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As razões de Stedile




Quando vieram dar a notícia ao Dr. João Pedro Stédile, que ministrava uma conferência na PUC, em Porto Alegre, que algumas mulheres agricultoras, filiadas à Via Campesina, haviam levado a efeito uma depredação nas instalações de um laboratório experimental da Aracruz Celulose, em Camaquã, interior do Rio Grande do Sul, o economista, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST) no estado, limitou-se a perguntar: “Come-se eucalipto? Celulose é alimento?”. Perguntou e deixou a questão no ar. E logo a seguir retomou o tema de sua conferência.

É certo que em um estado civilizado não se admitem atitudes predatórias, capazes de colocar em risco a segurança de pessoas ou a inviolabilidade de patrimônios, sejam privados ou públicos. A violência, preliminarmente, não é a solução para nada, pois se torna algo mais nefasto que aquela que deseja combater. No entanto, as questões de Stédile têm uma profundidade que não foi alcançada pela grande mídia ou pelos julgadores do “ouvir dizer”.

Qual a finalidade de uma unidade experimental daquele tipo em nosso Estado? No que o plantio do eucalipto e a manufaturação da celulose auxiliam a minorar a fome e o elevado grau de desnutrição de nosso povo? Nada! Ora, se a resposta é nada, mesmo que não se queira justificar o pretenso vandalismo de pessoas cujo desespero e falta de esperança cerceou uma visão mais discernida da realidade, conclui-se que plantio de árvores e extração de resinas, que não contribuem para o bem-estar do povo, são coisas de mínimo contributo.

Some-se a isto o fato de o plantio dessas árvores, bem como a instalação de fábricas de celulose, por apressão ao meio-ambiente, sererem proibidos na Europa e no chamado Primeiro-Mundo. Aracruz, Borregard, Riocel e sucessores, estão recheados de capital internacional, finlandês, norueguês, etc.

Um amigo, desses deslumbrados e ufanistas, falou-me em “reflorestamento”. Ora, sabemos que a maioria desses “processos de reflorestamento”, do jeito que se vê por aí, são a maior farsa que se pode imaginar.

O tubarão extrativista abate as florestas, mata atlântica ou nativa, e em seu lugar planta eucalipto ou pinus. Essas árvores, exceto andaime para obras ou móveis de quinta-classe, não servem para nada. A terra agredida, a biodiversidade, pássaros, pequenos animais, minhocas, etc., desenraizadas das matas naturais, não subsistem em um ambiente artificial e se extingue. Constando-se a mínima utilidade do eucalipto e de seus subprodutos, conforme levantado pelo Dr. Stédile, resta-nos questionar a visão social de quem deu a autorização para que a Aracruz se instalar entre nós.

Em janeiro 2006 (a fonte é a Agência Carta Maior) a Aracruz, teria despejado,sob violência, com apoio oficial, duas aldeias indígenas no Espírito Santo, para dar seqüência a seus "projetos de expansão". E isso não é uma violência? Não vi a mídia comentando, nem os políticos oportunistas denunciando.


o autor é Professor Universitário e Doutor em Teologia Moral

Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 12/04/2006
Código do texto: T137954
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão