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BERMUDAS E CALCINHAS

A Polícia que combateu ferozmente Lampião, a que procura marginais enquanto a gente está dormindo, a que ganha pouco e não se corrompe e que nos protege dia e noite, com sol ou com chuva, não deveria ter nos seus quadros certos policiais que fazem da farda uma proteção para seus desmandos e ignorância. A Polícia que sabe combater e como combater, que veste uma farda e sabe respeita-la, que trata o cidadão de respeito com respeito, merece o nosso aplauso. Eu conheço policiais honrados, vocacionados para a missão que a sociedade lhes confia, mas, na semana passada eu vi um policial cumprindo ordem, como se fosse um algoz. Vi um policial que merece ser cuspido na cara e que não deveria usar uma farda tão bonita!
Já se passaram mais de trinta anos que eu venho merecendo a confiança dos doutores juízes Neider Alcântara, Antonio Nunes, Danilo Barreto Acioli, Hermann Brito, Morgan Falcão, Ivan Vasconcelos, Dra. Ana Florinda, Gerilo Vanderley, além de outros. Hoje, continuam confiando em mim o doutor Ivan Vasconcelos, Dr. Gustavo, Dr. Erik e Dr. Pedro Jorge e, é por isso que, semanalmente, vou ao Fórum receber e levar processos com laudos periciais.
Na semana passada fui ao Fórum, onde sempre somos obrigados a deixar nossos celulares na caixa da inútil cabine para detectar metais. Ora, se um cara desejar matar juízes ou promotores, os mata em casa, na rua, na saída ou chegada ao Fórum, no campo de futebol, etc. Tais cabines são coisas ridículas de uma segurança, sem segurança.
Pois bem! Eu ia entrar e, juntamente a mim umas cinco pessoas, dentre as quais um rapaz, com cara de pobre e de cidadão de bem. Ia tirar uma certidão, num balcão que fica a uns 10 metros da cabine, onde se formava uma grande fila. Tinha vindo do interior do Estado e sua esperança de vida era um emprego ou concurso que exigia a certidão. Era um rapaz de uns 19 ou 20 anos e estava vestido com decência, mas seu crime era estar vestindo uma bermuda, daquelas compridas que ficam abaixo do joelho. Junto à cabine, do lado de dentro uma voz de trovão gritou para o rapaz:  - “Êi, você ai não pode entrar de jeito nenhum. Pode sair da fila que aqui, de bermuda não entra nem o presidente”.
Que “delicadeza”! Que “policial fino e preparado para lidar com o povo!” Uma bermuda bonita, certamente comprada em barraca de feira livre, estava tirando o direito de um cidadão jovem, de se empregar. Perto dali estavam várias mocinhas com mini-saias que deixavam aparecer as mini-calcinhas e os sutiãs que cabiam numa caixa de fósforos. Em todos os Fórum do Brasil, entram muitas mocinhas sem calcinhas, para facilitar os “agravos de instrumentos”, as “apelações”, os “hábeas corpus”, e as “audiências proibidas ao público”
Hoje em dia, se entra de bermuda em hotéis, restaurantes, repartições, cinemas, teatros, igrejas. Afinal o que tem uma bermuda para ser imoral ou inconveniente?  Por vestir uma decente bermuda, um jovem pode ter seu futuro comprometido, pois, nem sempre tem o dinheiro para a passagem, passa fome e é barrado na casa onde a justiça deveria imperar. Enquanto a hipocrisia fizer parte das nossas leis e instituições, vamos sempre nos envergonhar das coisas muito mais imorais do que as bermudas dos jovens de vergonha!

Obs: Este artigo foi publicado no jornal EXTRA, em 2005.
José Arnaldo Lisboa Martins
Enviado por José Arnaldo Lisboa Martins em 30/04/2006
Reeditado em 30/04/2006
Código do texto: T147904
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Sobre o autor
José Arnaldo Lisboa Martins
Maceió - Alagoas - Brasil
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José Arnaldo Lisboa Martins