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O Poeta e a Cidadania


 
                     
                          Cabe a nós, pessoas que usam o verbo como instrumento de provocar mudanças, falar, escrever, denunciar.O pior é que a voz do poeta, sempre a vaticinar(leia-se :POETA=VATE=TROVADOR=BARDO=POETA),denunciar e intuir nem sempre é ouvida.E suas entrelinhas,códigos secretos, nos Anos de Chumbo,continuam a nos cutucar."Cale-se=cálice".Em qualquer ordem, continuamos a beber desse absinto, porque "não dizemos nada"(ou quase) e quando pensamos fazê-lo,já não podemos porque deixamos que avançassem no nosso jardim, como tão bem poetiza o Eduardo no conhecido "Um Passeio com Maiakowski"- tão citado que por muito tempo, pensavam ser "um poema de Maiakowski",lembra?Pelo menos, ESSA voz ainda é escutada.Felizmente.Mas só quem pode, mura seu jardim.E aí, nesse jogo de quebra-cabeças mal recortado, os justos e amantes das flores ficam do lado de dentro e os marginais, soltos do lado de fora...
                      Quando eu era bem jovem dizia da absoluta prevalência de homens de bem:quando um mau faz algo danoso, é notícia de jornal, é preso,eu repetia.Mas agora, nesse brasil com letras minúsculas, de tantos contrastes, Juízes, antes absolutos representantes da Justiça Social/legal, são presos.Funcionários públicos graduados que lesam cofres e povo, Nação e confianças.Presidente sofre impeachment...E já não sabemos em quem votar.Ou como vo(l)tar.
                       Vemos que se luta pela fome zerada.A Fome é um dragão do Mal, com fogo a sair pelas ventas e calcinar ex-estômagos, gretar lábios e taquicardear corações enfraquecidas pela desnutrição...A matar crianças que não serão...Mas, no que o aplauso a essas medidas se faz ouvir(fraco, como aquela técnica de bater palmas apenas com as almofadas dos dedos, quase em silêncio),em uníssono há quem grite, no meio da multidão:e o Desemprego Zero?
                          Durante alguns anos, estive , como funcionária pública do ex-INAMPS,coordenando a Casa da Criança e do Adolescente, no Hospital Júlia Kubtischeck, aqui em Belo Horizonte, no Barreiro de Cima.Fui a um dos diretores do nosocômio,`a época, o qual, por uma dessas sincronicidades do Universo, acabara de fazer um curso de hebeatria(uns se dizem hebeatras, outros hebiatras, para combinar com pediatras(*)), Dr.Paulo César Pinho Ribeiro.Expliquei que ,morando nas capitais do Maranhão e do Pará,fizera um trabalho com adolescentes.Preventivo.E que queria fazer o mesmo ali.Ele disse-me que fosse em frente.Isso incomodou a Direção Geral, inicialmente,pois me diziam que ali era "lugar de doentes".Somente aí, já observamos que no Brasil quando se fala em "Saúde", se quer dizer doença...
                              Fui em frente.No Barreiro não havia, à época, meninos de rua.Havia da rua, na rua.Tinham casa para voltar.Mas durante anos, eu os despertei para a cidadania.Tinham horta(ainda existente)para levar legumes e verduras para casa, tinham jazz, teatro, biodança, apoio psicopedagógico , atendimento médico por hebeatras e psicoterapia.Aulas.De tudo.No Congresso Internacional  Eperança Sem Fronteiras(à época, o Presidente de L'Espoir sen Frontiers" era o jornalista africano Etienne Sokeng), não havia quem não se impressionasse com aqueles adolescentes lindos e saudáveis, de todas as cores e classes sociais, que dançavam,se expressava, sobre seus direitos, sabiam de tudo.Eram os meus meninos.Meus e dos profissionais que me ajudavam.Jamais tivemos a menor verba, fosse federal, municipal, estadual.Mas nos cercamos de parcerias.O MS, mandava de Brasília os preservativos.A Pefeitura de Bh, através das várias secretarias, mandavam bola, rede,livros.O Estado, profissionais para isso ou aquilo.O programa foi muito bem sucedido.Mas o que mais eu ensinei foi o respeito ao outro.E foi visível que temos de começar pelas crianças e adolescentes.
                           Você passa pelas ruas e vê o quanto sofrem os meninos de rua:os mais fortes machucam prá valer os menores ou mais fracos.Apanham,são seviciados, as meninas sofrem estupros teríveis, que chamam de "ronda":é abusada por todos.Meninos também, claro.No SAISCA, o nome oficial da Casa da Criança e do Adolescente,ninguém podia, literalmente, levantar a mão um para outro."Mas nem bati", riam.E eu explicava, com afeto, que o gesto e a palavra valem tanto quanto o ato...Certa vez, viajei ,porque o MS e o Estado do Pará (SESPA) requisitaram-me ao HJK para ir treinar pessoas que lidariam com adolescentes, nos postos de Saúde(lá chamados de URE, Unidades de Referência).Quando voltei a Belo Horizonte, no hospital, os psicólogos da equipe disseram-me que os meninos estavam "passando a mão nas meninas".Uma garota adolescente ou púbere é mesmo um deslumbramento: o corpo jovem resplandece e, naturalmente, os meninos são afetados.O que fiz ,foi propor uma série de exercícios de pele, corpo(uso muito Boal),para que eles e elas se tocassem com respeito.Em nenhuma das brincadeiras,permiti,nem de leve que qualquer forma de micro tortura que fosse,utilizassem.Eu,que detinha,pelas características do cargo,poder/autoridade, as exercia,claro,mas de forma o mais democrática possível ,sempre deixando que todos tivessem o direito de opinar.Assim , ao ver que todos eram pessoas, uma cordialidade se solidificou, um respeito se concretizou,uma fraternidade verdadeira apareceu.Estar no lugar do outro.Eis a verdadeira fórmula de conviver melhor.
                             Tenho essa alegria de ter ensinado a uma geração a se respeitar e respeitar ao outro.A não se deixar torturar,seviciar, abusar, para não ser torturador, seviciador, abusador.
 
                             Assim como o programa era deles,dos adolescentes,além dos que o dirigiam,o Brasil,com B maiúsculo, é nosso, é do povo.Temos direito de não calar nossas vozes.
                              O papel dos governantes é,em última instãncia o de "pater familia".Pais não devem poder falhar,exceto pela condição humana.Quando um adolescente percebe que o pai, seu ídolo, tem pés de barro, a estátua idealizada de seu mentor, pode ruir.Assim nós, o povo, eternos adolescentes porque eternamente em construção,nos frustramos quando os donos do Poder e da autoridade nos decepcionam.
                               À época da ditadura, quando eu era repórter em Juiz de Fora, nosso lindo País adoeceu.A nação brasileira, que sempre alimentara o pressuposto de liberdade plena,herança de nosso indígenas, por certo,foi rudemente atingida por um vírus loucamente oportunista.Atacava indistintamente.Levava à morte.
                               Ainda convalescemos.
                               Como o doente que escapa de um Mal, ensaiamos os primeiros passos.Passamos longo período deitados em berço esplêndido.Agora, para exercer os sagrados direitos de cidadania, nos apoiamos em muletas, usamos talas,ataduras.Felizmente, não usamos mordaças.
 
Clevane Pessoa de Araújo Lopes,Belo Horizonte,16/12/2004
clevane pessoa de araújo lopes
Enviado por clevane pessoa de araújo lopes em 17/05/2005
Reeditado em 21/07/2005
Código do texto: T17532

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Sobre a autora
clevane pessoa de araújo lopes
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 69 anos
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