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Não estou no seu encalço
Por Pamela Cristina Leme


Ataques gratuitos de humilhação ao próximo, ironia e hostilidade são atitudes típicas de quem pensa que tudo pode. Tais pessoas •têm “complexas de superioridade" e, no fundo, sofrem de extrema insegurança.

Tem gente que se sente o próprio Deus. Acredita que é mais importante que os outros, por saber mais ou gozar de determinado prestígio.

São mais bonitas, mais inteligentes, mais espertas, mais poderosas e, graças a isso, se sentem no direito de humilhar aqueles que estão a sua volta, bem como auto-afirmar a própria magnitude com comentários e ações absolutamente arrogantes.

No fundo, essas pessoas se sentem intensamente inferiores às demais. Elas sofrem do chamado "complexo de superioridade", um mecanismo de defesa de caráter compensatório característico de quem não consegue encarar as próprias limitações e potencialidades.

Quem não conhece alguém assim? Especialmente em ambientes de trabalho, é muito comum chefes ou patrões se acharem os tais, pelo simples fato de serem...

"Os superiores". Eles mostram as garras a toda hora pelo fato de estar num suposto "andar superior" - O que, para começo de conversa, é uma tremenda falta de educação.

Apesar de tudo, o tal complexo não chega a ser uma patologia em si. Ele é, antes de tudo, um sinal de que o indivíduo não consegue conviver harmoniosamente com sua própria personalidade e estilo de vida.

A psicóloga Mariuza Pregnolato conta que, em geral, quem sofre com esse problema tem forte sentimento de insegurança e medo de rejeição, além de apresentar auto-estima bem reduzida. E é daí que vem a necessidade de mostrar ao mundo uma "persona" que é superior aos demais.

"Embora algumas pessoas portadoras desse distúrbio também apresentem outros transtornos, isso não é uma regra, de modo que o “complexo de superioridade” pode, muitas vezes, aparecer em seu estado puro, isto é, não associado a nenhum outro quadro", ressalta a médica.

O psiquiatra e coordenador do Ambulatório de Transtornos da Personalidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), Dr. Erlei Sassi Júnior, ressalta que não podemos esquecer que se sentir "o bom" mesmo sem o ser pode significar um distúrbio chamado "delírio de grandeza", "manifestação que não se aplica a perversão neurótica do ´complexo de superioridade´, que é resultado de um forte sentimento de inferioridade e uma falta de interesse social".

Hedonistas fatigados Segundo os médicos, não há um comportamento padrão nem classe social que represente os portadores do "complexo de superioridade", e tanto homens quanto mulheres estão suscetíveis a ele. Em alguns casos, essas pessoas apresentam comportamento agressivo e prepotente, em que há visível depreciação do interlocutor.

Mas nem sempre é assim. "Às vezes a presença desse transtorno pode ser muito sutil e difícil de ser identificada.

Por exemplo, há pessoas que se dedicam a ajudar o próximo, exercendo atividades voluntárias, sendo zelosas em relação ao bem-estar da comunidade e tratando a todos com extrema doçura enquanto abrigam, dentro de si, a crença de que são melhores, mais nobres e altruístas do que os demais". Sinaliza a psicóloga.

De acordo com ela, são nos momentos de extrema tensão ou ansiedade em que se percebe a presença desse sentimento em indivíduos aparentemente dóceis e pacíficos. "Numa situação assim, essas pessoas deixam cair a “máscara” e cobram por suas boas ações, supervalorizando seu trabalho e depreciando o comportamento alheio", aponta.

O diagnóstico preciso para analisar esses serem dignos de tamanha nobreza está nas situações de conflito em que eles se encontram. Nesses momentos é que se vê a capacidade dessas pessoas para respeitar as diferenças do outro e reconhecer que não podem ser o melhores em tudo.

Afinal, só alguém muito bem estruturado psiquicamente é capaz de viver com suas características de personalidade e validar as dos demais, sejam elas quais forem. Além disso, esses sujeitos sempre estarão aptos a retrucar a menor crítica e ou intervir qualquer tipo de rejeição que recebam.

"No exato momento em que se sentem ameaçadas pelo outro, é ativado o mecanismo de defesa que eles têm pronto dentro de si e que é diferente para cada pessoa: pode ser uma agressão verbal ou física, uma ironia, um olhar de indiferença, desprezo ou de superioridade, ou mesmo uma atitude impassível - e neste caso o diálogo é unicamente interno, como a formulação de uma ladainha", adverte Dra. Mariuza.

Está falando comigo?O prazer está nas pequenas coisas? Não para os "complexados" em questão, que sequer conseguem perceber ou assumir que sofrem de um transtorno psíquico. "A capacidade de se “ver doente” não acontece com todos que têm esse problema.

Dizemos que a autocrítica, neste caso, fica comprometida. Em algumas situações, os familiares e pessoas que vivem próximas a quem tem esse problema acabam apontando para as dificuldades que tal comportamento causa naqueles que a cercam", garante Dr. Erlei.

Quando frustrados ou ameaçados esses indivíduos culpam o mundo ou os outros pelo que estão vivendo e sentem-se injustamente incompreendidos pelos demais, o que significa que não admitem a inferioridade de entendimento dos outros acerca de suas qualidades.

"Algumas pessoas chegam a se convencer de que são mesmo superiores e não portadoras de um distúrbio de avaliação", afirma a Doutora Mariuza.

"Lidar com isso é um processo sofrido, porque é preciso olhar para o que está realmente instalado lá no seu inconsciente, que é o contrário do que você aparenta, isto é, um insuportável sentimento de inferioridade e inadequação", completa.

Os médicos sugerem que a psicoterapia é a melhor maneira para resgatar a humildade perdida. E por mais simples que possa parecer, aprender a gostar de si mesmo é o passo mais importante para deixar a onipotência de lado.

"Aquele que ama e respeita a si mesmo não sente necessidade de cobrar nada de ninguém", resume a psicóloga. A cura está em deixar para o Todo Poderoso o trabalho de controlar a vida dos outros.
Pamela Cristina Leme
Enviado por SBernardelli em 14/05/2006
Reeditado em 13/05/2015
Código do texto: T156229
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
SBernardelli
Caraguatatuba - São Paulo - Brasil
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