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O Poder da Influência


Riqueza material não é o que, necessariamente, torna as pessoas mais felizes. Penso que essa seja uma das conclusões (óbvias) a se que chega ao destrinchar o tema Felicidade. Aproveitando a deixa, dois bons trabalhos nesta área são o de Layard (1), abordagem puxando mais para o lado social e econômico, e o de Cutler (2) - escrito em parceria com o Dalai Lama -, abordagem mais voltada para o lado humano e espiritual. Quanto ao segundo, tente ler sem preconceitos.

E com esse pensamento fui ontem para a cama, chocada com a ocorrência de um massacre – mais um! - em uma escola secundária, num vilarejo chamado Winnenden, aqui na Alemanha. Telejornais noticiaram 16 mortos, incluindo o atirador. Todos pareciam ter uma só pergunta: “Por quê?”

„Amoklauf“. Esta é a palavra que aqui se usa para designar crimes desse tipo: pessoas armadas – com faca, arma de fogo, pau, pedra, o que seja - que saem atacando, matando a quem encontram pelo caminho. Seguindo o exemplo do massacre de Colombine, nos Estados Unidos – Deus salve a América! - não foi essa a primeira vez que tal coisa aconteceu por aqui. Parece que, na época da Copa do Mundo, em 2006, um doido saiu pelas ruas de Berlin esfaqueando quem encontrou pelo caminho. E em 2002, massacre parecido ao de ontem aconteceu em Erfurt. Já pensou se a moda pega?

E pega! Vendo o noticiário ontem, e lembrando de um livro do Cialdini (3), lido ano passado, temo que casos assim voltem a ocupar as manchetes dos jornais nos próximos meses. Por que tanto pessimismo?! Olhe, pelo que entendi do que andei lendo, existe um fenômeno designado como copycat suicide ou efeito Werther – referência ao personagem de Goethe –, uma tentativa de explicar porquê, após a divulgação de um grande desastre, como a queda de um avião, um crime brutal, suicídio, ou massacre, há uma tendência a que uma série de casos semelhantes ocorram, pouco tempo depois.

Ano passado, observei o que me pareceu ser uma ocorrência desse fenômeno: Dia 29 de Março de 2008, o Brasil chocou-se com a notícia da morte da pequena Isabela Nardoni que, segundo a versão da polícia, fora esganada pela madrasta e depois jogada pela janela de um apartamento, no sexto andar de um prédio, pelo próprio pai. Na versão dos acusados, uma terceira pessoa invadira o apartamento e cometera o crime, enquanto os dois se encontravam na garagem do prédio, com os irmãos da vítima. Não sei que fim teve esse caso... Sim, mas isso não é importante aqui.

Observei que, não muito tempo depois, os jornais começaram a noticiar outros casos semelhantes, de violência contra crianças cometidos pelos próprios pais. Só para citar alguns: 1) Adolescente tenta matar filha de 8 meses esganada em São Paulo – notícia publicada no caderno Cidades, Estadão.com, 10 de Junho de 2008; 2) Pai agride e ameaça jogar filho de 4 anos pela janela – notícia publicada no caderno Cidades, Estadão.com, 23 de Junho de 2008;
3) Mãe é acusada de jogar filha de oito meses pela janela – notícia publicada no caderno Cidades, Estadão.com, 1° de Julho de 2008.

Lendo o noticiário, na época, até brinquei: “Ué, agora virou moda no Brasil se jogar crianças pela janela?” – como se isso fosse brincadeira! Gracinhas à parte, lembrei-me, de novo, do livro sobre influência. Uma coisa puxou outra e fui parar no padrão Werther. Repetições de ocorrências desse comportamento é o que me preocupa. Ainda mais quando observo muito mais falarem dos criminosos do que das vítimas. Quem foram elas? O que faziam? O que queriam do futuro? E suas famílias, como estão?

Preocupo-me mais ainda, chego mesmo a revoltar-me, quando ouço jovens - que aparentemente têm tudo – dizendo:

“Es ist mir (scheiß )egal...”
“A mí me da igual y no me importa...”
“Tanto faz! Não importa!”

Línguas diferentes; expressões diferentes. Mesma idéia.

Até já me peguei rotulando esses jovens de “Geração do Tanto faz! Nada importa!”. Essa geração que não está satisfeita com o presente, e no entanto não se esforça para ter um futuro diferente, melhor. Nada importa: passado, presente e futuro, nada faz diferença. Tudo dá na mesma. Se alguém não tem vontade para mais nada que não juntar-se em grupos para fumar, tomar bebida alcoólica e falar bobagens, que futuro terá? Muitas vezes, nem ajuda é aceita, pois isso sinaliza fraqueza. O que fazer então? Melhor deixar que continue o caminho, cega ou conscientemente, em direção ao abismo? Quem errou? Famílias, escolas, sociedade, todo mundo?

Escrevi esse texto basicamente para trabalhar o que sinto no momento, a respeito do ocorrido. Ao mesmo tempo, como uma forma de tentar me colocar nos sapatos das vítimas e suas famílias, até mesmo no lugar do „Amokläufer“ (o atirador), seus pais e amigos. Também como uma forma de fazer alguma coisa, de não ficar só engrossando o coro dos que perguntam “Por quê?” sem realmente quererem encontrar respostas. Hoje foi aqui, amanhã, só Deus sabe... Para alguém que esteja disposto a tudo por alguns minutos de fama, para quem a vida “tanto faz!”, a propaganda (e de graça!) que seus atos poderão vir a receber, pode ser uma baita de uma motivação, não?

REFERÊNCIAS

(1) Happiness: lessons from a new science. Richard Layard – Penguin Books (2005). Versão em Português: Felicidade – Lições de Uma Nova Ciência – Ed. Best Seller (2008).
(2) A Arte da Felicidade  - Um Manual para a Vida. Dalai Lama e Howard C. Cutler. (Não lembro o ano. Acho que 1999 ou 2000)v
(3) The Psychology of Persuasion – Influence. Robert B. Cialdini. Ed. Collins (2007).


Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 12/03/2009
Código do texto: T1482389
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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