrada pela Diocese, o pároco daqui é nomeado pelo bispo, a prestação de contas de tudo que se faz na paróquia, não só em termos econômicos, mas também em termos pastorais e apostólicos, é feita ao bispo. O provincial conhece a paróquia, os desafios que tem na paróquia, mas ele não interfere de jeito nenhum, quem tem autoridade sobre a paróquia é sempre o bispo.

11- E como os jesuítas de hoje vêem, como esses jesuítas percebem a atuação da Companhia de Jesus no período colonial?
Aí existem diversas maneiras de ter essa percepção. Uma delas é através do estudo da história da Companhia no Brasil. Então, vai se abordar esse modo de trabalhar, esse modo de agir, de se organizar dos jesuítas, a partir do ponto de vista histórico, sistemático, acadêmico. Então, aí tem toda a questão da literatura crítica, da literatura histórica, do tomar as coisas que aconteceram, ter documentação. Outro modo é olhar pro passado, por exemplo, é olhar pra história, o que aconteceu na história, o que esses documentos nos trazem, e tentar entender em termos de consciência, de missão, de consciência histórica, de convenções, de fé, de religiosidade, e ver o que foi feito como foi feito e porque foi feito assim. Então, de repente a gente vai descobrir que existem coisas que foram feitas lá no período colonial que hoje nós não concordamos e não podemos mais concordar. Mas, no período colonial, a consciência de missão era essa, então, de repente talvez ajude um documentozinho mais ou menos, que é a declaração do dogma que foi feita em 1442. Dogma estabelecido pela Igreja Católica, que diz que fora da Igreja não tem salvação. Para que os seres humanos possam ser salvos, possam ir para o céu, serem recebidos por Deus, eles têm que ser obrigatoriamente catequizados e batizados. Tudo que se fez durante o período colonial, não só aqui no Brasil, mas em vários cantos do mundo, por jesuítas franciscanos, dominicanos e outras ordens de missionários, foi feito tendo em vista esse desejo, essa ansiedade de querer salvar almas, tanto que naquele tempo só se falava em se salvar almas, portanto todos têm que fazer parte da Igreja, porque quem não fizer parte da Igreja vai morrer sem direito à salvação. No período colonial todo, foi feito a missão desse jeito. Esse dogma era muito questionado já na época da colônia, mas no Concílio de Trento ele foi reafirmado. Mas, pela época de Leão XIII, mais ou menos, nenhum Papa mais aceitava esse dogma, ele tava em vigor ainda, mas o Papa já não mais falava sobre esse assunto, porque já não havia muito sentido. Hoje em dia, não se fala mais nesse dogma, pois a gente tem uma consciência muito mais clara de que, em todos os lugares do mundo, todos os seres humanos estão dentro do que Jesus fez pelo mundo, salvou a todos, sem exceção, o lema da Igreja é anunciar pra essas pessoas que elas foram salvas, não é fazer parte da Igreja pra ser salvo, é uma outra visão, outra história. O que foi feito naquela época, como foi feito, as conseqüências que isso teve pra muita gente, foi feito de acordo com a consciência que se tinha de missão naquela época. Outra coisa é ver o que isso trouxe pra atualidade, porque muitas coisas que existem hoje foram resultados do trabalho que foi feito lá, durante a época colonial.

12- Vocês jesuítas, hoje, estudam na formação ou depois dela sobre a conversão, o avanço das fronteiras coloniais e a escravidão?
Sim, ao longo de toda formação a gente estuda isso aqui. Um dos momentos aqui pra tratar de modo específico esse período é quando temos férias escolares. Existem encontros de províncias, assembléias de províncias, encontros de pastoral social, por exemplo, pra entender a situação social. Isso hoje se faz em apanhados. Estudam coisas que aconteceram lá (período colonial) na história da Companhia no Brasil. Então, por exemplo, lá no que a gente chama de apostolado social, que é a questão do trabalho, do uso da terra, da posse da terra, aquilo que a gente poderia chamar na Igreja de Doutrina Social da Igreja. Começou com Leão XIII. Documentos específicos pra tratar dos meios de produção, questão da propriedade dos meios de produção, o uso dos meios, a questão do trabalho, a vida do trabalhador, assim por diante. Então, isso a gente vai estudando no que diz respeito ao modo de agir da Companhia.
A Companhia de Jesus teve escravos no Brasil e em determinados lugares acertou e, com isso, salvou muitos da morte (silêncio). Isso é um caso. Em outras situações, nas mãos dos jesuítas, os escravos talvez tenham apanhado como em qualquer outro lugar, não sei.
A gente tava comentando há uns dias atrás, já nos anos entre 1600 e 1700, o Piauí quase todo era uma grande fazenda da Companhia de Jesus. Os jesuítas tinham propriedades imensas e tinham escravos.

13- Os jesuítas hoje refutam ou reforçam a atuação da Companhia na colônia?
As duas e nenhuma das duas, depende muito do lugar, o tipo de trabalho que se fazia no Nordeste, o tipo de trabalho que se fazia por exemplo lá em Minas, o tipo de trabalho que se fazia em São Paulo, a fundação de cidades, coisas que a gente acentua e conta com orgulho; outras coisas, por exemplo, esse negócio de insistir em batizar todo mundo, porque se não quem não for batizado ta condenado, então tinham que fazer o batismo dos índios, dos negros, todos tinham que ser batizados, se não, não se salvavam, isso, por exemplo, a gente discorda muito. Mas questionamos a partir de conceitos de hoje. Na época, valia aquele documento lá do dogma, que dizia que fora da igreja não há salvação. Tá certo, tá errado? Não sei, não tem como julgar isso. A gente aceita que foi assim que aconteceu e a gente conta que foi assim que aconteceu. Que houve em alguns lugares exageros a gente sabe disso e a gente acolhe isso, e por isso é que eu digo: nem refuta, nem reforça, a gente refuta e reforça por um lado e não refuta nem reforça por outro que, de acordo com a região do Brasil, com o tipo de trabalho que se faziam, com determinadas obras. O que a gente pode fazer é aceitar o que aconteceu, tentar entender e tentar ver o que dá pra fazer melhor agora, atentos pra que, no decorrer da história daqui pra frente, a gente não repita, por exemplo, esses exageros que houve em determinados momentos da história, como esse do impulso de batizar todo mundo. Hoje, a gente entra numa comunidade indígena e tenta se inculturar na comunidade, e tenta descobrir como Deus trabalha ali e mostrar pra esses indígenas que ali onde eles estão Deus está presente.
Não é: Vocês vão ter que ser batizados, se não vão queimar no fogo do inferno, eles nem sabem o que é isso. Então, houve essas mudanças, mas não dá pra negar a história. A história é a história, o que aconteceu tá registrado, as pessoas que sofreram as conseqüências sofreram, a gente tem responsabilidades sobre isso, o problema é: como a gente vai fazer agora, daqui pra frente, pra mudar então? Não cometer exageros, não ser radical.
A gente trabalha com refugiados de guerra em vários cantos do mundo e se isso, fosse no período colonial (1600/1700), todos teriam que ser necessariamente batizados por causa do dogma que fora da Igreja não há salvação. Hoje é diferente, tem vários conhecidos meus que trabalham com centenas de milhares de refugiados em Angola, Uganda e em outras regiões da África. O jesuíta que vai pra lá trabalhar vai assumir alguma coisa, algum trabalho.
Tem formação às vezes no direito, tem os irmãos jesuítas que não fazem filosofia nem teologia, mas fazem direito, administração e outras coisas. Os jesuítas vão trabalhar nesses campos de refugiados ajudando as pessoas de acordo com a formação que possui. Nada de batizar, de catequizar tanto, até porque lá tem muçulmanos, tem cristãos, tem ateus, tem gente de religiões típicas lá da África e não dá pra chegar lá e dizer que todo mundo tem que ser cristão, se não tá fora do campo, nada a ver.

14- Então, a catequese há só que de maneira mais sutil e menos agressiva?
Respeitando a convicção de cada tipo de pessoa que tem lá. Se há muçulmanos lá, eles têm a sua fé e vão receber a educação dos muçulmanos, a não ser que a família toda se converta e queira receber a educação católica, mas geralmente não é assim. Então não se trata mais de impor a religião pra todo mundo. No tempo da colônia era assim, não, vocês têm que ser cristãos se não estão lascados. Hoje não é mais assim.

15- As regras da atuação dos jesuítas então se modificaram ao longo da história. Como atuavam os jesuítas? Como atuam hoje?
De acordo com as situações diferentes que foram se apresentando é claro que o modo de atuação dos jesuítas foi se modificando ao longo da história.
Os jesuítas, na época colonial agiam de acordo com as convicções de fé da época. Era urgente salvar as pessoas, uma vez que os não batizados estavam condenados. Aos poucos essa consciência foi se modificando. As pessoas tinham que decidir elas mesmas, livremente sobre a fé. Naquela época era “necessário” evangelizar os povos e as culturas. Hoje é diferente. Trata-se de inculturar o evangelho e reconhecer a presença de Deus nas diferentes culturas.
Assim, há uma mudança bastante radical no modo de atuar dos jesuítas hoje, tendo em vista essa consciência mais clara da diversidade de culturas como dom de Deus e, portanto, motivo para contemplação e gratidão.

16- Como é padre, a percepção do pecado na formação do jesuíta hoje?
O pecado é a negação de Deus, afastamento de Deus. Não é a negação no sentido de dizer que Deus não existe, não é isso. É negar-se a fazer o que a gente crê que Deus quer. Deus diz amai-vos uns aos outros e a gente se odeia. Aí tem um pecado, não fomos feitos para o ódio, fomos feitos para o amor. Quando nós odiamos e matamos e roubamos, estamos indo contra o mandamento principal de Deus que é amai-vos uns aos outros. O pecado é afastar-se, dizer não a Deus. Deus diz: eu quero que vocês construam esse mundo juntos e nós o estamos destruindo. Deus diz: vocês têm que ajudarem-se mutuamente e nós fazemos tudo para explorar o outro, isso é pecado. A consciência do pecado é muito forte hoje no que diz respeito ao que vai acontecer com o outro por causa da minha decisão. O pecado hoje se mede pelas conseqüências que pode trazer pro outro.

17- Não existem então os pecados pré-determinados? Medem-se as conseqüências de um ato antes de nomeá-lo pecado.
Antigamente existia lista de pecados com gravidade determinada e penalidade determinada, hoje em dia não. Hoje em dia, se olha o pecado no que ele significa de elevação com Deus, a partir de uma pessoa que tem fé, só o cristão pode falar de pecado. O ateu não vai falar de pecado.

18- Até com relação à castidade?
Pecar contra a castidade sempre envolve outras pessoas, sempre. Portanto, sempre vai ser algo a ser considerado com seriedade. A questão da masturbação tem a ver com isso.  Tem muita gente que acha: mas sou eu sozinho, ninguém tá vendo, mas muitas vezes, dentro da imaginação da fantasia sexual que eu estou tendo, tem uma determinada pessoa que eu estou violentando. O desejo é normal, todo mundo tem, senão não era humano, era máquina, o problema é quando a gente começa a fazer determinadas coisas, tendo em vista outras pessoas. Isso é pecado.

19- E quando vocês jesuítas se pegam em pecado? Isso deve acontecer muitas vezes, porque, como o senhor mesmo disse, são seres humanos. Vocês se auto penitenciam, fazem orações, ou têm um confessor e procuram essa pessoa, esse sacerdote, como é?
Tem tudo isso e mais algumas coisinhas. Primeira coisa, a gente vai sempre entender o pecado como queda. Quando a gente peca, a gente faz a imagem de que a gente caiu e o que importa não é ter caído, é levantar e continuar caminhando. O pecado não é o fim, é o começo, é necessário levantar e continuar andando (Mostra a imagem pendurada na parede, A volta do filho pródigo, para exemplificar o que diz). O interesse de Deus e da nossa fé, no que diz respeito ao pecado, é que Deus nos quer perto dele e vamos sempre olhar a questão do pecado com misericórdia. Se a pessoa cai, a gente vai fazer tudo para ela levantar. Se a gente cai e ta difícil levantar, a gente vai pedir ajuda e essa ajuda é o confessor, que te possa perdoar que te possa dizer: olha, daqui pra frente você caminha um pouco diferente, você cuida desses obstáculos. O sacramento da confissão serve para isso, pra ajudar o pecador a se levantar e a continuar caminhando, portanto, não há motivo pra desespero quando a gente comete um pecado.

20- E vocês que são sacerdotes, com um maior nível de espiritualidade, uma outra consciência do mundo, das coisas, da relação com os outros, vocês pecam menos ou uma coisa nada tem a ver com a outra?
Eu acho que pecar menos não é o modo de encarar o problema. Não é pecar menos ou pecar mais. A gente faz o esforço para pecar menos, mas a gente tem uma consciência maior do pecado. Tem muita coisa que pros outros não é pecado e pra nós mesmos é.

21- Então, dentro dessa concepção, vocês acabam pecando mais, porque a partir do momento em que eu não tenho percepção, não tenho consciência, eu pecaria menos?
É. Não tem consciência, não pode acusar. A consciência faz o pecado ser maior. Eu não posso acusar um ateu de pecar.

22- Já não seria um pecado negar Deus?
Não. Eu acho que não, porque Deus criou o ser humano livre, e o ser humano tem que ter liberdade pra ter fé. Não se pode obrigar ninguém a ter fé, essa é a diferença com relação aos tempos da colônia. Na colônia, se batizava porque todo mundo tinha que ter fé, senão ia pro inferno. Hoje em dia, a gente tem uma consciência claríssima, não se pode obrigar ninguém a ter fé.

23- E essa história de inferno? Por que antigamente essa coisa de céu e inferno era na percepção das pessoas algo concreto? E hoje, como vocês pensam essa coisa de inferno, ou não existe mais essa simbologia?
Eu li no curso de teologia um livro escrito por um cardeal chamado Bruno Forte, um italiano que escreve sobre esse assunto, e a pergunta dele é: o que nós queremos dizer quando dizemos inferno? Inferno antigamente era um lugar que a gente geralmente punha pra baixo, o céu em cima, o inferno embaixo. O inferno não é um lugar, assim como o céu também não é um lugar. O que a gente chama de céu é só a atmosfera, não é um lugar. O céu é a proximidade, é a presença, é o ver Deus face-a-face.

24- É elevação espiritual?
É, o céu seria isso. Foi salvo e participa da divindade, contemplando Deus, isso é o céu. A gente faz tudo pra chegar a isso. O inferno é você passar o resto da eternidade, que não acaba nunca, sozinho. Dá pra ter noção?! Você passar um ou dois dias só já é difícil, agora imagine daqui pra milhões de anos no futuro, completamente só, porque não só neguei Deus, porque me neguei, digamos assim, a fazer a vontade de Deus, me neguei a fazer o bem.

25- E o diabo?
O diabo pra mim não dá pra dizer que é uma pessoa. Não é uma pessoa, não é uma entidade. O diabo geralmente é a gente mesmo, exagerando né?! Bem, o diabo não é o oposto de Deus, pra começar. Se o demônio fosse o oposto de Deus, então Deus não seria Deus, porque absoluto só tem um.

26- Porque se não haveria dois poderes, um pro bem e um pro mau, exatamente iguais?
É. E tem outra coisa, eu não posso acreditar que Deus tenha criado um espírito do mal, porque se ele fez isso, ele não pode ser chamado de bondoso. Então Deus não criou o demônio, o ser humano tomou decisões erradas, sempre, todos os dias a gente ta tomando decisões erradas. Essas decisões que a gente toma e que são erradas e que às vezes têm conseqüências desastrosas, que às vezes custam vidas, elas têm a ver com desejos meus, ganância, busca de poder, egocentrismo, egoísmo, eu, eu, eu, a idolatria de mim mesmo. Essas atitudes, elas dividem qualquer organização social. Então, o diabo é aquele que divide aquele que separa as pessoas, o diabo é o que espalha a cizânia.
Todo mal sou eu que faço com as decisões que eu tomo. E então, o diabo existe sim, mas não é uma pessoa, não é um ser. Não é um ser que vem dizer pra mim faz isso, faz aquilo. Esse fazer isso que tá errado, vem do meu modo de querer as coisas, às vezes de maneira equivocada, eu querer as coisas pra mim que pertencem a todos.

27- Mas isso aí não é parte do livre arbítrio? Eu escolher que direção tomar? Então, Deus teria criado essa contradição, a partir do momento em que ele deu o livre arbítrio?
Não. Deus quando criou o ser humano, criou o ser humano livre. E ele diz: Você é livre e a verdade vai libertar você. Você é que vai decidir. Tem muita gente que não seguiu Jesus Cristo, nem por isso eu vou dizer que esteja condenado.
28- Isso foi dado como um direito de escolha? Não foi uma criação direta?
Claro que não. O que diferencia o ser humano dos animais é isso. Os animais vão comer aquilo que tá lá.
(Fala da simbologia da serpente)
E o que os dois lá fizeram foi: Não, nós vamos experimentar daquela fruta lá (porque alguém disse e a gente fala que é a serpente), Deus disse pra vocês não comerem, porque se vocês comerem vão ficar iguais a ele, eu vou ser Deus, eu vou desbancar esse Deus. E aí tá o pecado, então foi o ser humano com a sua decisão que fez com que o mal entrasse no mundo e não Deus.
































Regina Coeli
Enviado por Regina Coeli em 11/11/2008
Reeditado em 25/07/2009
Código do texto: T1277239

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