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ENSINANDO GEGRAFIA COM POESIA, APRENDENDO POESIA PELA GEOGRAFIA: UMA PEQUENA DISCUSSÃO SOBRE O USO DA POESIA NAS AULAS DE GEOGRAFIA

RESUMO
O presente trabalho representa uma tentativa de aproximar o texto poético com a ciência geográfica. Para tal, o uso de poemas na análise e interpretação de fatos, processos, objetos e conceitos da Geografia constituem-se uma proposta. Inúmeros poemas podem ser observados sob a ótica dessa ciência, seja por seu conteúdo explicitamente geográfico que pode incluir descrições de paisagens e regiões, por exemplo, seja pela análise crítica que fazem da sociedade (espacialmente organizada). Ainda que de modo subjetivo em muitos casos, textos poéticos servem também como veículo de reflexão conceitual e teórica de objetos e categorias da Geografia. Nesse sentido ao fazer uso de poemas em estudos, produção de textos e mesmo em sala de aula, o profissional da Geografia deve ir além do caráter meramente ilustrativo do mesmo. Obviamente, um trecho de poema tem seu valor estético, sua beleza que parece ser uma das razões maiores de sua apreciação, entretanto a riqueza do texto poético pode fornecer uma discussão ampla (ou ser ponto de partida para isso) sobre várias temáticas geográficas.
 Palavras-chave: práticas educativas, poesia, ensino de geografia; geografia e poesia

INTRODUÇÃO
A idéia de aproximação entre poesia e Geografia representa um desafio, o de encontrar nos textos poéticos elementos que contribuam ao estudo geográfico em suas inúmeras vertentes de investigação e análise, bem como à reflexão teórica da própria ciência, seus objetos, objetivos e categorias analíticas. Citando Dardel (1952), Haesbaert (2002, p. 143) procura traçar essa via de comunicação entre a linguagem da Geografia e do geógrafo e a linguagem poética.
Por estar intimamente ligada a uma manifestação interior e até mesmo simbólica do ser humano, esse tipo de correlação expõe-se a críticas e arrisca até mesmo a ser acusada de irracional (HAESBAERT, 2002, p.143).
Ao buscar o uso da sensibilidade poética nas práticas da Geografia (e mesmo no ensino da Geografia), objetos, categorias e conceitos geográficos podem ser encontrados em poemas e textos poéticos. Do ponto de vista histórico da construção e re-construção do espaço (e dos espaços) geográfico, a evolução do pensamento geográfico e da sociedade (que por outro lado pode ser entendida como totalidade espacial) encontra na produção literária poética  uma enorme quantidade de obras que traduzem épocas, definem lugares, criticam e denunciam, enfim, tem expressão geográfica que na maioria das vezes não é percebida.
Trechos de poemas podem enriquecer estudos geográficos, não apenas no sentido meramente ilustrativo, mas como fonte de interpretações. Esse tipo de perspectiva é em muito trabalhada na área da geografia cultural que abrange análises dos objetos do cotidiano, representação da natureza na arte e em filmes até o estudo do significado das paisagens e a construção social de identidades baseadas em lugares (MCDOWELL, 1996, p. 159).
Muitas obras buscam na literatura elementos analíticos do espaço geográfico. Por exemplo, em Grossmann et all. (1993) o espaço regional recebe leituras em Jorge Amado, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, José Lins do Rego e outros. Entretanto a discussão aqui propõe um tipo específico de literatura, a poesia, como objeto de análise. Do mesmo modo que o romance fornece material riquíssimo pra leituras do espaço geográfico, interpretações de paisagens, discussões regionais, territoriais, geopolíticas, etc, a poesia permite o mesmo, porém de modo mais flexível, objetivo e pontual em muitos casos.

1– SOBRE O CONCEITO DE POESIA
Por mais que possa parecer simples, conceituar poesia se torna difícil quando são observadas inúmeras visões a respeito.
Lyra (1986, p.5-6) apresenta uma série de definições/conceituações formuladas por poetas e críticos ao longo da História, dentre as quais estão as seguintes: “mensagem voltada para a mensagem” (Roman Jakobson); 5) “palavra-coisa”(Jean Paul Sartre); “Design da linguagem” (Décio Pignatari); “vivência e paixão” (Vigny); “uma viagem ao desconhecido” (Maiakovski); “a liberdade de minha linguagem” (Paulo Leminski).“a falha do infalível” (Goethe),“as melhores palavras na melhor ordem” (Colerdge), “fundação do ser mediante a palavra” (Heidegger); “palavras olhando apenas para si mesmas” (Cecília Meireles).
A poesia é ora situada em de modo problemático em dois grupos conceituais: ora como uma pura e complexa substância imaterial, anterior ao poeta e independente  do poema e da linguagem, e que apenas se concretiza em palavras como conteúdo do poema, mediante a atividade humana; ora como a condição dessa indefinida  e absorvente atividade humana, o estado em que o indivíduo se coloca na tentativa de captação, apreensão e resgate dessa substância no espaço abstrato das palavras. (LYRA, 1998, p. 6-7).
Na poesia o poeta faz uso de dos atributos do ser, manifestados concretamente no texto. Assim questões temporais (duração, novidade ou antiguidade), de magnitude (grandeza ou pequeneza), e de aparência (beleza ou feiúra) aparecendo como aspectos positivos ou negativos, são abordagens dentro da poesia (LyYRA, 1998, p. 11).
Poesia também é História. A natureza histórica de um poema mostra-se imediatamente  pelo fator de ser um texto que alguém escreve e alguém lê, num processo que não deixa de ser também uma forma de comunicação. O texto poético é inseparável do momento histórico em que foi escrito. Ler um texto poético é ressuscitá-lo, reproduzi-lo e abrindo o poema para o presente. (PAZ, 1984, p. 202-204).

1.1- Poesia e Arte
Quando se quer situar a poesia como uma manifestação artística, faz-se necessário caracterizar a própria arte. De modo semelhante ao conceito de poesia, definir arte também não é tarefa fácil. A origem do termo vem do latim “ars” que significa talento, saber fazer e antigamente era associada à técnica, aquilo feito pelo homem, um artifício, uma criação, que no mundo moderno deixou de ser “técnica”, ou seja, arte e técnica se separaram (HAESBAERT, 2002, p. 146).
Certas formas muito antigas de desenho anunciam a escrita (pictogramas, hieróglifos e ideogramas egípcios e chineses), entretanto “...o desenho figurativo e sua expressão plástica no baixo-relevo e a escultura são os únicos capazes de exprimir uma mensagem compreendida por todos. Os desenhistas e os escultores  chegam a apreender e a fixar a corrida desordenada dos animais selvagens sobre as paredes da gruta, ou a fazer aparecer a sua transcedência. Os arquitetos e todos aqueles que decoram os palácios e os templos, que elevam as estátuas e ornam as muralhas de afrescos ou de baixos-relevos  historiados, provocam as massas analfabetas maravilhadas emoção e respeito pelas potências divinas e terrestres”. (CLAVAL, 1999, p.72-73).
Ainda que a poesia seja reconhecida como manifestação artística, historicamente, a mesma tem se diferenciado dos outros tipos de arte e isso ocorre desde a Antiguidade.

Existe uma coisa que dificilmente se altera, pelo menos de modo perceptível, do começo ao fim da época greco-romana: é o ponto de vista a partir do qual o artista plástico ou gráfico é julgado e avaliado em relação ao poeta. Este último desfruta, por vezes, uma estima bastante peculiar como vidente e profeta, outorgado da fama e intérprete dos mitos; o artista plástico ou gráfico é e continua sendo um artesão que, com seu salário, obtém tudo o que tem direito. (HAUSER, 1998, p. 114).

Tal fato se explica por três razões: em primeiro lugar o pintor ou o escultor trabalha por remuneração e não oculta esse fato de ninguém, ao passo que o poeta é olhado como um hóspede e amigo de seu mecenas; a segunda razão é que o pintor e o escultor trabalham com ferramentas e materiais que sujam , enquanto o poeta está sempre com as mãos limpas. Em terceiro lugar, enquanto o pintor e o escultor é obrigado a trabalhar com esforço físico e em tarefas exaustivas, o labor do poeta não óbvio à vista.“Essa arte (POESIA) se constitui em produto individual  - no ato de fazer – e reflete todas as angústias, condicionamentos, anseios, ilusões, do sujeito em suas relações com o mundo exterior – sensível realidade.” Pereira (1995, p. 20).
Como um artista, o poeta faz uso da criatividade e na combinação de palavras expõe sua interpretação do mundo, a partir de múltiplas visões. A poesia oferece, assim, como a Geografia uma infinidade de enfoques que acompanham as correntes literárias.

2- GEOGRAFIA E POESIA
Do ponto de vista histórico-evolutivo, o pensamento literário e científico teve um estreito vínculo com pensamentos dominantes na sociedade. Transformações técnicas, movimentos sociais, revoluções, etc, são acompanhadas pela manifestação escrita de idéias, pensamentos conflituosos, posições.
No século XIX, quando a geografia surge como ciência sistematizada, moderna, nos moldes positivistas da época, transformações no mundo também atingiram a produção poética. Foi o período de decadência do romantismo, onde emergiu um pensamento direcionado à objetividade. A filosofia positivista de Comte influenciou um movimento de renovação cultural na literatura, nesse sentido que a metodologia científica passou a substituir o espiritualismo romântico, surgindo assim o realismo na poesia (ABDALA JÚNIOR, 1985, p.6). É necessário recordar que nessa mesma época o Darwinismo que aqui se mostra alcançando sua vertente poética no Parnasianismo, representava uma das sustentações científicas da corrente Determinista na Geografia (sobretudo alemã) cujo maior expoente era Ratzel.
Anteriormente a esse período, escolas literárias envolvidas com o pensamento religioso (Barroco) ou com um bucolismo exaltado na vida simples do campo (Arcadismo) retratam as sociedades (ou como se quer colocar: o espaço geográfico) da época. Movimentos de contestação ao status quo social também são encontrados entre poetas. No Brasil muitos dos inconfidentes de Minas Gerais, por exemplo, eram poetas árcades. Romantismo, parnasianismo, simbolismo e, mais tarde, o modernismo e o concretismo, traduzem uma evolução da sociedade que percorre a literatura (no caso a poesia) num caminho tortuoso. Transformações sociais, pressões econômicas e ideológicas acabam por delinear fases da produção literária poética que acompanha as modificações materiais no território, bem como as relações conceituais e teóricas envolvidas.
O espaço (geográfico), conceito fundamental da Geografia, na sua multidimensionalidade (CORRÊA, 2003, p. 44) abre-se também para a metáfora e para o valor simbólico (que pode até conter subjetividade, mas nem por isso perde a validade), presentes na poesia. Não se trata de uma simplificação do significado real do conceito e das relações espaciais, mas uma via do “espaço” poeticamente tratado ainda que parcialmente e sem preocupações de cunho analítico e científico. A poesia pode “refletir” esse espaço como um espelho que permite um olhar diferente da complexidade do real.

2.1 – Categorias e objetos geográficos nos textos poéticos
Paisagens, regiões e lugares freqüentemente são utilizados em poemas. Essas categorias podem ser vistas como parte da inspiração que move o poeta a construir e materializar idéias e sensações. Sentimentos regionalistas são manifestados, expressões que até mesmo se confundem com um “bairrismo” (por exemplo, Mário de Andrade em “Paulicéia Desvairada”).
Um poema em si não tem lugar específico, a combinação de palavras é universal e flui não de fixa, além obviamente da imaginação do leitor, essa seria a visão de “anti-lugar da poesia” (PEREIRA, 1995, p.66), no qual o poeta conhece o real e projeta no texto sua versão de lugar por muitas vezes “irreal” materialmente falando. Isso traz à mente um conceito recentemente discutido na Geografia: o “não-lugar”, que seria o resultado de uma dinâmica de um espaço geográfico organizado pelas redes, que “desenraizam”, eliminando territórios e identidades. Por outro lado, o lugar encontra-se na poesia, como representante da resistência do local, do regional, simbolizando também as expressões culturais populares (HAESBAERT, 2002).
A identidade do indivíduo é buscada e encontrada na poesia. Carlos Drumond de Andrade é marcado pelo seu sentimento regional em relação à pequena Itabira (LINHARES, 1976, p. 165). O conceito de lugar sob uma visão psicológica bem próxima àquela da corrente de pensamento humanística na Geografia é encontrada nesse trecho de Testamento de Manuel Bandeira:

“Vi terras de minha terra.
Por outras terras andei
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado
Foram as terras que inventei”

O conhecido poema do romântico Gonçalves Dias, Canção do Exílio, carregado de um certo sentimento considerado, por muitos, ufanista em relação à pátria, teve outras versões como a de Murilo Mendes, do período modernista. O contraste entre os dois poemas é explicitado no tratamento crítico-social de Mendes. No século XX, primeiro os modernistas, e na seqüência os poetas denominados concretistas e de vanguarda assumem postura contrária à ordem vigente e ideologias dominantes (MENDONÇA, 1970, p.vii).
O poema a seguir, de Cassiano Ricardo tem uma proposição interessante:
Que é poesia?
uma ilha
  cercada
     de palavras
               por todos
      os lados
Que é Poeta?
um homem
que trabalha o seu poema
com o suor de seu rosto
Um homem
        Que tem fome
como qualquer outro
homem

Mendonça (1970, p. 11) traça o repertório contido nessa poesia de Cassiano Ricardo, onde esse realiza (...) “a atualização, em termos poéticos, de uma definição das aulas de geografia, que serve na qualidade de matéria-prima de elemento atualizado de linguagem didática, em torno do qual se opera um símile. Nesta se transfere, por comparação analógica, o significado da terra, na definição da aula de geografia, para o de ilha.” Com o uso de uma linguagem didática o poema indica uma espacialização da própria palavra além do elemento crítico embutido no contexto do mesmo.

3- O POETA COMO CRÍTICO SOCIAL E “GEÓGRAFO” A SEU MODO
O poeta é portador de uma capacidade crítica singular, compartilhada de igual modo com os artistas de modo geral. Um indivíduo que observa o mundo sem compromissos com o mesmo. A crítica da poesia pode ser bem mais desprendida de interesses que a de teóricos convencionais. Isto significa que a mesma não está atrelada ao tratamento fundamentado no olhar cientificista e acadêmico e nem envolve posições acerca da realidade estudada pelo teórico e pela própria ciência. Mas a ciência (no caso, a geográfica) encontra nessa crítica poética enormes vias de interpretações e análises da mesma realidade.
A interferência (consciente) do artista no campo social é levantada por Pereira (1995, p.25) por meio de um poema.
A INTERFERÊNCIA CONSCIENTE DO ARTISTA NO SOCIAL
De qualquer jeito: o exposto não chega a ser colapso total.
Afinal já passamos do verborragismo nacionalista; do colorido pelo colorido da adjetivação inócua.
Os tempos mudaram. Dinâmica nathural das coisas.
Agora o que vale é a interferência consciente do artista no social. Não me refiro a engajamento fajuto. Movimentar para melhor. Clarear os caminhos. TEM BRASIL QUE SÓ EXISTE EM FIGURA DE CALENDÁRIO. Defender o pão. FIO DE LUZ NA ESCURIDÃO DO LATIFÚNDIO. CLARO. CLARÃO. CLARITATIS.
O ranço acadêmico – que sempre disfarçou nosso real social – como uma imagem (espírito que não vingou) esmaece pouco a pouco, ocupando seu devido lugar: o esquecimento.
(PEREIRA, P. 25)

O autor invoca a mobilização do poeta, enquanto artista, para transformação de um Brasil ilusório que tenta omitir as feridas abertas na sociedade real e cruel. A injustiça até mesmo transparece e se reproduz num meio acadêmico muitas vezes preso a discussões sem compromisso.

“Pé de pato
Pé de milho
Pé de gafanhoto
O Brasil pisado
Ao contrário
Quem nos diz isto:
É a seta da contramão”

 (PEREIRA, p. 67)

Um grande poeta brasileiro, João Cabral de Melo Neto, em várias de suas obras faz sua leitura da paisagem geográfica nordestina com uma exemplar riqueza de detalhes.
O vento no canavial

É anônimo o canavial
Sem feições como a campina
É como o mar se navios
Papel em branco de escrita

É como um grande lençol
Sem dobras e sem bainha
Penugem de moça do sol
Roupa lavada e estendida

João Cabral de Melo Neto

Em “Imagens de Castela”, o poeta oscila entre a paisagem da Espanha e os canaviais do Nordeste: “A sobreposição geográfica de duas regiões não se opera  medindo-se uma e outra pela escala comum de suas identidades físicas ou ecológicas. É a visão da idêntica existência severa ou Severina que lhes molda a topologia num só mapa, com os mesmos relevos e acidentes, sejam estes  rios ou cidades , deserto ou vegetação” (NUNES, 1971, p. 94).
O mesmo João Cabral de Melo Neto é capaz de descrever a paisagem nordestina de tal modo a oferecer ao geógrafo e ao professor de Geografia esse filão poético que traduz o espaço, o território e a região em versos.“A descrição da cidade nordestina, em região turística do Recife” avança por etapas, cada uma das quais representa secção de um tema desenvolvido em movimento espiralado, do mar passamos à luz do Recife, dos velhos sobrados da cidade ao equilíbrio de sua arquitetura, desta o rio indigente, mais uma vez, à humanidade estagnada do Capibaribe”(NUNES, 1971, p. 94). João Cabral trabalhava a poema com um intencional conteúdo que demonstra a tomada de consciência da realidade brasileira, não só física como social (LINHARES, 1976, p.11). Essa realidade se confunde com a realidade do espaço geográfico estudado pela Geografia. Os mesmos objetos, temáticas elementos da paisagem são trabalhados numa visão poética.
Manuel Bandeira também deixou poemas extremamente críticos quanto às injustiças sociais, o poeta como ser humano sensível não escapa e não se cala ao sofrimento visível e explícito na paisagem.

O bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa
Não examinava nem cheirava
Engolia com voracidade

O bicho não era um cão
O bicho não era um gato
O bicho não era um rato

O bicho, meu Deus, era um homem.
MANUEL BANDEIRA

Ao contrário do pensamento acadêmico-científico que, muitas vezes sofre influências mercadológicas, em função da própria atuação do cientista e pesquisador enquanto profissional, a poesia está livre dos ditames da produção e do consumo. É imune ao conjunto de obras humanas que envolvem o jogo e os conflitos e valores determinados pelo valor trabalho-mercado. Essa é a razão para compreender a poesia como uma crítica autêntica, ainda que brote da paixão e da imaginação.

"A poesia tem um caráter duplamente 'revolucionário': primeiro porque vai contra o mundo-mercadoria que cada vez mais domina a face do planeta, e seu caráter lúdico torna-se transgressor: ela não pertence á lógica e ao mundo da compra e venda. A poesia é gratuita, “não tem finalidade”, sua utilidade é sua in-utilidade: mostrar ao mundo da produção e do consumo sua contra-face, oculta, sufocada – o mundo da imaginação e da sensibilidade, “incontrolável” mundo dos sentidos do qual a razão nunca vai tomar posse." (HAESBAERT, 2002, p. 47).

As reações ao positivismo e ao pragmatismo presentes na geografia (pensamento tradicional e também pragmático da chamada Nova Geografia) representadas pelas correntes críticas (marxista e humanista), encontram muitos sua idéias reproduzidas pela vertente poética. Isso se deve não apenas às influências filosóficas que aí podem estar sendo compartilhadas, mas também ao sentimento libertário ou contestatório de ambos. Da mesma forma os novos paradigmas que estão surgindo na ciência geográfica certamente serão possuidores de uma face poética.
Tendências filosóficas assumidas ou refletidas por poetas na suas obras, como Antero de Quintal (MOISÉS, 2002, p. 132-141), podem ser análogas a momentos do pensamento geográfico. Por outro lado, o espaço, territórios, paisagens, regiões e lugares, encontram-se retratados em versos. Em “Canto Geral”. Temos Pablo Neruda fazendo uma interpretação, pelo viés poético, da América Latina, que chega a impressionar pelos detalhes. Fatos históricos, recursos naturais, governos, economia, etc, são alvo do autor, que transforma-se em historiador, filósofo, geógrafo ou ambientalista:

Amazonas
Capital das sílabas da água,
Pai patriarca, és
A eternidade secreta
Das fecundações,
Te caem os rios como aves, te cobrem
Os pistilos cor de incêndio,
Os grandes troncos mortos te povoam de perfume,
A lua não pode vigiar-te ou medir-te
Pablo Neruda (Canto Geral)

Eis o sentido da poesia na Geografia: provocar a discussão, o debate. Abrir a nossa ciência ao diálogo com a literatura poética. Instigar a mesma paixão, a emoção do poema, ao estudo geográfico. A poesia é ponto de partida, por possibilitar ao estudioso da Geografia, uma infinidade de temas a serem rediscutidos. As diversidades de abordagens da realidade encontram na poesia terreno fértil para difundirem-se, além do meio acadêmico. A poesia oferece à Geografia um alcance maior do mundo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em se tratando de uma discussão nova dentro da Geografia, torna-se necessário enfatizar novamente o caráter de proposta na discussão da aproximação entre a poesia e a Geografia. Muitos trabalhos podem surgir a respeito, sendo que cada qual adotará sua forma de aproximação. A linguagem poética e a geográfica encontram pontos comuns que merecem ser explorados.
No aspecto prático dessa discussão, poemas têm sido comumente usados em salas de aula, como epígrafes de trabalhos e textos geográficos diversos, bem como são apreciados por geógrafos e profissionais da área. O desafio é que esse uso ultrapasse a esfera estética e ilustrativa da poesia. Sendo assim, a proposta não está em demonstrar um ou outro poema enquanto objeto de análise para fatos ou realidades específicas no âmbito geográfico, mas demonstrar que a poesia representa para Geografia um caminho a ser explorado.
Não é apenas a Geografia Cultural, como comumente é trabalhada a Literatura e a Arte na Geografia, mas todas as áreas (humana, física, ambiental, econômica, regional, agrária, epistemologia, etc) podem fazer uso da interlocução poética. A Ciência Geográfica é em si, um campo rico para o próprio poeta que se inspira na vida, na natureza, na humanidade, na beleza ou na tristeza do real geográfico, seja como contemplador, seja como crítico, seja descrevendo, seja analisando. Geografia é também Poesia. As múltiplas faces do espaço e da linguagem, e a enorme quantidade de olhares sobre o mundo equiparam essas duas formas de interpretações da realidade.
Sensibilizar o indivíduo por meio de um poema pode representar uma porta para se conhecer e construir o respeito ao próximo e à natureza. Nérici (1985, p. 33-47) faz uso de poemas como pontos de partida e de encontro á realização da educação. É interessante que não apenas a Geografia ofereça essa possibilidade de leitura, mas todas as áreas do conhecimento.

REFERÊNCIAS
ABDALA Júnior, Benjamin. (org.). Antologia de poesia brasileira: realismo e parnasianismo. São Paulo: Ática, 1985.
BANDEIRA, Manuel. Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro: Edições Ouro,1966.
CORRÊA, Roberto L. Espaço: um conceito chave da geografia. In: CASTRO, Iná E.; GOMES, Paulo C. C.; CORRÊA, Roberto L. (orgs.). Geografia: conceitos e temas. 5ªed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
CLAVAL, Paul. A geografia cultural. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1999.
GROSSMANN, Judith ett. all. O espaço geográfico no romance brasileiro. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.
HAESBAERT, Rogério. Território, poesia e identidade. In: HAESBAERT, Rogério. Territórios alternativos. São Paulo: Contexto, 2002, p. 143-158.
HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
LINHARES, Temístocles. Diálogos sobre a poesia brasileira. Brasília: Melhoramentos-INL, 1976.
LYRA, Pedro. Conceito de poesia. São Paulo: Ática, 1986.
MACDOWELL, Linda. A transformação da geografia cultural. In: SMITH, G.; GREGORY, D.; MARTIN, R. (orgs.). Geografia humana: sociedade, espaço e ciência social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p. 159-188.
MENDONÇA, Antonio S. Poesia de vanguarda no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1970.
MOISÉS, Massaud. A literatura como denúncia. Cotia: Íbis, 2002.
NERICI, Imídeo G. Educação e ensino. São Paulo: Ibrasa, 1985.
NERUDA, Pablo. Canto geral. 8ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1987.
NUNES, Benedito. Poetas modernos do Brasil: João Cabral de Melo Neto. Petrópolis, Vozes, 1971.
PAZ, Octávio. Os filhos do barro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
PEREIRA, Jairo B. O anti-lugar da poesia: manifesto poético. Quedas do Iguaçu: Gráfica Constantini, 1995.
Sergio Fajardo
Enviado por Sergio Fajardo em 31/03/2009
Reeditado em 24/04/2009
Código do texto: T1514721

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