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A sociedade ante o progresso técnico-científico - 2° Parte: Um destino funesto?

 
         Após vermos de forma sucinta o progresso do homem em sua capacidade cognitiva e construtiva, sempre tentando superar os limites impostos pela natureza, agora refletiremos sobre onde todo esse processo está nos levando.

         Para saber as perspectivas da ciência – do latim scientia ou “conhecimento”– e da tecnologia (advinda da palavra grega téchne “habilidade”, “técnica”) devemos entendê-las em suas finalidades. Observamos que a ciência e a tecnologia, na atualidade, caminham de mãos dadas, mesmo a tecnologia servindo apenas às exigências do mercado de consumo. Segundo estudiosos do tema, entusiastas ou de acordo com os próprios cientistas, os objetivos da ciência são: eliminar a superstição e a ignorância do homem ante os fatos da natureza, evitando o temor dele, aperfeiçoar a medicina para se melhor tratar da saúde, reconhecer as estruturas dos fenômenos e assim controlá-los. A ciência é de certa forma objetiva e seus métodos exigem mais a atenção dedutiva/indutiva do que reflexiva/ética. A ciência exige a objetividade, mas embora o conhecimento seja de caráter universal, as pesquisas são controladas por indivíduos humanos, e estes devem ficar atentos com os resultados, se são favoráveis para o bem-estar geral da comunidade. Um posicionamento de indiferença demonstra que o cientista é nulo, um autômato que visa apenas a conclusão do seu trabalho.
         A revolução industrial e tecnológica do séc.XIX foi vista de forma positiva pelos modernos cidadãos da Europa. Daí o Positivismo (movimento filosófico, pedagógico europeu que defendia a ciência como a salvadora da humanidade, devido aos seus feitos na indústria e consequentemente no modo de viver das pessoas) ter sido bastante cultivado na sociedade burguesa. A idéia clássica de que o pensamento racional e científico fosse capaz de esclarecer os pontos mais angustiantes da realidade e criar instrumentos que reduzissem tais angústias se tornou um dogma desse movimento. É fácil notar o regozijo do homem defronte dum objeto fruto de tal evolução científico-tecnológica; o computador ou a televisão, por exemplo, se formos analisar cada parte, nos encheremos de espanto com a capacidade do homem em criar coisas tão perfeitas utilizando-se de peças dispersas e quase descartáveis.
         O erro da população é ficar na espreita, esperando os novos produtos de última geração, sem atuar de forma mais crítica sobre a conduta daqueles que detêm o poder da ciência e lançam no mercado os produtos, como se fôssemos obrigados a comprá-los e utilizá-los. Percebe-se que a cada passo evolutivo os utensílios eletrônicos diminuem de tamanho (celulares) e chegará a um ponto deles serem tão pequenos, que só mesmo implantados no cérebro para atingirem sua finalidade. A indolência, a busca pela simplicidade e comodidade cotidiana, e a suposta busca da melhoria de vida são quem impulsiona os avanços desordenados da tecnologia. Mas o que o homem quer, o ápice de seu desenvolvimento? Enquanto não for estabelecida uma meta real, um ponto de chegada, muitos continuarão nessa desenfreada produção e no fim não haverá mais nada a ser criado.
         A tecnologia somada ao pensamento científico reducionista tende a catalogar cada parte do mundo e do homem almejando sei lá o que; e quando tudo for revelado se chegará ao ponto zero. Sim, quando não haver mais nada a ser falado sobre o homem em sua composição biológica, fisiológica, ele deixará de ser homem, e será mais uma coisa qualquer no mundo. Pois vemos que hoje em dia, é mais relevante observar seu aspecto orgânico – na visão dos cientistas – do que seu lado social. É como Nietzsche disse, o homem prefere o nada do que nada querer.
         O tal progresso de que tantos falam e do qual muitos outros nem sequer têm idéia do que seja, parece não ter vencido as dificuldades e traz uma enorme carga negativa para todos. Há altos custos por parte dos órgãos governamentais, empresariais na industrialização (modernização), nas pesquisas bélicas ou em pesquisas improlíficas abandonadas no meio das investigações; e os líderes das nações, do alto de suas torres magnâmicas de janelas blindadas parecem não enxergar a miséria, a fome, a prostituição, o desemprego, o analfabetismo do mundo. Nas palavras do crítico Schwartz:
Semeamos os campos com trifosfato de sódio e há mais gente com fome do que nunca. Levantamos hospitais e clínicas e há cada vez mais doentes. Construímos escolas e o analfabetismo floresce. Erguemos fábricas e as enchemos de máquinas e descobrimos que somos escravos das máquinas. Derrubamos nossas florestas, dilapidamos com os recursos naturais e supersolopamos a terra. Envenenamos nossos lagos e rios, poluímos o ar que respiramos e transformamos a face da terra num labirinto de faixas de concreto, montanhas depedradas e monstruosos montões de escória.
         Quanto progresso! Que absurdo tudo isso! Não podemos negar o fascínio que a tecnologia exerce com suas descobertas benéficas para a sociedade. Foram criadas máquinas capazes de descobrir problemas de saúde e assim tentar resolvê-los; a internet no processo de democratização e ambiente de discussão também é incrível (não preciso nem comentar). Porém tudo tem seu lado negativo e parece que esse é sempre preponderante, pois sua força afeta até os que não fazem parte do progresso. O que dizer da bomba atômica: foi um grande avanço para a física, mas seus resultados foram catastróficos até mesmo para os físicos. O que dizer da pedofilia na net, das superbactérias resistentes aos antibióticos.
         Outra dificuldade advinda dos avanços tecnológicos está em se diferenciar produtos dos indivíduos que os consomem. É como se houvesse uma simbiose entre eles ou como se os produtos fossem uma extensão do indivíduo. A sociedade atual capitalista, materialista, consumista, individualista não sabe o que é necessário para si, e conduzida pela altivez do homem científico/racional, vai se submetendo às criações e inovações tecnológicas desnecessárias, na verdade os produtos geram novas necessidades (adequação) e barreiras. Vejamos: é necessário criar um programa que independa de teclas ou duma tela apropriada inclusa para funcionar como uma máquina fotográfica, ou que os computadores e celulares só funcionem com a sensibilidade de toques em telas projetáveis em qualquer superfície? Não! Aparentemente os resíduos que se acumulam como efeito da produção em massa irão diminuir devido aos avanços acima. Então o problema é o alto desejo de ter, de consumir e não os equipamentos que já possuímos.
         Vivemos num planeta onda cada coisa se interliga com outra e cada ação – por mais pequena que seja – resulta outras (re)ações. Quanto mais se cria, mais recursos são exigidos e mais problemas surgem devido à constante utilização da matéria-prima. É necessário se preocupar com os problemas já existentes por causas dos avanços passados: estresse, poluição de rios e da atmosfera, radiação, pois não temos idéia de como será viver, a longo prazo, nessa realidade futurista que está em ascensão. É deixar a humanidade seguir seu rumo ou é melhor refletir primeiro acerca do rumo que está sendo trilhado?   Não podemos nos abdicar de entrar nesse contexto reflexivo.

         Desde a pré-história o homem demonstra a sua acuidade na arte de criar. A linguagem, o fogo, agricultura, são demonstrações que o homem é capaz de desenvolver atividades necessárias à melhoria de seu cotidiano. E desde então ele não parou mais. Nenhuma sociedade parece estar satisfeita com seu legado ou com sua situação. Só quando uma grande tragédia ocorre é que muitos vão refletir sobre o destino que a humanidade está percorrendo (embora não exista um motivo para a humanidade existir).
         A atual crise ecológica (secas, enchentes, terremotos mais intensos) é um bom exemplo desse nosso progresso, sem falar do aquecimento global. Os aspectos deploráveis – frutos da falta de planejamento e exploração incessante do espaço natural – se manifestam numa escala cada vez mais rápida e destrutiva. Assistimos muitos desastres fulminantes pelo mundo. A natureza não tem culpa e sim o homem por maltratá-la em suas pesquisas mesquinhas, visando um efêmero enriquecimento do saber científico. Ele consegue criar prédios esplendorosos, pode prever terremotos, mas não poderá evitá-los nem controlá-los. O homem deveria adequar-se às condições que a natureza possibilita, mas por achar que seus cálculos e estudos são suficientes para superar as forças naturais, ousa invadir, destruir, modificar a natureza. E natureza, aqui, não se refere somente ao reino vegetal, refere-se também ao próprio homem, já que este veio dela e não dos objetos que construiu ao longo dos séculos.
         A tecnologia possibilitou ao homem explorar a si mesmo, o que lhe tirou a relevância no mundo, por se julgar um ser comum como o outro só por ter semelhanças físicas e biológicas. Estamos nos tornando neutros, totalmente previsíveis; somos as reações químicas que ocorrem no cérebro e podemos modificar quem somos com uma droga que atua diretamente no sistema nervoso. Vemos que a sociedade caminha manca para um futuro perigoso, dominado por máquinas inteligentes. E mesmo com a crise no patriarcado, com as mulheres – cuja ótica também se modificou, virou um resquício dos ideais fundamentados pelos homens – ganhando o espaço que lhe pertence, essa situação não vai alterar a jornada máscula que busca a perfeição técnica. Como relata o filosofo Hans Jonas:

É porque a técnica, hoje em dia, interfere em quase tudo o que
diz respeito ao ser humano – viver e morrer , pensar e sentir,
agir e padecer, ambiente e coisas, desejos e destino, presente e
futuro – , em suma, dado que ela se tornou um problema tanto
central quanto ameaçador da existência humana global sobre a
terra, que ela, por meio disso, se converte também numa
questão da Filosofia.
   
         Os impactos ambientais aumentarão, pois devido à densidade demográfica excessiva em relação ao espaço apropriado para se instalar moradias ou mesmo por causa dos cientistas que farão experimentos químicos para desenvolverem supostos meios de controle dos fenômenos da natureza, haverá uma maior desertificação e assoreamento da terra, matando o solo. E quanto maior os estragos no meio ambiente, maior são os riscos à saúde. Viver num mundo (a)natural, mecânico é tirar do homem sua natureza orgânica. Estar rodeado de lixos atômicos, poluição, desespero é o progresso proporcionado pela tecnologia? As únicas coisas boas são de caráter material?
         Estamos num momento de crise, de transição, onde os exageros cometidos pelo homem científico são mais rotineiros nos noticiários. É impossível agora abrir mão de tudo o que construímos, para voltarmos a ser os simples indivíduos vivenciando a pureza do convívio direto com a natureza. Mas, se o homem não sabe o que visa com sua produção tecnológica, não sabe onde vai chegar. Tudo tende a caminhar para o caos. Há muito que ser discutido e exposto, mas não há como desenvolver tudo num único texto. Porém a intenção é gerar uma reflexão coletiva sobre as inquietações apresentadas, ao mesmo tempo quebrar o encanto lançado pelos fios de cobre da era tecnológica, voltando o olhar para os prejuízos causados hoje e que posteriormente ocorrerão amanhã.

Referências:
Capra, Fritjof. O Ponto de Mutação: A Ciência, a. Sociedade e a Cultura Emergente. 25. ed. São Paulo: Cultrix, 1982. 447 p.
Jonas, Hans. O Princípio da Responsabilidade. [S.l.]: Contraponto Editora, 2006.
Marcell Diniz
Enviado por Marcell Diniz em 27/01/2010
Reeditado em 25/01/2012
Código do texto: T2053975

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Sobre o autor
Marcell Diniz
Teresina - Piauí - Brasil, 27 anos
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