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EU PREFIRO CINEMA NACIONAL

Neste fim de semana eu assisti o trailer do xXx – Estado de Emergência. Quase fiquei surdo com tanta explosão num mesmo trailer. Embora eu ainda não tenha visto o filme (e talvez nem o veja) já deu pra perceber que mais uma vez a Columbia e o cinema americano colocaram num saco uma boa dose de perseguições automobilísticas, beldades figurantes, brutamontes sem cérebro, muita pancadaria e um roteiro previsível. Misturaram tudo num liquidificador de efeitos especiais e despejam sobre nós na maior cara de pau mais um entre centenas de filmes com o mesmo gosto de sangue. Eu, e qualquer um de vocês, poderia citar no mínimo dez filmes iguaizinhos a este, onde o que muda são os atores, o diretor, o figurino, a trama (por mais simples que seja) e o investimento. Este filme, por exemplo, custou 118 milhões de dólares. Mas a cara continua a mesma. Aliás, os gringos tem se tornado especialistas em fazer vários filmes iguais, aproveitando a carona do antecessor. Por exemplo, falemos dos ditos filmes épicos. A lista pode ter ‘Cruzada’, ‘Alexandre’, ‘Tróia’, ‘Rei Arthur’, entre outros. Não que estes filmes tenham sido tão ruins, mas se é pra fazer um filme assim, que seja ao menos quase do nível de Bem-Hur (1959) ou El Cid (1961), por exemplo. Eu sei que estou pedindo demais, mas quando Charlton Heston assistiu O Gladiador deve ter saído correndo do cinema, derrubando pipoca, lanterininha e tudo ou todos que estivessem na sua frente, quando viu nitidamente um tubo de propulsão em uma das bigas, ou quando um dos figurantes apareceu de tênis em pleno Coliseu - coisas que nem os 5 premios Oscar esconderam do grande publico.
Por isso, cada vez mais sou fã do cinema nacional. Nós também erramos, e muito! Mas, mesmo sem tanta grana, sem tantos efeitos especiais, sem filmes milionários e com estrelas limitadas às que estão na Globo, fazemos filmes com mais alma. O brasileiro de modo geral é preconceituoso e desconfiado quanto a qualidade do próprio brasileiro. Quer exemplo? Bem, então abra seu coração, não se deixe levar pela lavagem cerebral a que você é submetido a cada filme que vê e acompanhe meu raciocínio. Vou pegar como exemplo o filme Matrix. Escolho este filme porque todos já o viram, poderia ser qualquer outro. Vou sugerir uma troca de atores. Digamos que o Matrix tenha sido um filme feito por brasileiros e com atores brasileiros. Ao invés do insípido Keanu Reeves, que tal usarmos o Rodrigo Santoro, de atuação aclamada no Carandiru ou no Bicho de Sete Cabeças? Eu poderia dizer Abril Despedaçado também. Não gosta do Rodrigo Santoro? Tudo bem, então no papel de Neo usemos Caco Ciocler, de atuação emblemática em Olga. Qualquer um dos dois que citei é melhor ator do que a grande maioria dos atores da maioria dos filmes gringos enlatados que aparecem na telinha ou na telona. Eu poderia ficar aqui citando substitutos de melhor qualidade para a Carrie-Anne Moss (Alguém sabia quem ela era antes do Matrix??) ou para o Lawrence Fishburne, que é um belo ator diga-se de passagem, mas o prefiro em Sobre Meninos e Lobos ou no contundente filme Os Donos da Rua, que infelizmente poucos conhecem.
De modo geral nossos filmes são melhores mesmo. Lá, eles fazem quase vinte filmes para que um deles seja bom o suficiente para um cinéfilo de verdade poder engolir. O resto é tudo filme simplesmente caça-níquel. Vou dar nome aos bois de novo. Em se tratando de comédia, que filme americano é mais engraçado (piadas realmente engraçadas e inteligentes) do que ‘Os Normais’, ‘O Alto da Compadecida’ ou ‘Meu tio Matou um Cara’? A riqueza dos personagens desses filmes brasileiros dificilmente é superada num filme gringo.
A inteligência das piadas dentro do seu contexto também é bem melhor do que os bordões que o cinema estrangeiro usa com freqüência nos filmes que produz.
Quer um bom drama? Assista ‘Olga’ e ‘Central do Brasil’. Estes dois filmes estão, na minha modesta opinião entre os dez melhores filmes que já vi. Não entre os dez melhores nacionais ou estrangeiros. Entre os dez melhores de todos os tempos. Vemos nestes filmes o que esperamos em qualquer filme (mas encontramos em poucos): uma aula de dramaturgia dos principais atores, uma historia sem furos e principalmente um resultado extremamente convincente.
Eu sei, as vezes a Globo tenta enfiar à força algum filme feito só pra dar alguma atividade ‘entre novelas’ aos seus atores bem pagos. Avassaladoras é um desses filmes, estilo filme americano feito por brasileiro, mas melhor que muitos filmes dos próprios americanos. Nem tudo é perfeito por aqui. Mas nenhum outro país tem a sensibilidade de Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Paulo José, Raul Cortez, Cláudio Marzo, Maria Fernanda Candido, Lazaro Ramos, Caco Ciocler, Tarcisio Meira, Gloria Menezes, Gloria Pires, Miltom Gonçalvez, Antonio Abujanra, Marcos Paulo, Camila Morgado entre outros tantos gênios ao nosso dispor.
Por isso, apesar de algumas novelas dispensáveis, filmes ‘comercialóides’ e uma pitada de amadorismo, somos o número um em alguma coisa: o talento.
Martins Filho
Enviado por Martins Filho em 27/05/2005
Código do texto: T20062
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Sobre o autor
Martins Filho
Caxias do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 38 anos
52 textos (5960 leituras)
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Martins Filho