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A terrivel sensação de ser assaltado

Publicado por Marcondes Brito no Diario de Pernambuco, em 19/10/07

No primeiro de julho/07, Luciano Huck escreveu um artigo com o título "Pensamentos quase póstumos" que causou grande alvoroço na mídia. Nele, Huck contou como roubaram o seu relógio, um Rolex Oyster Perpetual que custa em torno de R$ 10 mil. Rico e famoso, o apresentador de TV foi bombardeado nas seções de cartas dos jornais e em comentários postados em blogs na internet, onde o tom geral das manifestações parecia perguntar: "Quem manda pendurar o equivalente a várias casas populares no pulso?" Eu mesmo achei meio pedante quando Huck citou no artigo que paga "uma fortuna de impostos". Como se isso fizesse dele um cidadão especial, diferente do resto dos mortais.
Mas uma coisa é acompanhar toda essa polêmica a distância e outra é viver na pele a experiência de um assalto. Pois aconteceu comigo na manhã de quarta-feira, na Rua dos Navegantes, em Boa Viagem, antes das 8 horas da manhã. Foi tudo muito rápido. Caminhava calmamente pela calçada enquanto falava ao telefone quando fui fechado por uma bicicleta. Olhos esbugalhados e com um imenso revólver apontado em minha direção, o assaltante foi intimidador: "Eu só quero o celular! Eu só quero o celular!"  Estamos todos exaustos de ler e ouvir recomendações para, numa situação como essa, não reagir e entregar tudo. Foi o que eu fiz. De potenciais cidadãos, passamos a ser consumidores do medo.
 A violência urbana não é preocupação exclusivamente brasileira, mas tema que ocupa a vida pública de diversas sociedades, tanto nos países pobres quanto nos desenvolvidos. Hoje, mais do que nunca, as noções de segurança e de vida comunitária foram substituídas pelo sentimento de insegurança e pelo isolamento que o medo impõe.
Fiquei muito aliviado quando o meu algoz partiu em disparada com o seu objeto de desejo. Na verdade, nem sei se aquela arma era de verdade - apesar de enorme - e como ele conseguia pedalar tão rapidamente com ela na cintura.
Enquanto voltava para casa, ainda com as pernas trêmulas, lembrei-me do desabafo de Luciano Huck e da revolta que ele tentou exprimir. O que vivemos no Brasil de hoje é a mais perfeita tradução da insegurança, do caos urbano, da desigualdade social, do desemprego, da impunidade, da miséria e da deficiência na educação básica.
Existe, certamente, uma particularidade no tipo de violência urbana que vivemos no Recife. Enquanto Rio de Janeiro e São Paulo são dominados, respectivamente, pelo Comando Vermelho e pelo PCC, aqui  em Recife prevalece o que podemos denominar de "crime desorganizado". É um bando de maloqueiros delinqüentes - em sua maioria juvenis - que transita pelas ruas e avenidas, intimidando as pessoas e desafiando a ordem publica.
Até a polícia sabe quem são eles. Talvez nem seja tão difícil assim combatê-los

Marcondes Brito
Enviado por Marcondes Brito em 19/09/2009
Reeditado em 24/09/2009
Código do texto: T1818805
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Sobre o autor
Marcondes Brito
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Marcondes Brito



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