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Sinto e Penso, Logo Escrevo

Em Maio de 2008, li um livro - muito interessante, por sinal - intitulado 'La Magia de Escribir', de José Antonio Marina e María de La Válgoma. Lá, encontrei referências a experimentos lingüísticos curiosos, conduzidos pelo psicólogo James W. Pennebaker, os quais visavam compreender o impacto do ato de escrever na estabilidade física e emocional das pessoas. Tal fenômeno vem sendo estudado e referenciado na literatura sob o termo 'Expressive Writing'. Os resultados apontaram que, para a maioria dos casos observados, o ato de escrever sobre os próprios sentimentos aparecia altamente relacionado a relatos de estabilidade emocional em relacionamentos.

Um outro estudo(1), realizado em 2006, já havia revelado indícios de que relacionamentos amorosos tendiam a ser mais estáveis quando os parceiros cultivavam o hábito de escrever (ou falar) sobre a relação ou sobre os próprios sentimentos. Isso também mostrou ser válido para outros tipos de relacionamentos, como interações com a família e os amigos.

As pesquisas sugerem que isso ocorra, muito provavelmente, porque o ato de escrever estimula a reflexão. A cumplicidade entre os atos de escrever e refletir, no texto de Marina e La Válgoma, também é observada em um comentário(2) sobre o livro, no qual o autor sugere usar o título 'La Mania de Pensar' ao invés de 'La Magia de Escribir'.

Ao me deparar com o trabalho de Pennebaker, não pude deixar de considerar minhas próprias experiências, como corroboradoras de tais  idéias. Sinto que antigas amizades se modificaram com o tempo e a distância, principalmente por uma indisposição que muitas pessoas demonstram em escrever. Parece mesmo que é certo o dito “Longe dos olhos, longe do coração”. Cartas sociais e emails longos parecem ser cada vez mais coisas do passado. No momento em que escrevo este texto, a moda é usar SMSs, ou programas de trocas de mensagens simultâneas do tipo Orkut, Messenger e ICQ.

Percebo que cresci muito e obtive benefícios de situações que exigiram um esforço mútuo das partes envolvidas para comunicar sentimentos, e da forma mais clara possível. Penso que evoluímos quando tentamos nos expressar de alguma maneira, principalmente através da escrita. Escrever sempre me ajudou a passar por períodos difíceis na vida.

Ganhei um diário de presente quando era pré-adolescente. Naquela época, limitava-me a relatar atividades e fatos do dia-a-dia. Algumas vezes, copiava versos de poetas conhecidos. Achava que escrever as próprias idéias era algo para poucos privilegiados. Era, também, tomada por um imenso receio de mostrar meus tolos escritos a quem quer que fosse. Se tinha uma coisa com a qual eu não sabia lidar era com possíveis críticas negativas. Além do mais, "O que eu escrevia era só para mim, não devia interessar mesmo a mais ninguém.",  pensava eu. Minhas colegas limitavam-se a anotar versos e ditos populares em seus cadernos. Não lembro de nenhuma delas escrevendo sobre o que sentiam, por exemplo, quando sofriam um fracasso ou rejeição.

Após a morte de uma pessoa muito querida, comecei a escrever muitos poemas e textos que iam brotando aleatoriamente em minha cabeça. Um dia, passada a tristeza inicial, surpreendi-me ao perceber que o que havia escrito não era tão bobo assim. Certa vez, devido a uma mudança de endereço, decidi queimar todos os meus diários para que não corresse o risco de que alguém mais tivesse acesso àquele EU, tão escancaradamente exposto em suas páginas. Hoje, arrependo-me de tê-lo feito. Agora tenho que confiar somente em minha memória (um tanto falha) para recordar as várias etapas do meu desenvolvimento emocional, no passado.

(1)
http://homepage.psy.utexas.edu/HomePage/Faculty/Pennebaker/Reprints/IMpaper.pdf
(2)
http://www.elmundo.es/papel/2007/04/06/ultima/2107466.html
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 15/11/2008
Reeditado em 10/03/2010
Código do texto: T1285067
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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