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Significado é categoria imanente à vida, presente em toda manifestação de vida ou memória de corpo “na medida em que [...] expressa algo e como expressão assinala para algo que pertence à vida” (DILTHEY, 1986, p.230,277).
           

O significado traduz a "relação das partes da vida com o todo, relação que se funda no ser mesmo da vida [...] Trata-se de uma relação que nunca se completa de todo. [...] é o modo peculiar de relação que, no seio da vida, guarda suas partes com o todo. [...] A essência das relações de significado reside nas circunstâncias que, no curso do tempo [historicidade e curso da vida], encerra a configuração de uma trajetória vital sobre a base da estrutura da vida e debaixo das condições do meio." (DILTHEY, 1986, p.266, 267)
 
Significado é correlato às categorias históricas de sentido, significação, fim, valor – interconexas, mas irredutíveis umas às outras.

A imanência das categorias hermenêuticas às atividades humanas, à vida ou mundo históricos não é algo aplicável “a priori como algo alheio a ela, mas que reside no ser mesmo da vida. [... O] sentido da vida resulta do significado (DILTHEY, 1986, p.225, 228).”

Na linguagem posterior a Dilthey de Ortega y Gasset, a história, a vida e o seu significado é sempre um gerúndio.

A relação significado e sentido estabelece-se no curso da vida, numa articulação circular de desenvolvimento: “as partes [são determinadas em sua significação pelo todo e [...] este, por sua vez, se determina cada vez mais em seu sentido à medida que se vai fixando o significado das partes” (ÍMAZ, 1978, p.22).  
  
Para Dilthey, o significado é a categoria central da vida pelo qual ela torna-se compreensível e da qual dependem todas as demais. 

Apreende-se o significado em relação às trajetórias de vida passadas e, por isso, somente pela recordação pode ser captado. Essa recordação é revivência porque re-apresenta a vivência passada.

 Na categoria significado apreende-se a conexão passado-futuro, existência individual existência coletiva, nas suas relações nunca totalmente completadas. Não se pode, pois, compreender o significado de vivências presentes, imediatas, exatamente porque é necessário o “fim da história” para apreender o todo das trajetórias em seus momentos diversos. Conseqüentemente, o trabalho de compreensão da categoria significado parece ser sempre historiográfico.

Cada momento é uma parte do todo que será aquele fim da história: não se pode saber o significado do momento sem o todo dos momentos nem o significado da totalidade sem a efetividade de todos os momentos.
Pode-se determinar um fim (futuro), mas não se pode determinar um significado (passado) presente, ainda que se possa fazer conjecturas de um significado provável diante de um fim estabelecido. E isto porque o significado vai se fixando pela significação dos momentos interconexos que, por sua vez, determinam os sentidos em direção ao fim.

Em suma, o significado é a configuração última de uma trajetória de vida, compreendido apenas num movimento de reflexio: esta é a suprema diferença entre a Hermenêutica Histórica e a Filosofia Histórica de Guillermo Dilthey diante da Fenomenologia.

Para o terapeuta do corpo e do cuidado, apreender o significado de trajetórias e memórias de corpo, determinadas no objetivo de uma pesquisa ou no processo de cuidar, será descobrir modos de relação, processos e forças relacionais naquelas trajetórias, descobrir modos de criação, processos e forças criativas no cuidar de si, do corpo, dos outros, da vida e da morte, presentes e distintivos nas trajetórias das pessoas e comunidades de pessoas. Nessas descobertas e criações, apreender as artes e os saberes de corpo e do cuidar determinantes e característicos será apreender motivos, metas, propósitos, interesses, desejos, valores, caminhos e direções formados e desenvolvidos para expressão daquelas artes e saberes.
 
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
DILTHEY, Wilhelm Guillermo. Crítica de la razón histórica. Barcelona: Península. 1986.
ÍMAZ, Eugenio. El pensamiento de Dilthey. 1. Reimpressão. México: Fondo de Cultura Econômica. 1979.
 
 
 
 
Carlos Fernandes
Enviado por Carlos Fernandes em 22/03/2009
Código do texto: T1499783
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Carlos Fernandes
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