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                  Uma Vida ... Uma Saudade


          Euclides Inácio Basílio, o nosso tio Quiidinho ou popularmente “Tiquidin” foi sempre uma pessoa agradabilíssima, motivo pelo qual todos os sobrinhos por ele tiveram um carinho todo especial.

         Eu, particularmente, convivi com ele desde criança muito de perto, e tive a felicidade de conhecer, graças ao mesmo, um pouco da história da nossa terra especialmente o que diz respeito ao coronel Basílio, nosso ascendente, considerado o Patriarca de Brejo Santo, por alguns escritores e historiadores.

         “Tiquidin” é tido por mim e acredito que por muitas outras pessoas, como um patrimônio cultural da cidade, por deter um cabedal de conhecimento extraordinário em todos os campos, apesar de ter cursado apenas até o exame de admissão ao ginásio, no antigo colégio Diocesano do Crato.
Ele foi para mim umas das pessoas que contribuíram com minha formação religiosa através da leitura das Sagradas Escrituras. Do amor que sempre pregou e dedicou ao Sagrado Coração de Jesus e a Nossa Senhora.

        Como cidadão foi um exemplo de honestidade, justiça, honradez, disponibilidade... Sempre esteve a serviço da comunidade, mesmo nos últimos anos apesar das limitações que a vida lhe infligiu.

       Partilhar com ele as memórias da nossa terra, comentar as lembranças dos tempos idos era um dos nossos passatempos favoritos.

        Sua lucidez invejável aos 91 anos incompletos lhe dava um tom jovial, o que cativava aos que com ele dialogavam.
Apesar da cegueira e da surdez dos últimos anos, do problema de coração, sua fortaleza me dava a sensação de que ele viveria muito tempo.

          Na última quinta feira, dia 29/04/2004 senti sua fragilidade. Não havia ânimo na sua voz, seu organismo estava debilitado. Fiquei um tanto preocupada e pensei na possibilidade de perde-lo. Confesso, fiquei muito temerosa.
A sua ida às pressas ao hospital, no final do domingo, dia 02 /05, me deixou amedrontada. Ao vê-lo naquela ânsia, respiração ofegante e sufocante, revivi todo o sofrimento da minha avó Luzia antes de nos deixar. Senti naquele momento a presença dela, de mamãe, de tia Mariêta, de madrinha Clotildes e de vovô Chiquinho. Lembrei-me que no dia anterior fora a data do aniversário do meu avô e seu pai. Passados alguns instantes recordei que vovô e mamãe haviam falecido no mês de maio.Entendi que ele também estava indo embora, juntar-se aos entes queridos que o aguardavam na verdadeira vida, na vida eterna junto a Deus. Um sentimento estranho tomou conta de mim: uma paz acompanhada de inquietude. Paz porque ele se juntaria aos seus tão amados familiares: pais e irmãos; inquietude porque ele estava deixando aqui esposa, filhos, netos, bisnetos, genros, noras, sobrinhos, toda uma parentela que o tinha como patriarca e uma legião de amigos que conquistara com seu jeito amável, atencioso, cativante. Saí dali tentando me enganar: ele viveria.

         Ao receber a notícia da sua passagem para a outra vida me dei conta do quanto estava perdendo, com ele ia o último vínculo terreno com a geração que me antecedia pela família materna. Já não ouviria suas histórias, jamais iria ouvi-lo falando, cantando, sorrindo, brincando... minha relação com ele a partir de agora seria apenas espiritual, ele seria simplesmente uma lembrança, uma saudade como meus pais, avós, tios, padrinhos, como todos aqueles que estão comigo de uma maneira tão viva, mas que não posso vê-los, toca-los, ouvi-los, abraça-los.

          Ao vê-lo no féretro, com aquela expressão serena, como se estivesse dormindo,porém pálido como se fosse de louça, gelado, sem vida, pensei na fragilidade da vida: como um homem de aparência tão forte, um valente batalhador se deixa ceifar sem resistência? Na verdade nada somos,
nada podemos como humanos em relação `a morte. Não dá para desvendar tal mistério. E não é possível que a vida termine ali, como muitos afirmam.É preciso acreditar que esta vida é apenas uma caminhada rumo à vida eterna. Pensei então na alegria do reencontro, na festa que acontecia para acolhe-lo, no céu.

         Senti uma vontade enorme de chorar, mas ouvi uma voz interior que me dizia que ele estava feliz e que gostaria que entendêssemos isso, sem lamentações. Então comecei a louvar por sua vida, pelos anos de felicidade vividos entre nós, por sua contribuição na construção da história da nossa terra, por tudo enfim que o Espírito Santo me foi colocando na mente. Finalmente onde está minha fé, creio na ressurreição ou não? Ele não morreu, passou desta vida para outra melhor.

        Na missa de corpo presente recordei das vezes que ele participou fazendo leitura, ofertando, comungando, e agora estávamos ali, confiando sua alma a Deus. Emocionei-me, sobretudo quando cantavam a música “Nossa Senhora”. Saí apressada para o cemitério, não participei do cortejo fúnebre; nem de casa até a Igreja, nem desta ao campo santo. Tentei fugir das emoções, mas na verdade elas estavam dentro de mim, não tinha como delas me livrar.

        Dói muito sair do cemitério deixando lá sepultado um ente querido.

        Foi um dia sombrio. Triste também foi o dia que amanheceu, a terça feira; havia um vazio no meu coração, então resolvi ir até o túmulo e lá senti muita paz. Imaginei a felicidade dos meus entes queridos reunidos, não ali naquele túmulo, mas no céu, junto a Deus, a Maria Santíssima, aos anjos e santos. Rezei um pouco e voltei para casa para dar continuidade à vidinha do dia-a-dia, tentando viver como cristã e esperando que chegue o dia da minha ida. Quando? Só Deus sabe.




Foto de 4 gerações: Tio Euclides, Eu (e meu esposo Raimundo), minhas filhas:Rosângela e Neusa Regina e meus netos:Tiago, Mateus, Levi e Milena.


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marineusa
Enviado por marineusa em 06/07/2006
Reeditado em 15/09/2007
Código do texto: T188419

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Sobre a autora
marineusa
Brejo Santo - Ceará - Brasil, 71 anos
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