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Ostentar o CEP

    Moro em um bairro dito popular, o Pernambués. Nele há farmácias, padarias, lanchonetes, locadoras e muitos outros serviços, todos com qualidade. Há postos médicos, escolas, clinicas e segurança, é bem iluminado e asfaltado. Contudo, apesar de terem boas casas, percebi que alguns moradores saíram do bairro para um outro mais característico de uma classe média-alta: a Pituba.

    Hoje moram em um bairro muito mais visado por assaltantes e, fazendo uma comparação entre as moradias, observa-se muitas vezes, um apartamento menor e mais antigo que o anterior e, o mais interessante, há aqueles que trocam uma casa própria em um bairro popular por uma alugada em um bairro mais ostentado (!). O mais intrigante é: o que levou essas pessoas já conhecidas na vizinhança, possuidoras de casa própria e moradoras de um bairro acessível e com um bom nível de conforto a decidirem trocar certa estabilidade do antigo bairro por um ambiente tão novo? “Ostentação” é a melhor palavra para tentarmos entender como algumas pessoas se comportam desta maneira.

    A ostentação perante a sociedade é uma característica que veio de valores da aristocracia, a nobreza, dos séculos XVI e XVII, como podemos ver com Nobert Elias, sociólogo alemão, em seu livro “A Sociedade de Corte”. Nesse livro, Elias mostra como os nobres utilizavam da ostentação de suas riquezas para se elevarem social e prestigiosamente. Para isso, era necessária uma exibição constante de tudo o que consumia, o chamado “consumo de prestígio”, conseqüência de valores que prezam a opinião dos outros em relação a si, isto é, o tratamento que a sociedade tem com você é o que te norteia em seus princípios.

    De acordo com Elias, o nobre era um ser público, pois de nada adiantava todo o consumo de prestígio se estivessem escondidas. Ele ditava as normas sociais que valorizavam a ostentação de maiores status sociais a trabalhar acumulando riquezas. Estas normas eram contrárias ao caráter privado e trabalhador da burguesia, que, séculos mais tarde, passaria a ditar as normas sociais. Porém, apesar da aristocracia ter decaído, resquícios dos valores aristocráticos continuam a influenciar na sociedade até os dias de hoje.

    Sendo assim, podemos comparar as atitudes dos nobres de quatro séculos atrás com nossos moradores que, a procura de um maior status social, se estabelecem em um ambiente onde o padrão de vida é mais elevado, com a intenção de se verem e serem vistos em uma classe social de maior prestígio. Não importando muito como esteja a beleza da casa em geral, o importante é esta notável mudança social onde as outras pessoas passarão a achar que “estão ficando bem de vida ($)”. Ostentam o CEP!

    Com base no texto “As Necessidades em Relação com as Atividades” do economista inglês Alfred Marshall, podemos ver como é importante para o homem, para o consumidor, se distinguir entre os outros na hora de valorizar um produto. Esta distinção ultrapassa a questão do necessário, pois as necessidades humanas vão se diversificando e criando novas necessidades a medida que a sociedade ou os indivíduos vão progredindo. Isto é, um homem da classe alta, por ter atividades sociais mais elevadas, tem desejos mais extravagantes que os de um homem da classe baixa, consequentemente mais opções (diversidades) para satisfazer estes seus desejos (necessidades).

    Marshall retrata melhor as atividades sociais quando mostra a importância de uma casa. Uma casa, em relação a uma classe social onde todos têm casa, não pode apenas satisfazer a necessidade de ser um abrigo seguro onde se possa repousar, isso satisfazia apenas no tempo das cavernas. Como vemos com nossos moradores e como está analisado em Marshall, na atual morada, que está em níveis sociais em que toda pessoa tem condições de realizar as suas atividades, existe um desejo de maior e quase ilimitada acomodação, como um requisito para o exercício de muitas atividades sociais mais elevadas. Significa que, os moradores em estudo estão chegando ao novo bairro contemplando todo o padrão que o segue, ambicionaram todo um padrão que não era necessário no antigo bairro como, por exemplo, comprar o pão para o café em "délicatesses" e não mais em "padarias".

    Nesse caso, podemos examinar que nossos moradores, além da ostentação, irão procurar na distinção um outro instrumento para sua imagem social. Então esses moradores estarão procurando se distinguir das pessoas que convivem com ele, isto é, dos familiares, amigos, colegas de trabalho e sobre os seus antigos vizinhos. Nesse momento, estes moradores estarão em posição de destaque social. Esta é a distinção que Marshall transmite, não é de se distinguir e aparecer, e sim, ser posto, pelos outros, em uma posição superior a deles, seja pelas qualidades artísticas, profissionais, políticas, etc.

     Comparando os dois autores podemos analisar que a necessidade de um indivíduo se elevar socialmente, leva-o a precisar se distinguir. A ostentação em Nobert Elias e a distinção em Alfred Marshall são o que responde a motivação das pessoas deste artigo  a saírem de um bairro popular para um bairro mais premiado sem nenhum motivo qualitativo ou quantitativo aparente. Um consequente acontecimento que ocorrerá com elas será a de sustentar todo este novo e mais elevado custo de vida, pois as exigências sociais que elas sofrerão em um bairro de padrão mais elevado serão diferentes do bairro anterior. A ostentação vem logo em seguida quando precisarão serem aceitos pelo novo grupo social, para os que são realmente da classe média-alta/alta. Depois que se ascender o indivíduo tem que conviver nos mesmos ambientes e adquirir os mesmos costumes que os outros da classe tem, como, por exemplo, estar com um carro do ano.

     Assim sendo, o fator que levou meus conhecidos do bairro, e diversos outros exemplos que encontram-se em diversas outras cidades, a procurarem outros bairros menos “preconceituados” é justamente por necessitar de um CEP para uma colocação social prestigiosa. Quando dizer onde morava começou a ser uma barreira nas suas relações interpessoais. Pode ser por causa do trabalho, que precise estar mais próximo dos seus colegas de trabalho para não ficarem deslocados, ou até mesmo para conseguir trabalho, já que o mercado também discrimina neste aspecto. Outro caso pode ser a família, que começa a exigir deles uma melhor moradia, se todos estiverem em uma posição de maior destaque. Ou até mesmo a ostentação no aspecto psicológico do indivíduo que procura apenas se exibir em busca de um prestígio que não tem. Um outro exemplo seria a pura necessidade de um lugar melhor, neste ponto os aspectos discutidos neste artigo não têm validade.
Rafael Sales Rios
Enviado por Rafael Sales Rios em 14/07/2006
Reeditado em 24/08/2009
Código do texto: T194076
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Rafael Sales Rios
Salvador - Bahia - Brasil, 29 anos
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Rafael Sales Rios