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O Meridiano 0.° da Escritura Poética: Os Poemas Visuais de Gilberto Mendonça Teles.

O Meridiano 0.° da Escritura Poética: Os Poemas Visuais de Gilberto Mendonça Teles.
Prof. Dr. Jayro Luna

Gilberto Mendonça Teles é um poeta de vasta e rica produção. Desde Alvorada (1955), passando por livros como Pássaro de Pedra (1962), A Raiz da Fala (1972), Plural de Nuvens (1990), lá se vão vários livros de poesia e publicações em revistas e periódicos. Não cabe aqui, porém, ficar a enumerar a riqueza de sua produção poética nem tampouco citar a sua fortuna crítica com textos de Telenia Hill, Péricles Eugênio da Silva Ramos, França Denófrio, Deolinda Filomena, Ivan Junqueira, Tristão de Athayde, Donaldo Schuller e outros tantos. Quem quiser vá as fontes que eu não vou ficar aqui a repetir em uníssono, não só porque concorde com tudo o que já foi dito, mas principalmente porque quero acrescentar algo e o espaço é pouco.
Quanto à produção crítica e teórica do professor Gilberto Mendonça Teles, esta é tanto quanto inestimável, basta lembrar o livro que todo aluno do curso de letras consulta em algum momento que é Vanguardas Européias e Modernismo Brasileiro, ou outros mais teóricos e brilhantes como Estilística da Repetição.
Mas meu propósito, como já se afigura no título é comentar acerca de alguns poemas de natureza visual de Gilberto Mendonça Teles.
Começo por citar a antologia Saciedade dos Poetas Vivos - vol. V - Visual. Esta antologia organizada pelos sempre atuantes Urhacy Faustino e Leila Míccolis (da qual também participei) tinha como propósito fazer um levantamento da poesia visual produzida no Brasil, tomando por base a década de 80. GMT participar com 5 poemas, das páginas 27 a 32.
Na página está o poema “Peixes de Goiás” que é de 1993, ano da publicação desta antologia.
O poema é construído pela enumeração de nomes de peixes característicos dos rios goianos: lambari, flamenguinho, dourado, piranha, corvina, matrinchã e vários outros.
José Fernandes comentando acerca desse poema observa uma volta da escrita ao âmbito da nomeação, de uma poética rupestre:

“Em ‘Peixes de Goiás’ temos a regressão, no sentido da pré-história da escrita, ao processo pictográfico de mistura com a estilização do simbólico. O dourado é mesmo um desenho, o único aliás do poema, talvez para pôr em relevo a sua importância como “rei dos peixes”, nas águas que correm para a bacia platina. Já os outro peixes aparecem estilizados de maneira a descrevê-los num processo de semelhanças físicas e de funções e hábitos na superfície ou na profundidade dos rios. Jogando apenas com as letras maiúsculas e minúsculas da máquina datilográfica, o estatuto da semelhança se torna precário, fazendo com que o leitor tenha que esforçar-se para preencher as significações em torno da palavra que aponta para um tipo de peixe, mas tentando dizer mais do que uma simples palavra da língua: uma palavra escrita segundo conhecimento de um pescador... ainda que de palavras ariscas.”
(FERNANDES: 1982)

Mas onde está o poético? A resposta está não propriamente na formulação da lista, mas na forma como os nomes são escritos. Utilizando-se de uma máquina de escrever o poeta foi deslizando e movendo a folha pelo carro da máquina e teclando as letras de maneira a compor com o nome do peixe a forma do peixe, por exemplo, no caso da “piranha”:

____________r
_________pi_____pi
________r________ r
_______pi___ NHA
________r________ r
_________pi____ pi
____________r

Poderíamos lembrar dos “Caligrammes” de Apollinaire. Num certo sentido existe sim essa ligação, mas GMT faz desse poema uma das mais belas metáforas sobre a escritura poética. Na página vai se configurando um cardume heterogêneo de peixes com o grande e saboroso “Dourado” ao centro e os peixes médios e menores circundando-o. Peixes de corpo longilíneo como a “pataquinha”, curtos como a “sardinha”, arredondados como o “Tucunaré” ou a “piranha”, todos vão compondo um cardume de formas variadas. A carne desses peixes do poema é feita de letras. Os peixes estão sob a superfície das águas, aqui, as palavras que representam tais peixes também estão sob uma superfície, aquela que elide significante e significado, forma e conteúdo. Os “Peixes de Goiás” de GMT estão no limite entre a palavra e a coisa, aqui o poeta adâmico está nomeando poeticamente o mundo e palavra busca nesse ato primordial ser mais do que a representação, quer se ligar ao objeto que representa por uma instituição de forma analógica. Assim quando lemos o poema, olhamos o poema, vemos os peixes nadando na água da poesia expressa / impressa na página.
A escolha da tipografia - o da máquina de escrever - também não me parece casual, conota uma atitude mais artesanal, mais rústica - ao contrário dos poemas visuais com acabamento e design mais profissionais - já que a pesca solitária nos rios é uma ação artesanal, como é também a escrita de um poema.
Nessa mesma antologia encontramos na página o poema “Szerelem” (da série “Versões” - 1993). O enigmático título é “amor” em húngaro. A excentricidade ou exotismo da língua escolhida para o título do poema se completa na tentativa de leitura linear do mesmo: “amour” (francês), “liebe” (alemão), “amore” (italiano), “love” (inglês), “ljubav” (sérvio), “kärlek” (sueco), “liefde” (holandês), e várias outras línguas que escrevem ou permitem a versão da escrita para o alfabeto latino ou similar, e também escrita da palavra “amor” em caracteres árabes, cirílico, hebreu, hieroglífica egípcia, etc. Acima, na parte interna superior do losango, lemos as palavras gregas “Eros” e “hímeros”.
Essa variedade de formas de escrever “amor” tem uma série de significados simbólicos de caráter romântico e humanista, dentre eles o de demonstrar a universalidade do conceito, de como a forma como cada língua expressa esse conceito é resultado de uma sensibilidade particular, sem dúvida, única, mas que também demonstra o alcance desse conceito como característico do sentir humano, este independente da forma específica de cada língua.
Mas, o poema não se resume a ser uma lista de palavras em várias línguas com o significado de “amor”, as palavras estão dispostas de tal forma que sugerem uma forma geométrica: um losango espichado nas pontas superior e inferior, tendo à volta algumas palavras dispostas em posição estratégica, tanto do lado externo quanto no interior do losango. A figura é de fácil entendimento, não é uma simples forma geométrica, um losango qualquer, mas a estilização geometrizada da “vulva”, do símbolo da sexualidade feminina, do érogeno. O amor, nesse poema, é, pois, o amor no sentido erótico, de paixão, de carnalidade do sentimento amoroso. Ao centro, bem ao centro, a escrita hieroglífica egípcia, mostrando, suponho, o início da escrita e com ela a capacidade humana de registrar seus sentimentos, paixões, pensamentos para outros e para a posteridade.
Na revista Dimensão (do Guido Bilharinho), número 24 (1995) encontramos a reprodução de um poema visual do GMT cuja fonte suponho seja a antologia que venho citando. O poema se chama “Mapa-mundi” e também é da “Série Versões” (1993).
O poema, ao mesmo modo de que no poema “Szerelem” apresenta em várias línguas a palavra eu: “Ego” (latim), “I” (inglês), “Je” (francês), “Yo” (espanhol), “Ich” (alemão), e muitas outras línguas. As palavras são dispostas numa forma radial circular, partindo de um centro em que se vê a escrita hieroglífica egípcia. O “Eu” em português se encontra repetido várias vezes, principalmente nas órbitas mais exteriores. Tal repetição pode ter várias justificativas, por exemplo, a de que Portugal foi um dos maiores descobridores de terra e colonizador da época das grandes navegações, embora, nesse caso, não encontremos igualmente repetições para “Yo” (espanhol), “I” (inglês), outros dois povos de grandes descobertas e colonização.
Outra justificativa, mais pessoal, conota nesse “Mapa-mundi” a visão egocêntrica do poeta / poema. O “Eu” do poeta que busca se colocar no mundo e nessa colocação perceber enquanto poeta as questões relativas à colocação do homem no mundo, assim, o “Mapa-mundi” é a visão de um mundo em que o homem se considera o centro e como tal, criador não apenas das diferentes línguas e linguagens, mas proprietário de um conceito de civilização e cultura.
Lembro da famosa cena de O Grande Ditador (1940) de Charles Chaplin em que este, personificando o líder do III Reich, Hitler, passa a brincar em seu gabinete com o globo terrestre como se fosse uma bola, equilibrando-a, chutando-a e abraçando-a, ironizando assim o desejo de posse e conquista do mundo. O “Eu” tirando, ditador que busca a conquista do mundo.
Voltando à antologia da Saciedade dos Poetas Vivos, destacamos o poema “Greemwich Meridiam Time”, que vai arrolando na forma de uma pirâmide invertida diversas siglas (“GO, “BR”, “UFG”, “UDN”, “PUC”, “CNPq”, “PIS”, “RJ”, entre outras), nomes de universidades, estados brasileiros, órgãos governamentais e emissores de documentos e números (“PIS” ou “PASEP”, p.ex.), de partidos políticos, etc. Essas siglas todas têm uma ligação com a vida do poeta em termos biográficos, ao final a sigla “GM / T” se encerra em tal abertura significativa que liga o nome do meridiano às iniciais do poeta. Assim, a vida do poeta é o meridiano zero, o ponto de partida para a construção de seu universo poético: Goiás, carreira docente, objetivos políticos e culturais, tudo formando o amálgama temático do poema.
Por estes exemplos podemos notar como a poesia de Gilberto Mendonça Teles se apropria dos elementos formais não apenas como exegese do experimentalismo de vanguarda, mas como constituinte e recurso de poesia no seu âmbito mais extenso.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BILHARINHO, Guido (editor). Revista Dimensão, n.° 24. Uberaba, 1995.
FAUSTINO, Urhacy & MÍCCOLIS, Leila. Saciedade dos Poetas Vivos - Volume V: Visual. Rio de Janeiro, Blocos, 1993.
FERNANDES, José. O poeta da Linguagem. Rio de Janeiro, Presença, 1982.
Jayro Luna
Enviado por Jayro Luna em 01/07/2006
Reeditado em 01/07/2006
Código do texto: T185783
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Sobre o autor
Jayro Luna
São Paulo - São Paulo - Brasil, 56 anos
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Jayro Luna