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Culpa velada

O filósofo Inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679) defendeu a tese de que o homem, em seu estado natural, busca de uma maneira egoísta seus interesses e vive numa situação de guerra de todos contra todos. Em sua célebre obra “Leviatã” -palavra que nomeou um monstro bíblico- Hobbes afirma sobre a necessidade do Estado como uma forma de evitar as guerras e garantir a paz. Para tanto, o homem delegaria forças ao Estado em troca da integridade de sua família e de sua propriedade privada (Contrato Social).
Toda a sociedade que estabelece um conjunto de leis para o convívio dos seus indivíduos aos cuidados de uma força maior normativa é uma sociedade baseada no contratualismo. No momento em que um indivíduo age de tal forma em que as regras contratualistas são desrespeitadas, segundo a lógica Hobbiniseana, este indivíduo retoma o seu estado natural latente.
Inúmeros exemplos ilustram este estado natural selvagem do homem, pois diariamente a imprensa mostra um novo rosto de algum excelentíssimo senhor envolvido em caso de corrupção. Atitude abominável esta que denota a busca egoísta do interesse individual.  O estado selvagem do ser também é facilmente perceptível por todos, no Brasil, por exemplo, acontece uma guerra civil velada, onde o Estado não tem força suficiente para garantir a integridade, na totalidade, dos seus indivíduos. Pois na tentativa de garantir tal integridade, agentes de segurança pública mal pagos e mal estruturados morrem com freqüência em um desleal caos urbano. Mesmo o Estado contando com a estrutura do Exército; que tem como missão nacional defender a Pátria, os poderes constitucionais, a lei e cooperar com a defesa civil.
Será infrutífera, todavia, qualquer intervenção nos focos superficiais de violência se não for atacado o mal em sua origem. Michel de Foucault (1926 – 1984), em seu livro “Microfísica do Poder”, destaca que na evolução sanitária das cidades, a tendência das sociedades foi de isolar os seus problemas iminentes. Por exemplo, o fato de os hospícios, presídios, dos portadores de hanseníase, dos pobres, ECT ficarem geograficamente isolados dos grandes centros urbanos. Isto fez com que estes centros se desincumbissem da tarefa de resolver cabalmente os problemas periféricos da cidade. Deixando exclusivamente para estes excluídos e isolados a responsabilidade de sua culpa existencial.
Será inócua, contudo, qualquer atitude que visa resolver os problemas urbanos se não houver uma potencialização  da conscientização do indivíduo que - além de ser o próprio referente ético moral -deve cobrar do Estado a efetivação da garantia do contrato. Efetivação esta que se dá na estruturação eficaz do sistema de saúde, de segurança, de previdência, de educação principalmente, entre outros.
O grande problema é que o Estado, que deveria ser o provedor estrutural da integridade e dignidade do indivíduo, é regido - não na totalidade – por homens selvagens! Homens descumpridores do contrato que tem o interesse pessoal como o principal norteador de sua ação política. Homens selvagens que matam milhares de pessoas quando desviam verbas de hospitais públicos, por exemplo. Homens que fomentam a violência quando esquecem da importância de se investir no sistema educacional. Com isto eles acabam garantindo sua permanência no poder, baseados na desarticulação da conscientização social.
Infelizmente Thomas Hobbes não apontava uma saída para o ser humano. Pois dizia ele: Homi homni lupus. Do latim para o português: O homem é o lobo do próprio homem.
Hermison Frazzon da Cunha
Enviado por Hermison Frazzon da Cunha em 23/05/2006
Reeditado em 18/01/2014
Código do texto: T161293
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Hermison Frazzon da Cunha
São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil, 37 anos
103 textos (27017 leituras)
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Hermison Frazzon da Cunha