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A VIA CRUCIS DO CARIOCA

Este texto é, antes, um desabafo.

Não terá, decerto, outra utilidade que não compartilhar, com os apreciadores de literatura que escrevem ou visitam este site, um estado de espírito vivenciado atualmente pelos meus conterrâneos. Estado de espírito crucial; limítrofe; sufocante; um quase terror.

Entre tantos outros descalabros diários, como o último boato em estilo terrorista, do seqüestro de crianças para o tráfico de órgãos, que circulou pela cidade enlouquecendo mães e pais - cujos responsáveis, como sempre, continuam passeando pelas ruas em pleno sol a pino sem punição - esta semana ouvi de um colega de trabalho o relato estarrecedor da violência sofrida com toda a sua família, mulher e filhos, num quase arrastão acontecido, às seis horas da manhã, no lugar onde mora, um prédio em Niterói.

A mente humana - a minha, pelo menos - não encontra mais registro para certos acontecimentos; aliás, para a forma como se dão: pleno dia; pessoas entrando e saindo de um prédio de luxo, que normalmente dispõe de vigilância reforçada; uma quadrilha com quase vinte homens invade este prédio: rende o vigia e moradores que, naquele instante, entram e saem para as suas atividades diárias; invadem apartamentos, diante dos moradores estarrecidos; rendem crianças aterrorizadas e mulheres; dão coronhadas; apontam armas para quem ainda dorme, e anunciam o assalto; apanham tudo que querem, e saem, na maior sem cerimônia - nem mesmo máscaras se dão mais ao trabalho de usar. A certeza da impunidade é pacífica, soberana. Toda a ação é cronometrada; comunicam-se por celulares, uns do lado de fora avisando os que assaltam do tempo que lhes resta para concluírem a operação.

Tudo orquestrado. Tudo organizado - e - horror!! - eficiente, como nenhuma autoridade de estado consegue ser para sufocar e neutralizar a ação destes bandidos, mergulhando uma das cidades mais lindas do país num estado de caos que submete seus moradores a um desespero, a uma sensação dolorida de impotência e de desamparo.

O comentário geral é a vontade unânime de se evadir para qualquer outro lugar, neste país de proporções continentais; a fim de sossegar, de se viver com um pouco mais de tranqüilidade; de se ver livre desta agonia sem fim que apenas se agrava, de um para outro dia...

Até porque as perspectivas são horrorosas; ninguém enxerga fim para tal tormento. Quando olhamos com lucidez para a realidade brasileira, o que vemos é, no alto escalão, a matriz do papel carbono que reproduz a situação cá embaixo, nas diversas camadas sociais do país.

Corruptos roubam à luz do dia o dinheiro público; CPIs os inocentam; a douta senhora dança a dança da pizza; debochados riem, em triunfo. Não tem para aonde; a impunidade que grassa em cima encontra o seu efeito dominó embaixo, corroborando o magistral texto de um colunista famoso, no qual afirma que a única e exclusiva culpa dos governos existentes no Brasil está na própria sociedade: que enquanto o Brasil for o país dos "jeitinhos brasileiros": com gente que não se importa em lançar seu veículo sobre pessoas, avançando os sinais, e desrespeitando leis de trânsito nas estradas, e ainda posando cheio da razão para defender tal postura homicida; que culpa as enchentes mas não se educa, na hora de lançar o lixo no lixo, e não nas ruas, de onde escoa para entupir esgotos; que sonega imposto; que se contenta com uma felicidade fictícia regada a samba, carnaval e chopp; que troca seu voto fácil por uma cesta básica e por um monte de promessas inócuas, de eleição para eleição nunca cumpridas; enquanto este parâmetro de bem-viver perdurar, uma tal mentalidade justificará plenamente a sua ineficiência, ao  votar em candidatos que não são extra-terrestres: saíram, antes, do nosso meio! São cria da nossa gente e da nossa terra - e acabam reproduzindo em alta escala, lá em Brasília, ou em qualquer outro patamar do poder político, o "jeitinho brasileiro" que o próprio brasileiro usa ao burlar leis, para viver por conta do "farinha pouca meu pirão primeiro" e dar sempre um jeito de sair impune!

Por isso bandidos andam à solta, cada vez mais organizados e impunes, infundindo o terror em cidades como o Rio de Janeiro. Crime virou "way of life", modo de vida. Trata-se de uma hedionda versão do dito esotérico, "O que é em cima é embaixo", compondo, neste país e na minha cidade, um cenário desolador.

Que o Supremo Criador do Universo não nos desampare.
 
Christina Nunes
Enviado por Christina Nunes em 12/04/2006
Reeditado em 12/04/2006
Código do texto: T137875
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Christina Nunes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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