Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O DIA EM QUE A CIDADE TREMEU

                           

                           Parecia uma tranqüila e pacata tarde de uma quinta-feira sombria do dia 23 de março do corrente ano. Havia a promessa de chuva no ar. Nada de anormal nesta nossa cidade de Gramado, exceto o fato de iniciar a Festa da Colônia.

                         De repente, um barulho rompia o silêncio entediante da tarde. Pensei que era o início da comemoração da festa dos descendentes de imigrantes italianos e alemães. O barulho continuava, seguido de estouros de balas e gritos por todos os lados. Vi da janela da minha sala de trabalho, pessoas abaixadas, escondendo-se atrás dos carros, com medo de serem alvejadas, embora não soubessem o que estava acontecendo.

                          Logo em seguida, veio à confirmação de um assalto no Banrisul. O pânico tomou conta de todos, a polícia logo foi acionada para o local e quem passava na rua tinha uma maneira diferente de contar o crime. A concentração no trabalho cedeu lugar a apreensão e intranqüilidade temendo pelas vidas das pessoas nas ruas. É interessante, mas embora trabalhe, todos os dias,com o Direito Penal, por meio de processos, fiquei tenso, pois aquele era um assalto ouvido e sentido,além das páginas dos autos ou das letras frias da lei.

                        De pronto, liguei para minha esposa. Por sorte ela estava segura em casa. Entretanto, há poucos minutos atrás havia passado pela Rua Coberta e sentiu uma sensação estranha,algo de podre no ar, a famosa intuição feminina que a conduziu para a casa sã e salva.

                       Fiquei sabendo que no Foro estava ocorrendo uma audiência no momento do assalto. A sala de audiências fica em cima do Banrisul e nesta hora as partes envolvidas, advogados, partes e mesmo os funcionários da justiça ficaram deitados na sala, com medo de serem atingidos por uma bala perdida. Felizmente, ninguém do Foro foi atingido. Entretanto, não teve a mesma sorte uma senhora de 57 anos que passava, no interior de um carro, foi baleada sendo imediatamente conduzida ao Hospital.

                      Parece que um dos bandidos foi preso e os outros se encontram foragidos. É certo que a Brigada Militar, o Ministério Público (órgão em que trabalho) e o Poder Judiciário têm cumprido e desempenhado brilhante papel na defesa da sociedade gramadense e das famílias de bem. Entretanto, até quando ficaremos reféns de bandidos? A criminalidade, antigamente restrita aos grandes centros urbanos, está afetando nossa tranqüila cidade...

                          Não é possível que não tenhamos mais o direito de sair as ruas. A liberdade, constitucionalmente assegurada, de ir e vir.Não é justo que não possamos ir ao banco sacar um dinheiro. Não é possível que não possamos mais andar de carro e transitar pelas ruas desta cidade e em plena luz do dia.

                         Na semana passada, uma tia minha, em Porto Alegre, foi ameaçada de morte com um revolver na cabeça. Perdeu o carro, mas poderia ter sido a vida, felizmente não foi.

                        Cabe a pergunta: estaremos a caminho da violência carioca em que o exército tem que adentrar nas favelas para combater o crime organizado e o tráfico de drogas? Esperamos que este seja um fato isolado ocorrido na nossa cidade.

                         Os criminosos serão presos, pelo menos é o que  esperamos.Entretanto, sabemos que não existe prisão perpétua e mesmo os crimes hediondos estão sendo abrandados na sua forma de aplicação pela Suprema Corte do país, o que significa dizer que os bandidos logo estarão novamente nas ruas. Qual será o próximo banco? A próxima vítima? A próxima família sem um pai ou uma mãe?

                       Por favor, salvem nossas crianças, nossa gente sofrida, preservem a integridade da mensagem de Cristo na cruz do calvário. Salvem as famílias de bem e a dignidade que ainda nos resta, em que pese estarmos vivendo em casas com muros altos com cacos de vidro, portas com grades, alarmes e edifícios com porteiro eletrônico.

                      É preciso que nós todos nos engajemos em prol da sociedade, desarmando ódios, crucificando mágoas e educando o povo com letras, pão e fé para que estes delitos não sejam cometidos, o azul do céu seja mantido e a poesia seja preservada.



pássaro poeta
Enviado por pássaro poeta em 25/03/2006
Código do texto: T128209

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
pássaro poeta
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
532 textos (101475 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 20:52)
pássaro poeta