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Sobre a Traição

Traição

A matéria de capa da Revista de 02/04/2006, revista dominical do jornal O Globo, trás o assunto, que volta e meia está sendo discutido. Deve ser porque haverá um congresso grande aqui no Brasil, em Salvador, então resolveram abordar o tema.

De forma natural e previsível a abordagem do tema é fraca, superficial e um tanto parca. Sendo redundante mesmo. Não há outro jeito. Você lê a reportagem, todas as suas quatro páginas de texto, o resto é recheado com figuras e layouts estilosos, e não consegue extrair muito.

Há um tanto de estatísticas que mostram quem tem mais problemas de traição, homem e mulher, e os números como variam de estado para estado do Brasil, uma mostra muito superficial da coisa, com comentários de especialistas no assunto, que não sei se por espaço concedido ou incapacidade mesmo não opinaram efetivamente.

Constatar que há traições é válido. Constatar que pessoas se sentem insatisfeitas é válido. Indicar livros de sexólogos é válido. Mas não toca no fundo do problema. Não sou especialista no assunto, nem pretendo ser, mas visivelmente a reportagem não desnuda o problema com todas as suas nuances.

Na verdade deveríamos partir em busca de perguntas como: de onde vêm esse sentimento de insatisfação que aflora nos casais?; onde está o parâmetro para medir quanto alguém é normal no sexo ou não?; como explicar casos em que um casamento estável com seus altos e baixos, sem problemas, possa ser surpreendido com tal ato?

Infelizmente, começamos a analisar o problema do ponto de vista físico. Estamos em uma sociedade que valoriza muito mais o corpo a mente. E mesmo aqueles que conseguem se dizer livres dessas amarras o dizem simplesmente na falta de algo melhor a falar. É humanamente impossível se ver livre da massificação do culto ao corpo em que vivemos. Do culto da perfeição que qualquer propaganda bem feita nos incute. Viver alhures a isso é viver em um batalha incessante contra quase todos os mecanismos da vida atual.

Estamos expostos muito mais à perfeição, como idéia, que como fato. Passamos todas as nossas vidas rodeadas por pessoas normais, com aspirações normais e vidas normais. Mas vemos poucos exemplos, esses determinantes, que nos impõe, massivamente, seu “poderio”. Em um círculo vicioso, a mídia, que se mostra como importante, divide seus créditos com pessoas que só tem notoriedade porque a mídia confirma tais importâncias.

O modelo de corpo perfeito vem em pirâmide, de um único exemplo, ou muito poucos, no topo em direção da base, recheada de pessoas normais. Desvirtuando todo e qualquer conceito de beleza que poderíamos ter. Passamos a achar anormais 80% da população e venerar as pouquíssimas pessoas que tem o tempo e a notoriedade (falsamente confirmada pela mídia) para se imporem em um modelo de beleza artificial.

Há toda um desconstrução do pensamento mundano, e com isso, insatisfação generalizada. Há de se admitir o fato de vários casais em começo de relacionamento não ligarem, nem pensarem muito no corpo do parceiro, já que um relacionamento sério pode começar por n razões. Mas com o tempo esse peso vai aumentando e certa dose de insatisfação cresce a partir dessa idéia. Um dos motivos para uma traição. Falta de desejo no parceiro, já que ele não se enquadra em um modelo de beleza. O costume com aquele corpo, aquele corpo vira quase um objeto de posse, que nunca de fato se possui, enjoa-se. Um processo mental muito praticado atualmente, com todos os demais objetos.

Essa causa muito pouco aparente dos motivos que pode levar, psicologicamente falando, alguém a se distanciar um pouco do parceiro e com isso propiciar um ato de traição, é bem mais profundo e arraigado em nossa sociedade consumista atual.

Há uma certa verdade que a tecnologia veio para substituir o trabalho humano, ainda mais com as fontes de energia variáveis como temos hoje. Mas toda essa facilitação da vida deixa um profundo vácuo na atividade propriamente dita que o ser desempenhava em sua vida. Todo exercício e tradição gestual foram substituídos por imitações gestuais que deixam o ser frustrado em seu dia a dia. Há de se gastar energia e substituir o meio como se faz isso. Esse nicho foi devidamente preenchido pelo culto ao corpo, despendemos nossas energias em exercícios. Mas o principal aqui, também não querendo aprofundar muito, é focar no processo mental. Ficamos com um vácuo a ser preenchido, o que automaticamente despenca para os objetos que temos. E se torna visível o fato de que atualmente não temos objetos para durarem. Não temos mais aquela conformação do lar onde a mesa, a arca, os armários e tudo o mais era feito para durar. Estamos em um época em que possuir um objeto, deixá-lo fazer parte da sua vida, já foi.

Vemos hoje a ânsia pelo controle. O que é modernoso hoje é como você controla sua casa, a conformação dos móveis, que podem ser mutantes. É quase um status se você de tempos em tempos renovar sua casa inteira, não deixando vestígios do que antes existia. Esse processo mental que nos domina em todos os ramos da vida conflita com o lado dos relacionamentos, grandemente.

“Por isso a posse de um objeto, qualquer que seja, é sempre a um só tempo tão satisfatória e tão decepcionante: toda uma série a prolonga e a perturba. Dá-se mais ou menos a mesma coisa no plano sexual: se a relação amorosa visa o ser na sua singularidade, a posse amorosa enquanto tal satisfaz-se somente em uma sucessão de objetos ou na repetição do mesmo ou ainda na suposição de todos.” (Sistema dos objetos – Jean Baudrillard)

Temos que lidar com o relacionamento de uma forma diferente do que lidamos com os demais objetos. O que é uma tarefa muito complexa. Estamos condicionados para um lado. E o reflexo mais claro disso é como os jovens e adolescentes lidam com esse aspecto. Crianças de dez a doze anos já buscando seus namorados, que trocam com facilidade. Adolescentes e jovens trocando seus corpos por prazer apenas em ambientes propícios. Muitos deles dizendo que não conseguem um relacionamento, não porque não querem, mas ninguém mais presta. É a mentalidade volátil do poder, não mais se quer possuir, se quer controlar. A traição fica muito mais acessível quando o outro não é mais um pedaço seu, mas mais uma parte da mobília que tentamos controlar. Que pode ser trocada a qualquer momento sem que isso afete seu todo, seu sistema de controle só muda de configuração, mas permanece o mesmo.

Logicamente, essa visão é um tanto perturbadora, não tem conserto aparente e não é de fácil digestão para uma revista dominical, mas pelo menos, superficialmente falando, como abortei o tema o foco é o de uma tentativa da compreensão do porque dessa irrefreável curva ascendente na quantidade de casos de traição, e no pensamento deles.

Em um momento em que a maioria das pessoas se juntam por n razões menos a propriamente vontade indizível de viver conjuntamente nossas famílias estão se desestruturando. Infelizmente ainda não se encontrou um substituto no status para uma família. Ainda vemos como fator importante em vários seguimentos da sociedade a importância de se ter uma família. Essa, tradição se me perdoem o uso tão forte do termo, de constituir família nada mais é do que o costume. Ninguém pára para pensar sobre o que é isso de fato. Apenas vão esbarrando umas com as outras a esmo e em certa hora se juntam.

Essa insatisfação que leva a uma traição. Considero-a como nem sendo uma traição. Se alguém se predispõe a tal ato é porque está desligado afetivamente do seu par, seja sexual, seja mentalmente. A traição hoje é recorrente, no passado havia uma supressão dessa realidade por motivos muito mais fortes e tradicionais, mas não deixava de acontecer. Quando as tradições perdem sua força, vemos com mais clareza os efeitos da sociedade liberal no processo mental das pessoas. Elas estão praticamente sozinhas hoje em dia, sem muito no que se apoiarem. Deixando todas as possibilidades possíveis.


leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 07/04/2006
Código do texto: T135235
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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