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Éramos quatro


(Homenagem ao amigo e colega Caio Raymundo Ferreira



    Pelos idos de 1976, a Caixa Federal resolveu criar um grupo de elite, composto pelo que julgava ser o melhor de cada Estado, em comunicação, escolaridade e conhecimento do serviço, para ser um “quadro de instrutores” para o PAGA (Programa de Atualização de Gerentes de Agência). Da Filial RS éramos quatro. Foram chamados Antoci Almeida, Paulo Paiva, Caio Ferreira e eu. Cada Filial apresentou os seus, de forma que éramos ao todo vinte e oito.

    O treinamento foi custoso, por diversos motivos. Primeiro porque fora organizado não por administradores, mas por pedagogos, que tinham boa experiência na formação de comunicadores, mas quanto ao conteúdo do curso, propriamente dito, coube ao grupo de instrutores, sua montagem. Usavam aquelas técnicas superadas dos antigos cursos de GPO. Depois, havia o choque cultural, onde o que era prática em São Paulo, por exemplo, não se adaptava às realidades da região Norte-Nordeste, e assim por diante.

    Em função disto, as reuniões e os encontros em Brasília se repetiam, dando a impressão que não iam acabar mais, ou que iríamos nos aposentar tentando montar o curso. Depois de muita burocracia, exibições de vaidades, avanços e retrocessos, saímos a campo. O curso montado nunca chegou a ser um primor de técnica gerencial. Era o monstrengo que o pessoal de Brasília quis que fosse. Só um ano depois começaram os cursos. Na primeira leva, Caio e eu demos duas séries aos gerentes de São Paulo, considerados, pela tradição, o público-alvo mais exigente e contestador, Mas não foi assim.

    Ministramos os dois cursos, sendo muito bem recebidos, pelo menos pelos treinandos. Depois houve uma integração, e formamos dupla com colegas de outros estados. Foi um tempo muito bom. Viajamos bastante, fizemos muitos amigos e fomos bem remunerados (as diárias eram generosas, além das “horas-aula” que nos pagavam).

    Durante o tempo em que estivemos em Brasília, houve um fato curioso, que eu não poderia deixar de contar. Fomos almoçar em um restaurante fora do prédio da CEF e voltávamos a pé, pelo centro da Capital. Íamos lado a lado, Paulo, Caio e eu. Vendo-nos, e tentando fazer uma graça com nossas estaturas, um vendedor de bilhetes de Loteria bradou: “Olha o macaco, o rato e o elefante!”. Paulo e eu achamos graça. Caio, o "baixinho" queria briga com o vendedor.

    Nesse grupo, Caio era o mais velho, seguido do Paiva e do Antoci. Creio que eu era o mais moço. Mesmo assim, nossa diferença de idade não era significativa. Tornamo-nos muito unidos, quase como irmãos. Nossas famílias se integraram, e seguidamente promovíamos um encontro, para um churrasco ou coisa parecida. Antoci, Paulo e eu, estamos aposentados. Caio partiu. Deixou-nos prematuramente, em 2002.

    Do meu ponto de vista, Caio era o mais brilhante dos quatro. Ele nasceu na Bahia, mas gostava de dizer que era carioca. Vivo, competente, honesto, cheio de idéias e iniciativas, era daquelas pessoas que, ao escutar uma proposição, já corre na frente, adivinhando o resto do conteúdo. Não que os demais não tivessem estas virtudes, ou mais, mas, para mim, Caio era excelente. Curiosamente, foi o único que nunca foi lembrado pela Caixa para nada além de gerência de agência. Antoci e eu chegamos a Superintendente Estadual (Gerente Geral, na época) e Paiva foi Gerente de Operações e Coordenador de Processamento. Caio foi injustiçado, e a mágoa dessa exclusão ele nunca escondeu dos amigos.

     É de sua brilhante verve uma das tiradas mais notáveis que eu vi alguém dar. Coloquei-a inclusive em um livro meu. Era uma reunião em Porto Alegre. Veio, para coordenar o encontro, um daqueles aspones (assessor de porra nenhuma), burocrata de Brasília. Se não me engano era para a implantação do “cheque azul”.

    O estafermo trouxe de Brasília todo o material xerocopiado, e distribuiu-o aos presentes. Era um acervo de umas vinte páginas para cada um. E começou fazendo a leitura a partir do item um. Quando estava prestes a passar para a segunda folha, Caio que estava lá atrás, a meu lado, levantou o dedo: “Colega, posso fazer uma pergunta?”. O burocrata olhou de soslaio, do alto de sua gravata de seda e de seus sapatos de cromo alemão (esse pessoal não gosta de receber perguntas, pois se acham tão bons, que o pessoal tem a obrigação de entender tudo o que eles falaram) e disse, numa falsa gentileza: “Pois não, colega, pode dizer”. Caio deu o xeque-mate: “Quem sabe ler pode ir embora?”. Acabou a reunião.


Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 30/06/2006
Código do texto: T185009
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão