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Longe e perto



      Nas palavras de Richard Bach, descobrimos que, embora pareça paradoxal, longe é um lugar que não existe... Veterano da força aérea, seu enfoque sempre aponta para vôos de águias, gaivotas e albatrozes, pervadindo o campo dos sonhos, com o desejo de subir sempre mais alto, ver mais e viver com mais liberdade. Em “Fernão Capelo Gaivota”, ele afirma: “As águias que voam mais alto enxergam melhor”. Esse voar mais alto pode ter diversas interpretações. Vai desde o “aspirar os dons mais altos”, de São Paulo, até o romper barreiras e extrapolar limites, na busca da melhor visão, do horizonte mais distante ou da liberdade mais ansiada.

Quem vai além sempre enxerga mais que aqueles que se limitaram em permanecer aquém. Por exemplo as viagens. Meu pai dizia que é melhor viajar do que cursar universidade. Quando se retorna de uma viagem parece que nossos olhos se abriram, nossa cabeça foi enriquecida por novas visões, e nossas mãos tangenciaram o sonho. Quando expandimos a mente, com imagens, sons, textos ou outras construções, ela nunca mais volta ao tamanho normal, mas fica sempre acessível e desejosa de ver mais, sentir mais...

Pois há dias, agora em março (2006) eu fiz uma pequena grande viagem. Na volta de mais uma estada em Garopaba, SC(neste veraneio ano estive lá duas vezes) eu resolvi rever as termas da Guarda, ali pertinho da BR-101, entrada por Tubarão. Disse rever, pois eu já havia estado lá. Além da excepcional estada em um hotel de luxo e conforto, a viagem serviu para emocionadas reminiscências. Afinal, depois de velho a gente, querendo ou não, sempre vira saudosista.

Na verdade, quando digo que estive lá, no mesmo Hotel Sandrini, há 58 anos atrás, as pessoas me olham com olhares de absoluta incredulidade. Mas é verdade. Estive lá com meus pais (minha mãe adorava águas termais) em 1948, eu tinha 6 anos. A viagem era uma epopéia. Hoje, se houver necessidade, se faz os 280 km de Porto Alegre à Guarda em três horas.

Naquele tempo levava-se dezesseis horas. O ônibus saia às cinco de Porto Alegre e chegava lá, depois de muitos percalços, pelas dez da noite. Como?, perguntarão.. A esse como eu passo a esclarecer. O que antes era longe, hoje se tornou perto. Primeiro, a viagem até de Porto Alegre a Tramandaí era mais ou menos normal, embora em pista estreita e mal conservada.

Depois de Tramandaí começava a guerra. O trecho até Torres era feito pela praia, o ônibus andando pela areia, com todos os sobressaltos inerentes a um percurso desse feitio. Por ali deve haver quase uma centena de ônibus enterrados nas traiçoeiras areias do litoral gaúcho.

Na divisa com Santa Catarina, não existia aquela pontezinha ordinária que tem hoje: era pioir; passava-se de balsa. Imaginem, ônibus, caminhões, carros, numa frágil balsa... Lá pelo meio dia (sete horas depois da partida) chegava-se a Araranguá (que fica a 250 km de Porto Alegre), com parada para o almoço.

Depois seguia a viagem, havia mais duas balsas e serra. Acho que a rota, desviando para a esquerda ia lá perto de São Joaquim, pois se descia uma serra infernal, só pode ser a bela e assustadora “Serra do Rio do Rastro”. A viagem era tão problemática, que na volta, uma passageira do ônibus teve um infarto e morreu. O hotel Sandrini não era o complexo turístico de hoje, com apartamentos notáveis e um espetacular parque aquático. Era um hotel modesto, boa comida, mas com a luz sendo apagada às 22 h.

As opções, além da água termal vertida em banheiras e a compra de cerâmicas, eram poucas. Às vezes a gente pretexta não ir a um lugar dizendo que é longe. Em outras, viaja-se muitos quilômetros, como minha recente ida à Guarda, achando perto, por causa da qualidade da acolhida, da natureza e da memória. Como disse Bach, o longe não existe. O interesse torna o longe perto.


Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 22/05/2006
Código do texto: T160624
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
983 textos (322017 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão