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A Introdução de Organismos e suas Implicações

A Introdução de Organismos e suas Implicações

Luiz Eduardo Corrêa Lima

A introdução de organismos vivos em diferentes áreas tem sido um problema ambiental muito sério, talvez o mais sério de todos, no que diz respeito ao equilíbrio dos ecossistemas naturais, que tem acompanhado o homem ao longo de toda a sua história. Outrora, o homem levou, daqui para ali várias espécies e assim modificou muitos dos ambientes naturais, principalmente no entorno das vilas, das cidades e mesmo dos pequenos núcleos urbanos, onde as populações humanas se instalaram e se fixaram ao longo do tempo.
Assim, muitos organismos que o homem, desde cedo, aprendeu a cultivar e a reproduzir através da Agricultura, da Pecuária e da Domesticação, começaram também a se estabelecer em áreas diferentes daquelas regiões primitivas e endêmicas onde se originaram e desenvolveram. O cinturão verde, obrigatório à sobrevivência, trouxe as plantas, a nececssidade de carne, do leite e dos ovos trouxe alguns animais, por fim, o relacionamento afetivo e a carência física trouxeram outros animais. Isso sem contar que a existência e o crescimento das próprias cidades, além de diminuir progressiva e significativamente os espaços naturais, também permitiu o desenvolvimento de uma série de outros organismos na casa do homem, em todos os lugares do mundo. A Fauna Urbana e Fauna Sinantrópica (associada ao homem) são quase que exclusivamente as mesmas no mundo inteiro, se não são as mesmas espécies, são espécies muito próximas.
O homem espalhou essas espécies pelo mundo afora, tornando muitas delas, artificialmente cosmopolitas e outras exclusivas de regiões totalmente distintas de suas áreas originárias. Raramente esses organismos voltaram à condição silvestre depois da interferência humana, embora haja umas poucas excessões. Sendo assim, a grande maioria desses organismos continua acompanhando o homem e consequentemenete, eles não são mais encontrados nas condições naturais.
Mais recentemente, o homem propiciou alguma volta ao processo de introdução de organismos, por conta de necessidades agrícolas modernas, necessidades médicas ou mesmo industriais. Isso tem produzido efeitos, cada vez, mais maléficos aos ambientes naturais, os quais hoje estão extremamente reduzidos. Alguns desses organismos introduzidos são estimulados na sua capacidade reprodutiva, pois há um interesse, geralmente econômico, na sua multiplicação. Desta forma, modificam-se também os ambientes generalizadamente, criando grandes áreas diferenciadas artificiais para permitir a manutenção dessas espécies. Por exemplo, as áreas para criação de gado bovino ou para produção de soja aqui no Brasil.
Algumas vezes, nem há necessidade de se criar mecanismos adicionais, pois as próprias espécies têm recursos especiais que lhes permitem garantir as novas áreas de ocupação. Por exemplo, as populações de Eucaliptos aumentam no mundo todo, enquanto outras espécies diminuem e muitas até desaparecem. Ora, o Eucalipto é uma planta altamente competitiva que impede a presença e o desenvolvimento de outras na área onde vive. Sendo assim, aquele ambiente vai gradativamente mudando, até que só existam Eucaliptos no local. Isso é terrível, tanto ambiental, quanto social, emocional e moralmente, pois é fácil imaginar o que irá acontecer lá na frente. Uma paisagem homogênea, monótona e triste, na qual os animais praticamente desaparecem e cujo solo fica seco, empobrecido e após sucessivos cortes do Eucalipto fica totalmente estagnado e tendendo a desertificação.
Locais urbanos estão cheios de parques, praças e ruas com arborização exótica e com pássaros e outros animais estranhos à nossa fauna. O pardal, por exemplo, está no mundo inteiro e ainda bem que ele prefere as cidades, imaginem se essa espécie de pássaro resolvesse ocupar áreas naturais, o que seria dos pássaros nativos, haja vista o tamanho das populações de pardais.
Aqui no Brasil, além do Eucalipto já citado, temos alguns exemplos clássicos de introdução muito mal sucedidos e que têm comprometido muito o ambiente natural. Por exemplo, o javali no Pantanal e no Rio Grande do Sul; o Caramujo Gigante Africano, tão em moda, introduzido no Paraná e hoje encontrado em quase todo o país; o cavalo em Roraima; a garça carrapateira da Flórida, na Ilha de Marajó, que já chega ao Paraná e vários outros exemplos lastimáveis.
No passado nós pecávamos mais não sabíamos, porque nós não tínhamos conhecimento dos problemas que a introdução de espécies exóticas poderia trazer, mas hoje não podemos mais concordar com certas práticas. Hoje falamos muito em controle biológico, como uma boa maneira de controlar pragas, o que é uma verdade. Mas, isso não pode ser feito aleatoriamente, não e pode sair por aí colocando um animal para comer o outro sem critério e principalmente, sem controle. O risco é muito grande e talvez, lá na frente, determine um problema maior. A perda, cada vez maior, da Biodiversidade e crescente degradação dos ambientes naturais são em grande parte consequências da introdução de espécies.
Vejam bem, a introdução em si não é um mau negócio, porém as consequências ecológicas da introdução é que podem produzir resultados catastróficos, os quais na maioria das vezes não podem ser solucinados. Desta maneira, a espécie introduzida, acaba por adaptar-se ao novo ecossistema, pois vai ocupar um nicho vago ou competir com uma espécie nativa que ocupe um nicho semelhante àquele que ocupava no seu ambiente primitivo.
Nessa competição, o alienígena (a espécie exótica) acaba se saindo melhor, até porque não possui predadores e nem inimigos naturais na área, ficando mais livre para ocupar os espaços locais. Se, além disso, esta espécie exótica for profícua reprodutivamente, em tempo muito rápido sua população começa a sobressair quantitativamente na comunidade. Geralmente é isso mesmo que acontece, ou seja, a espécie exótica reproduz-se mais e melhor que a nativa, suplantando cada vez mais o número de indivíduos das populações naturais. Com isso, as espécies nativas vão tendo suas populações diminuidas progressivamente, em alguns casos, até a extinção total na área em questão.
Há, em Ecologia, uma noção clara de que duas espécies não podem ocupar o mesmo nicho ecológico. Quando isso ocorre elas entram em competição interespecífica, a qual acaba por levar a continuidade de uma delas e a extinção da outra. As nativas sempre perdem esta competição, exatamente por outras questões ecológicas, como a falta de predadores das exóticas e a dependência efetiva daquele ambiente através de vários aspectos pelas nativas.
A nossa volta está repleta de espécies introduzidas. A nossa mesa tem carne de boi, de porco, de galinha, tem feijão e arroz; a nossa cozinha tem moscas domésticas; a nossa casa tem baratas francesas, a nossa horta tem alface, o nosso jardim tem roseiras a caracóis exóticos, o nosso pomar tem peras e maças, algumas de nossas florestas têm javalis e cavalos. Muitas dessas introduções foram ocasionais e outras foram provocadas. De qualquer forma, no passado, quando fizemos essas introduções não conhecíamos os riscos que elas poderiam oferecer.
Hoje, porém, a questão é muito mais séria, pois além de sabermos dos riscos potenciais, os espaços naturais estão muito mais escassos e um desequilíbrio pode produzir mais facilmente o caos total para os diferentes ecossistemas terrestres. Não podemos desfazer o que já fizemos não há mais possibilidade física para isso e mesmo que houvesse tal possibilidade, existem várias outras questões de ordem social, legal, cultural e até moral, além da problemática ambiental envolvida, que nos impossibilitaria de simplesmente tentar reorganizar as coisas. O mundo está muito longe de sua base natural e não há como retroceder.
Por outro lado, não podemos nos dar ao direito de deixar, outra vez, um inseto, o bicudo, por exemplo, escapar de um Laboratório e virar praga de algodão numa região onde ele jamais poderia ser encontrado naturalmente. A fragilidade dos ecossistemas naturais, em particular os ecossistemas tropicais ricos em diversidade, mas com populações naturais relativamente pequenas e principalmente dos ecossistemas artificiais agrícolas, não nos permite arriscar mais nada. Mesmo as técnicas de controle biológico, tão propagadas hoje em dia, precisam ser bem estudadas, entendidas e controladas para evitar problemas consequentes.
A expressão “inimigo natural” tão usada no controle biológico, precisa ser mais bem definida. Inimigo natural é elguém que atua no controle populacinal de outro alguém que vive naturalmente na mesma área que a sua e não uma espécie introduzida que irá atuar no controle populacional de outra espécie. Um animal da Ásia não tem “inimigos naturais” na América do Sul, até porque, naturalmente essas espécies jamais se encontrariam, o homem é quem permitiu e propiciou tal encontro, através da introdução de, pelo menos, uma delas na área da outra.
São conhecidos e famosos os casos das doninhas na Jamaica, dos coelhos na Austrália, dos carneiros nas Ilhas Galápagos e tantos outros em que a introdução de organimos vivos foi um grande malefício e que até hoje trazem problemas ás localidades envolvidas. Mas, não precisamos ir tão longe, temos exemplos aqui bem perto de nós, como a introdução da Rã americana aqui no Sudeste do Brasil, que dizimou a nossa Rã pimenta, a introdução do tucunaré da Bacia Amazônica nos lagos do Estado de Minas Gerais e vários outros exemplos.
Temos que evitar a qualquer custo que o processo de introdução de organismos continue acontecendo de forma arbitrária, pois não temos mais áreas e muito menos tempo para garantir que os resultados possam ser satisfatórios. A Legislação nesse sentido já existe, entretanto é preciso que as pessoas conheçam esta Legislação e se conscientizem de que essa é uma questão séria e que precisa ser tratada corretamente.  Além disso, não podemos nos esquecer de orientar as pessoas que é necessário preservar bancos genéticos de espécies nativas em seus ambientes naturais, pois a manutenção da Biodiversidade do planeta é fundamental para a manutenção do próprio planeta e da continuidade dos processos evolutivos que permitiram o atual nível de organização e composição biogeoquímica que a Terra se encontra.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (52) é Biólogo (Zoólogo), Ambientalista, Escritor, Pesquisador, Professor de Ensino Superior e Médio;
Membro Efetivo da Academia Caçapavense de Letras; Ex-Vereador e Ex-Presidente da Câmara Municipal de Caçapava.
Prof Luiz Eduardo
Enviado por Prof Luiz Eduardo em 13/11/2008
Reeditado em 21/04/2010
Código do texto: T1281711
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Sobre o autor
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Caçapava - São Paulo - Brasil, 58 anos
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