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Índios Karajá no Estado do Tocantins

1. INTRODUÇÃO

Os índios da etnia Karajá pertencem ao tronco lingüístico Macro-Jê, se autodenominam Yny, habitam a bacia do rio Araguaia há vários séculos e se dividem atualmente em três subgrupos: os Javaé, os Xambioá e os Karajá propriamente ditos - ocupantes de regiões geográficas distintas ao longo da bacia do Araguaia (Toral, 1992; Santos, 2002; Rodrigues, 2008).

Não existem muitas pesquisas que busquem descrever as diferenças e similaridades entre esses subgrupos. Este trabalho trata da avaliação de aspectos da organização social e econômica dos três subgrupos que compõem a etnia dos Karajá no Estado do Tocantins.


2. MATERIAL E MÉTODOS

A coleta de dados deu-se a partir de dez visitas realizadas às aldeias dessa etnia, durante o período de fevereiro/2002 a julho/2004, totalizando 101 dias de convivência. Além dessas visitas, realizamos um levantamento de diversas referências bibliográficas que tratam desse grupo indígena.


3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

No Estado do Tocantins, os índios do subgrupo Karajá e Javaé habitam aldeias localizadas no interior da Ilha do Bananal, sendo que as nove aldeias Karajá (Santa Isabel do Morro, Fontoura, Macaúba, Mirindiba, Tytema, JK, Itxalá, Axiwé e Watau) estão dispostas às margens do rio Araguaia e das onze aldeias Javaé, dez (São João, Wari-Wari, Canoanã, Cachoeirinha, Barreira Branca, Boa Esperança, Txiodé, Barra do Rio Verde, Txuiri e Boto Velho) estão posicionadas às margens do rio Javaés (braço menor do rio Araguaia) e uma delas (Imotxi) às margens do Riozinho no interior da Ilha do Bananal. As três aldeias Xambioá (Kuherê, Xambioá e Wari Lyty) estão no município de Santa Fé do Araguaia, região do Bico-do-papagaio, porção baixa do rio Araguaia, posicionadas às suas margens.

O subgrupo Karajá é o maior, apresentando população aproximada de 1800 pessoas, os Javaé são cerca de 1100 pessoas e os Xambioá, têm a menor população, com cerca de 250 pessoas, totalizando aproximadamente 3150 pessoas.

Considerando as formas tradicionais de subsistência, os Karajá e Javaé são pescadores, comerciantes (pescado e artesanato) e agricultores, enquanto que os Xambioá são pescadores/ caçadores e agricultores (Toral, 2002; Franklim, 2004). Verifica-se ainda que os Karajá e Javaé obtêm renda complementar através do aluguel de áreas próximas às suas aldeias, aos latifundiários de municípios da região de entorno da Ilha do Bananal para a criação de gado bovino, e os integrantes dos Xambioá complementam sua renda trabalhando em atividades agropastoris nos latifúndios da região de entorno de suas aldeias.
 
Os integrantes dos Karajá e Javaé comunicam-se entre si usando sua língua materna homônima. Dentre os Xambioá, os anciãos conhecem sua língua materna, mas apesar disso, todos desse subgrupo usam apenas o Português cotidianamente.

A língua Karajá apresenta uma diferença entre uma fala feminina, das crianças e masculina. Essa diferenciação entre a fala é feita através de alguns fonemas e expressões específicas para cada gênero, expressando a forte divisão entre os papéis masculino e feminino (Rodrigues, 1993; Lima, 2004). Como exemplo, podemos citar os nomes de alguns quelônios, no caso Karajá, ¨k¨òtoni é a palavra para tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa), kòtoni é a versão feminina, enquanto òtoni é a versão masculina, que vem sem o ¨k¨. Algumas palavras apresentam a mesma grafia para ambos os gêneros, tal como wemá, que é a palavra para o quelônio aquático matá-matá (Chelus fimbriatus).

Observa-se entre os Karajá e Javaé uma arte plumária extremamente exuberante, com diversos adornos de caráter estético/ religioso, manufaturados com o emprego de material florístico diverso (palhas, cascas, sementes etc.) e plumas de inúmeras aves, dentre as quais, cabeça seca (Mycteria americana), jaburu (Jabiru mycteria), colhereiro (Ajaia ajaia) pato do mato (Cairina moschata), arara canindé (Ara arauma), arara vermelha (Ara macao) e papagaio (Amazona amazonica) (Teixeira, 1983). Os principais utensílios e adornos produzidos são: cestas de tamanhos e funções diversas, redes, esteiras, máscaras rituais, cocares, cintos, saiotes, braceletes, brincos, colares, pulseiras, e maracás.

Ressalta-se entre os Karajá e Javaé o grafismo das pinturas corporais, diversificado em formas e associações simbólicas. Entre as principais associações das pinturas corporais utilizadas pelos integrantes desses dois subgrupos podemos citar àquelas usadas pelos meninos adolescentes ou pré-adolescentes durante o ritual de passagem (Hetohoky). Eles são pintados com tinta à base de jenipapo, têm seus cabelos raspados e são nominados em língua nativa ¨jiré¨, palavra associada à ariranha (Pteronura brasiliensis) (Lima Filho, 1994; MEC, 1998). Há também durante as festividades da Festa dos Aruanãs o uso de pinturas corporais associadas aos quelônios, conforme observado por Rodrigues (2004) e Salera Júnior (2005).

A principal festividade ritual dessa etnia é a Festa dos Aruanãs ou Dança dos Aruanãs, que se trata de um misto de atividades místicas e alimentares, onde são realizadas danças, cânticos, brincadeiras e refeições especiais. Os homens dançam, geralmente em duplas, vestidos com uma roupa feita à base de palha tingida com jenipapo e urucum e adornada com penas diversas. Dançam representando diferentes seres antropomorfos mágicos (Aruanãs, Worysy e Latèni), que têm personificações próprias, através de canções e ritmos bem característicos para cada uma das categorias desses seres espirituais.
 
Verifica-se entre os Karajá a produção de arte cerâmica, representada principalmente pelas bonecas Ritxokó, que apresentam cenas do cotidiano das aldeias. Essa arte cerâmica é ausente entre os Javaé e Xambioá.

No subgrupo Xambioá não se verifica também o uso de pinturas corporais, produção de arte plumária e utilização da língua materna. A prática dos principais rituais místicos (Festa dos Aruanãs e Hetohoky) mostra-se presente apenas entre os Karajá e Javaé.

A ausência das atividades associadas às pinturas corporais, produção de arte plumária, uso da língua materna e práticas rituais tradicionais entre os Xambioá se mostra como um reflexo da desagregação cultural sofrida a partir de pressões advindas da comunidade nacional envolvente e pela falta de uma política pública efetiva que possibilite a auto-afirmação desse subgrupo dos Karajá. Se esse quadro extremamente preocupante não for contornado, poderá se repetir entre os subgrupos Javaé e Karajá da Ilha do Bananal.


4. BIBLIOGRAFIA

CONJABA - Conselho das Organizações Indígenas do Povo Javaé da Ilha do Bananal. Etnia Javaé Itya Mahãdu. Disponível em: http://www.conjaba.com.br/javae.html

Franklim, W.G. 2004. Irahu Mahadu: Aspectos Socioeconômicos da etnia Karajá-Xambioá do norte do estado do Tocantins. Porto Nacional, Fundação Universidade Federal do Tocantins. (Monografia - Graduação em Geografia, Fundação Universidade Federal do Tocantins). 62p.

Lima, M.L.C.D. 2004. O olhar Karajá sobre a natureza. Palmas, Universidade Federal do Tocantins. (Dissertação de Mestrado em Ciências do Ambiente, Universidade Federal do Tocantins). 125p.

Lima Filho, M.F. 1994. Hetohoky um rito Karajá. Goiânia: Editora UCG. 184p.

MEC - Ministério da Educação e Desporto, 1998. Adornos e pintura corporal Karajá. Coleção Textos Indígenas: Série Cultura. MEC/ SEF/ SEE- TO, 47p.

Rodrigues, P.M. 1993. O povo do Meio: tempo, cosmo e gênero entre os Javaé da ilha do Bananal. Brasília, Universidade de Brasília. (Dissertação de Mestrado em Antropologia, Universidade de Brasília). 438p.

Rodrigues, P.M. 2004. Notas sobre os Karajá e Javaé. In: Fany Ricardo (org.).Terras indígenas & unidades de conservação da natureza: o desafio das sobreposições. São Paulo: Instituto Socioambiental. 480-481p.

Rodrigues, Patrícia de Mendonça. 2008. A caminhada de Tanyxiwè: Uma teoria Javaé da História. Chicago, Illinois (EUA), Universidade de Chicago. (Doutorado em Antropologia). 953p.

Santos, J.E.B. 2002. Conhecendo e preservando as culturas indígenas do Tocantins. Governo do Estado do Tocantins, Fundação Cultural do Estado do Tocantins. 120p.

Salera Júnior, G. 2005. Avaliação da biologia reprodutiva, predação natural e importância social em quelônios com ocorrência na bacia do Araguaia. Palmas, Universidade Federal do Tocantins. (Dissertação de Mestrado em Ciências do Ambiente, Universidade Federal do Tocantins). 191p.

Salera Júnior, G. 2006. Quando a índia moça vira mulher. Jornal Chico, edição n. 18, p. 05, de 16/07/2006. Gurupi, Estado do Tocantins. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/ensaios/279966

Salera Júnior, G. 2008. Os povos indígenas da Ilha do Bananal. Jornal Mesa de Bar News, edição n. 285, p. 10, de 07/11/2008. Gurupi - Estado do Tocantins. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/ensaios/1260266

Salera Júnior, G. Malvasio, A. & Giraldin, O. 2006. Relações cordiais. Ciência Hoje, 39 (226): 61-63. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/275873

Teixeira, D.L.M. 1983. Um estudo da etnozoologia Karajá: o exemplo das máscaras de Aruanã. In: O artesão tradicional e seu papel na sociedade contemporânea. FUNARTE/ Instituto Nacional do Folclore. 213-232p.

Toral, A.A. 1992. Cosmologia e sociedade Karajá. Rio de Janeiro, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro. (Dissertação de Mestrado em Antropologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro). 287p.

Toral, A.A. 2002. Diagnóstico socioambiental - Avaliação para implantação de ações de apoio junto às comunidades Javaé e Karajá da Ilha do Bananal (TO). Palmas: Instituto Ecológica. 62p.

Toral, A.A. 2004. Terras indígenas e o Parque Nacional do Araguaia. In: Fany Ricardo (org.). Terras indígenas & unidades de conservação da natureza: O desafio das sobreposições.  Instituto Socioambiental, São Paulo (SP). 482-485p.


5. AGRADECIMENTOS

O apoio às etapas de campo foi dado pela Escola de Canoanã da Fundação Bradesco, a CONJABA e a FUNAI. Agradecemos a Ricardo Rehder e Lucrécio Filho da Fundação Bradesco, Euclides Dias e Maria Djane da FUNAI e Darci Javaé da CONJABA. Agradecemos aos caciques Terambi Javaé, Juraci Javaé, Carlos Alberto Karajá e Wanderley Karajá. Agradecemos também ao apoio recebido pelo CIMI-TO, através dos missionários Domingos Rodrigues Maciel e Clarice Duarte da Silva.


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Gurupi - TO, Março de 2009.

Giovanni Salera Júnior é Mestre em Ciências do Ambiente e Especialista em Direito Ambiental.
E-mail: salerajunior@yahoo.com.br  

William Giovani Franklim é Geógrafo e indigenista.
E-mail: indiovani@yahoo.com.br
Giovanni Salera Júnior e William Giovani Franklim
Enviado por Giovanni Salera Júnior em 03/03/2009
Reeditado em 27/11/2011
Código do texto: T1467403
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Giovanni Salera Júnior
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