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APÓSTROFE ATREVIDA

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Em 1640, o Brasil estava a ponto de cair sob o jugo holandês. Sendo a Bahia sede do governo brasileiro, perdê-la para os Holandeses era o mesmo que perder o Brasil. Vieira, tomado de inspiração patriótica, realiza na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na Bahia o sermão intitulado Pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda; com o qual insufla coragem e confiança aos fiéis dominados pelas virtudes da fé, para que peguem em armas contra as de Holanda.

Esse sermão ficou célebre pelo trecho conhecido como a "Apóstrofe Atrevida" a Deus, para que detivesse a vitória dos hereges holandeses, futuros destruidores das imagens sagradas. Portanto, Vieira não fala diretamente aos fiéis; mas a Deus - seu "interlocutor": “Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens, mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes (...)".

Da Apóstrofe Atrevida, retirei os versículos  bíblicos de duas ou três linhas, em latim, que entrecortam o sermão, para uma maior agilidade na leitura.  Selecionei os trechos que julguei mais enfáticos e os coloquei neste excerto:

"Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes. Derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a marteladas, e metê-las-ão no fogo, e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem as imagens de Cristo crucificado, nem as de Virgem Maria."

Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas nas vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo Corpo, mas nas da Virgem Maria, nas de vossa Santíssima Mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e amor de filho. No monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da Cruz, e, com aqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a lhe tocar, nem a lhe perder o respeito (...).

Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e do decoro de vossa Mãe, como consentis agora que se lhe façam tanto desacatos? Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a Arca do Testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhes tiraste a vida. Pois, se então havia tanto rigor para quem ofendia a imagem de Maria, porque não o há também agora? (...). Se a Jeroboão, porque levantou a mão para um profeta, se lhe secou logo o braço, milagrosamente, como aos hereges, depois de atreverem a afrontar vossos santos, lhes ficam ainda braços para outros delitos? Se a Baltazar, por beber pelos vasos do templo, em que não se consagrava vosso sangue, o privaste da vida e do reino, porque vivem os hereges, que convertem vossos cálices a usos profanos? Já não há três dedos que escrevam sentenças de morte contra sacrilégios?

Enfim, senhor, despojados assim os templos, e derrubados os altares acabar-se-á no Brasil a cristandade católica; acabar-se-á o culto divino; nascerá ervas nas igrejas, como nos campos, não haverá quem nelas entre. Passará um dia de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento; passará a Quaresma e a Semana Santa e não se celebrarão os mistérios de vossa Paixão. (...). Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos sem confissão, nem sacramentos; pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, em lugar de São Jerônimo e Santo Agostinho, , ouvir-se-ão e alegar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero; beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses; e chegaremos a estado que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão:  – Menino, de que seita sois? Um responderá: – Eu sou calvinista; outro: – Eu sou luterano.

Por que isto se há de sofrer, Deus meu? Quando quisestes entregar vossas ovelhas a São Pedro, examinaste-lo três vezes, se vos amava: Diligis me, dilligis me, diligis me (Jô. 21, 15s)? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão aos lobos? Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito e nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender-se, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é — que assim o estão prometendo vossas entranhas piadosíssimas — se é que há de haver dor, se é que há de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem as execuções agora, que não é justo vos contente antes o que vos há de pesar em algum tempo."  (Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, in Sermões, tomo III, edição de 1683, Lisboa.)

Este sermão é uma obra prima, única no seu gênero; impossível não sentir a grandeza, a audácia e a eloquência de Padre Antônio Vieira. ®Sérgio.

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Se você encontrar omissões e/ou erros (inclusive de português), relate-me.

Agradeço a leitura do texto e, antecipadamente, qualquer comentário.  Volte Sempre!

Ricardo Sérgio
Enviado por Ricardo Sérgio em 01/05/2006
Reeditado em 28/03/2011
Código do texto: T148494
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Sobre o autor
Ricardo Sérgio
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 69 anos
1281 textos (21199742 leituras)
7 e-livros (8550 leituras)
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Ricardo Sérgio