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MARGINAL NÃO É BANDIDO 


     Moro no Estado do Rio de Janeiro, para muitos, capital nacional da violência. Assisto, sem estarrecimento, à galopante tomada de poder pelos chamados bandidos. Não me surpreende. 

     Preciso voltar ao tempo em que quem transgredia era chamado de marginal. Pois é, marginal é quem está à margem. À margem de quê? Da sociedade legal e academicamente reconhecida. À margem dos bens de consumo desfrutados pelos incluídos. À margem da possibilidade de acesso às condições mínimas de vida: habitação, saneamento básico, alimentação, emprego, transporte, educação, lazer, e outros “luxos” mais. Marginal, na essência, é o excluído. 

     Partindo desse conceito, proponho uma reflexão: Será que esses excluídos buscaram essa situação? Será que optaram por não ter acesso aos bens desfrutados pelos incluídos? Será que todos acreditávamos, de verdade, que essa desigualdade social se perpetraria sem nenhum ônus para os incluídos? 

     Nunca morei no morro. Nunca fui oprimida pelo caveirão. Nunca passei fome. Sempre tive acesso à educação, dinheiro pra pagar a passagem e comprar a merenda na hora do recreio. Pago plano de saúde particular. Moro em casa própria e tenho até carro. Nunca fiquei desempregada. Viajo nas férias, nem que seja pra bem pertinho. Sou incluída. 

     Não vou juntar minha voz ao coro dos que, do alto de seu academicismo, de dentro de sua inclusão, tecem mil e uma teses para jogar a culpa no partido político, no presidente da república, no secretário de segurança ou no policial. Acho que é mais uma tentativa de tirar o corpo fora... 

     Não discuto culpas. Divido responsabilidades. Estamos sentados num barril de pólvora. 

     Fomos, ao longo do tempo, construindo esse modelo de desigualdade social. Permitimos que o fosso entre os incluídos e os excluídos aumentasse cada vez mais. Colaboramos, por ação ou omissão, com a exclusão. 

     Não estou defendendo Marcola, ou outros que tais... Até porque penso que esses não compartilham as misérias dos excluídos, nem estão preocupados com elas. Se estivessem, não iriam usar o poder bandido que amealharam pra negociar televisões pra assistir aos jogos da Copa. O buraco seria muito mais embaixo... 

     Os chefões que aparecem na mídia e comandam todo esse estrago pertencem à burguesia bandida. Bandida, não marginal. Mas, de dentro das cadeias, com todas as benesses compradas por seu dinheiro bandido, esses homens comandam uma massa de excluídos que vêem na bandidagem a única forma de ingressar no paraíso... 

     E nós, com nossos títulos de mestres e doutores, até quando vamos olhar pro lado e fingir que não estamos vendo nem colaborando, direta ou indiretamente, com o aprofundamento da miséria em que vivem aqueles a quem são negadas as condições mínimas de sobrevivência?

     Até quando, brother, a gente vai compactuar com a negação da natureza humana dos excluídos? 

     Ah, sim, qual é a solução? De peito aberto, com toda a sinceridade do mundo: acho que não tem. Lembram-se da civilização romana? Pois é...

Rosane Coelho
Enviado por Rosane Coelho em 21/05/2006
Código do texto: T160234
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Sobre a autora
Rosane Coelho
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 62 anos
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Rosane Coelho