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A Droga do Álcool

A DROGA DO ÁLCOOL.

Essa semana estava conversando com uma amiga, Sônia Fernanda, coordenadora de várias ONGs (Organizações Não Governamentais), dentre elas a Fundação “Igualdade” que cuida da preservação dos direitos de todos os gêneros dos homossexuais, travestis e afins. Ela me sugeriu que escrevesse algo sobre drogas e álcool, descrevesse, se possível, com palavras simples, como uma dessas substâncias ou as duas juntas, podem afetar um ser humano e toda a família que o cerca.

Eu mesma passei por isso ao lutar, dentro da minha própria casa que, infelizmente foi invadida por substância química entorpecente, vitimando um dos meus filhos e quase disseminando a revolta e o terror dentre meus entes queridos. Só quem passou por uma experiência dessas pode avaliar o estrago que a droga deixa para aquele que, por um momento de fraqueza ou mesmo por mera curiosidade se deixa levar por ela...Alguns, felizmente, através do apoio dos familiares e amigos conseguem, através de um tratamento adequado se livrar das mesmas, embora não seja em um curto espaço de tempo. Há necessidade de muita perseverança e a vontade primeira de se livrar daquela droga/álcool que teima em destruir a vida daquele dependente e todos que estão a sua volta.

Até aqui não falamos de “grandes” novidades, mas, ao depararmos com o problema das drogas, quando se é atingido o policial militar, vemos, estarrecidos um Código Penal Militar arcaico e, totalmente fora de nossa realidade vigente. Nas fileiras da Corporação o consumo de bebida alcoólica ou drogas ilícitas (aqui estamos nos referindo ao dependente e não a traficantes e coisas do gênero) ainda é considerado crime, podendo levar o miliciano à prisão em flagrante delito se for pego no momento do consumo ou mesmo próximo de suas dependências de uso pessoal, no quartel ou fora dele.

Agora, imagine uma pessoa viciada em álcool na cela de uma Presídio, sem tratamento adequado e à margem da sociedade. De duas uma, ou vai procurar outro tipo de substância para se aliviar (é o caso de perfumes, desodorantes, remédios e álcool puro encontrado nas cadeias, trazido por visitantes, “aviões”, etc) ou irá atentar contra a sua própria vida. E, caso venha a se livrar solto, sua recaída será inevitável, pela humilhação que seus comandantes, salvo raríssimas exceções, o farão passar...E, nem me digam que há tratamento especializado para o dependente químico ou do álcool nos hospitais militares e seus conveniados. Aqui em São Paulo, até onde sei, só havia dois médicos psiquiatras em efetivo exercício na profissão para assistir a toda Milícia Paulista. Abro aqui um parênteses para ressaltar que, até há pouco tempo, um desses médicos estava em tratamento psiquiátrico devido ao grande volume de policiais militares envolvidos com problemas de consumo de álcool e drogas.

Lembro-me, certa vez, numa audiência, o soldado ‘X”, preso em virtude de flagrante de embriaguês, quando de seu interrogatório, chegou visivelmente alcoolizado. O Presidente do Conselho de Justiça da Auditoria Militar, um Major PM, não teve dúvidas e requisitou mais um inquérito acusando-o de se apresentar embriagado, só que dessa vez, em juízo e outros tantos delitos que o referido Oficial foi citando, em alto e bom som, tais como, fardamento incompatível, barba por fazer, apresentar-se inadequadamente e por aí vai...(com um mínimo de coerência, sabe-se que todos esses fatores aconteceram devido à condição propiciada pelo estado etílico em que se encontrava o cidadão, no caso, o réu). A fisionomia desse policial

deixou-me constrangida, pela primeira vez dentro de um plenário, pois, pude sentir o desespero estampado nos seus olhos por, primeiro não saber como livrar-se da bebida que tanto o consumia, tanto que estava recolhido no “Romão Gomes” (Cadeia), abandonado pela família, sem tratamento especializado e, ainda levando outro flagrante, mais punições disciplinares, além do vexame público a que estava sendo exposto, diante da juíza, promotor, advogado, escrivão, funcionários, etc......

Não mencionarei o que fiz com esse processo porque, com certeza, seria punida “com os rigores da lei”, mas dei-lhe um tratamento, junto à clínica especializada de um amigo muito querido que o recebeu de braços abertos e gratuitamente. No mais, reservo-me o silêncio, tendo em vista que já falei demais...

Daquele dia em diante, passei a ter alguns cuidados em casos semelhantes. Antes de uma sessão versando sobre delitos de consumo de bebidas alcoólicas, o funcionário responsável pela minha audiência, ia checar se o réu estava em condições de ser ouvido. Caso contrário, eu o dispensava, não sem antes conversar com o mesmo, dar-lhe todas as instruções possíveis do que estaria acarretando a si mesmo e encaminhando-o ao hospital militar ou assemelhado. Não me arrependo. E, se no Tribunal Militar, ainda estivesse, faria tudo novamente, porque ser juiz é, antes de tudo, bom senso. Senão, é só abrir o Código Penal e aplicar a pena correspondente ao crime, o que qualquer ser alfabetizado sabe fazer...

Muitas vezes, em eventos sociais, presenciei colegas meus ingerirem altas doses de bebidas alcoólicas e necessitarem sair do local carregado por outros que estavam tão ou mais bêbados que o mesmo. Um deles, certa vez, esmurrou a guarita de um prédio até quebrar os vidros e machucar suas mãos e pulsos. E nem vou contar que esse mesmo senhor tentou o suicídio tomando mais de 3 (três) garrafas de vinho e, ainda no meio da madrugada me telefonou, agonizante, em MINHA plena LUA-DE-MEL de meu segundo casamento,pedindo ajuda. Eu e meu marido, à época, o socorremos, e hoje esse homem quando passa por mim finge não me conhecer (sic). Outro, viajou, com uma “funcionária” para o Estado do Rio de Janeiro passar o carnaval e bebeu tanto que se fantasiou de Libélula, acabando por desfilar dentro do Sambódromo, junto à escola de samba “Unidos da Padre Miguel ou sei lá o nome”, mas tenho fotos da “borboleta”, comprovando o triste episódio...

Só que nesses casos, eles eram juízes! E daí???...

Nada aconteceu...A juíza declarada insana fui eu...

Lamentável!


Roseane Pinheiro de Castro
Presidente da MMPM
7/abril/2006
Zane
Enviado por Zane em 10/04/2006
Código do texto: T136895
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Sobre a autora
Zane
São Paulo - São Paulo - Brasil, 55 anos
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