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A Interface entre as Marcas de Oralidade e a Construção da Imaginação da Criança nos Contos dos Irmãos Grimm

O primeiro contato da criança com um texto é feito oralmente, através da voz da mãe, do pai, dos avós, contando contos de fadas. Abramovich (1997).

Francisco Geimes de Oliveira Silva- UECE/FAFIDAM
Ana Remígio - UECE/FAFIDAM

Resumo: Este artigo objetiva analisar como os contos de fadas contribuem na aquisição de língua materna devido às marcas de oralidade presente nesses textos de estética literária e, por outro lado, são significativos na aprendizagem, na leitura compreensiva e analítica, na escrita e também para compreender a gramática da língua, fomentamento, sobretudo o processo de construção da imaginação da criança. Foi na prática de ensino do estágio supervisionado I na escola Padre Joaquim de Menezes em Limoeiro do Norte que realizamos a leitura e a aplicação de alguns contos dos Irmãos Grimm: Chapeuzinho Vermelho, João e Maria e o lobo e os sete cabritinhos. Fundamentamo-nos em Abramovich (1989); Anzieu (1997); Caldin (2002); Cashdan (1985); Radino (2003); Reis (2008), entre outros. Conclui-se, pois, que em virtude dessas atividades em classe houveram expressivas contribuições na produção oral, escrita e de leitura influindo decisivamente na construção simbólica da imaginação e da assimilação de valores básicos indispensáveis a formação humana e ao bem-estar psicossocial da criança.

Palavras-chave: Literatura Infanto-Juvenil. Contos de Fadas. Oralidade. Imaginação.

1. Considerações Iniciais
Este artigo visa analisar teoricamente como os contos de fadas contribuem na aquisição de língua materna visto que observa-se que há uma relação importante entre as marcas de oralidade presente nesses textos de estética literária e, por outro lado, há uma significatica aprendizagem, em especial, na oralidade, bem como na leitura compreensiva e analítica, na escrita e também na gramática da língua devido ao processo de construção da imaginação da criança nessa crucial fase escolar.
Dessa forma, constatamos, a priori, que os alunos da  6º série do Ensino Fundamental da Escola Municipal Padre Joaquim de Menezes,  em Limoeiro do Norte, a qual selecionamos para aplicar alguns contos imbutidos nos livros didáticos na realização do Estágio Supervisionado I, constatamos que os alunos obtiveram resultados expressivos ao trabalharem esses textos que aludem a realidade desses alunos.
Para atingirmos nosso objetivo, este texto apresenta a seguinte configuração: em primeiro lugar, apresentamos algumas considerações iniciais e traçamos depois um panorama teórico sobre a) literatura infanto-juvenil: criando novas propostas de ensino em sala de aula e construindo o pensar-ser da criança; em segundo, discutiremos b) a eficácia do discurso literário na formação percepto-simbólica da criança e depois sobre a evolução historiográfica do gênero narrativo conto; em terceiro, ponderamos sobre c) as marcas de oralidade na formação interdiscursiva do conto popular e as características dos contos de fadas: da fantasia à realidade; em quarto, observaremos a d) análise e discussão teórica do corpus dos contos de fadas trabalhados. Finalmente, nas conclusões, apontaremos as contribuições das atividades realizadas para o desenvolvimento das relações entre a oralidade nos contos, bem como seus valores, objetivos de ensino/aprendizagem e seus aportes na construção da imaginação da criança na escola e na sociedade.


2. Literatura Infanto-Juvenil: criando novas propostas de ensino em sala de aula e construindo o pensar-ser da criança

De acordo com Aguiar e Bordini (1993 apud Oliveira 2009, p. 1048), o texto de estética literária infantil estabelece particulares códigos de comunicação com seu leitor, construindo com ele um contrato em que a ligação real entre tempo e espaço não se faz necessária, muito menos aponta para uma determinada situação e a introduz dentro de uma realidade significativa . É certo, portanto, esclarecer que o conto promove o desenvolvimento da criança, motivando-a a ser generosa e solidária, fazendo-a compreender que nem sempre as pessoas são boas e que nem sempre as situações são agradáveis. Por consequência, desperta seu senso crítico, fazendo-a refletir entre o pensar e o agir, entre o certo e o errado.
Poderíamos afirmar que o leitor interrompe sua descrença, aceitando as regras do jogo que a leitura proporciona e dispensa tal realidade pelo tempo que demora a leitura. Deste modo, esse tipo de texto se vale de intenções que o autorizam e o amparam a desprezar essa possível diferenciação no contexto realidade/fantasia, facilitando a interação entre ele e o leitor mirim.
Isto quer dizer que, a contratio sensu, que a literatura infantil é arte, porque representa o mundo através das palavras, unindo o real e o imaginário, o possível e o impossível como coloca Coelho (1997).
Então, esse tipo de texto é voltado para crianças, trazendo uma realidade muito diferente da vivida atualmente, ou seja, foram escritos há muitos séculos, e retratam um mundo fantástico, de sonhos, fadas, princesas e encantamentos. Essa literatura produzida, finalmente, para crianças é uma forma de desenvolver suas habilidades naturais e auxiliar seu processo de amadurecimento. Psicanaliticamente, as crianças identificam-se com os personagens das histórias ouvidas, e isso desempenha um importante papel para sua saúde mental, permitindo-lhes elaborar seus sentimentos mais profundos e contraditórios.

2.1 A eficácia do discurso literário na formação percepto-simbólica da criança: dos aspectos literário-estilísticos ao uso clínico psicanalítico do conto

Compreende-se aqui que o conto é o gênero literário mais moderno e que possui maior vitalidade pela simples motivo que as pessoas nunca deixarão de contar o que se passa, nem de interessar-se pelo que lhes contam bem contado. É geralmente uma história curta, todavia a mais difícil e a mais disciplinada forma de escrever prosa, pois num romance, pode o escritor ser mais descuidado e deixar escórias e superfluidades, que seriam descartáveis, mas num conto quase todas as palavras devem estar em seus lugares exatos. De tal modo que entre suas principais características, estão: concisão, a precisão, a densidade, a unidade de efeito ou impressão total.
A princípio, os contos não eram destinados ao universo das crianças, visto que as histórias eram recheadas de cenas de adultério, canibalismo, incesto, mortes hediondas e outros componentes do imaginário dos adultos. De acordo com Souza (2005) os contos descrevem histórias que narravam o destino dos homens, suas dificuldades, seus sentimentos, suas inter-relações e suas crenças no sobrenatural. Eram relatados por narradores profissionais, os quais herdavam essa função dos antepassados, ou como uma simples tradição transmitida de pessoa para pessoa. Em regra, as narrações ocorriam em campos de lavouras, reuniões sociais, nas salas de fiar, casas de chá, nas aldeias ou nos demais espaços em que os adultos se reuniam (RADINO, 2001; 2003).
Dessa forma, é por isso que esses textos distinguem-se das demais histórias infantis por características como o uso de magia e encantamentos, um núcleo problemático existencial no qual o herói ou a heroína busca sua realização pessoal e, finalmente, a existência de obstáculos a serem enfrentados pelos heróis (CALDIN, 2002; OLIVEIRA, 2001; RADINO, 2003; TURKEL, 2002).
Para o psicólogo Bettelheim (1980), é característica desses contos a presença de um dilema existencial de forma resumida e definitiva. Por conseguinte, Cashdan (2000) afirma que o conto de fada tem quatro etapas: a travessia, a viagem ao mundo mágico; o encontro com o personagem do mal ou o obstáculo a ser vencido; a dificuldade a ser superada; e a conquista (destruição do mal); a celebração da recompensa.
Esse gênero literário se caracteriza por ser uma narrativa cujos personagens heróis e, ou, heroínas enfrentam grandes desafios para, no final, triunfarem sobre o mal. Permeados por magias e encantamentos, animais falantes, fadas madrinhas, reis e rainhas, ogros, lobos e bruxas personificam o bem e o mal. No conto de fadas, tapetes voam, galinhas põem ovos de ouro, pés de feijão crescem até o céu, enfim, traz-se à tona o inverossímil, e é essa magia que instiga a mente humana (BETTELHEIM, 1980; HISADA, 2003; RADINO, 2003).
Caldin (2004) desenvolve sua tese, incrementado que o conto favorece a introspecção, uma vez que, por intermédio dele, a criança tem a possibilidade de pensar sobre seus sentimentos e tem a esperança de que o sofrimento que a acomete venha a ser passageiro. A introspecção, pela literatura, atrai as emoções do ouvinte ou do leitor e tem a capacidade de liberá-las. O autor faz menção especial à criança frágil e ou mesmo doente, pois essa se preocupa em demasia consigo mesma e, portanto, aprecia os textos que falam de seus problemas. A universalização dos problemas é uma garantia de que ela não se encontra sozinha na sua dor.
Considera-se que a leitura ou a narração da história produz reflexões, mesmo quando a criança se encontra sozinha no seu quarto, de dia ou à noite; ao se lembrar da história, pode sentir-se mais reconfortada. Os contos são fonte de prazer para as crianças tanto pelo ouvir quanto pela sua representação. Prazer produz alegria, e alegria é terapêutica, salienta Caldin (idem).

Conforme o referido autor, o discurso literário abre perspectivas para a percepção do mundo do ponto de vista da infância, traduzindo suas emoções, seus sentimentos, suas condições existenciais em linguagem simbólica que efetue a catarse e promova um ensaio geral da vida. Favorecem a socialização pela participação em grupo, e sabe-se que o convívio social mostra-se importante instrumento na cura de doenças. Há que se salientar que, ao conciliar literatura e terapia, o narrador, após a história, deve incentivar a criança a trocar ideias e a realizar um exercício de reflexão entre o real e o imaginário.
Os contos podem ser usados, per suma capita, de forma terapêutica, como mediadores entre o mundo interno e a realidade externa da criança, como dispositivos de contenção de seus aspectos psíquicos, sendo, ainda, uma possibilidade de intervenção em seu processo de desenvolvimento. Enfim, a Psicanálise nos remete que os significados simbólicos que são construídos pela criança através dos contos estão ligados aos eternos dilemas que o ser humano enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional. Logo, o maniqueísmo que divide as personagens em boas e em más, belas ou feias, poderosas ou fracas, etc, facilita a criança a compreensão de certos valores básicos da conduta humana ou convívio social.

2.2 Evolução historiográfica do gênero narrativo conto

Ao discutir-se sobre a evolução dos contos de fadas verificamos que consoante a teoria de Platão, esses textos estão ligados à educação das crianças, pois, as histórias simbólicas eram contadas por mulheres mais velhas ao longo de muitas gerações. É importante observar que existem indícios de que os principais temas de contos de fada se repetem continuamente desde 25.000 anos a.C.
É importante lembrar que a literatura infantil surgiu somente no século XVII, com a descoberta da prensa. As histórias infantis e os contos populares, no entanto, existem desde que o ser humano adquiriu a fala. Há notícias de histórias antigas na África, na Índia, na China, no Japão e no Oriente Médio - como a coleção de contos árabes As Mil e Uma Noites.
Prosseguindo esse percurso histórico, foi em razão da busca religiosa por algum sentido tão presente no século XVIII, que os irmãos Grimm foram levados a escrever contos folclóricos, contando a história da mesma forma que era contada pelas pessoas das redondezas, ou seja, registrando as marcas populares de oralidade do que era relatado para eles.
Segundo registra Cashdan (2000) os contos originalmente são concebidos como entretenimento para adultos, esses textos eram contados em reuniões sociais, nas salas de fiar, nos campos e em outros ambientes onde os adultos se reuniam - não nas creches. Ele amplia ainda que é, por isso, que muitos dos primeiros contos de fada incluíam exibicionismo, estupro e voyeurismo . Em uma das versões de Chapeuzinho Vermelho, a heroína faz um strip-tease para o lobo, antes de pular na cama com ele. Numa das primeiras interpretações de A bela adormecida, o príncipe abusa da princesa em seu sono e depois parte, deixando-a grávida.
Por fim, ele coloca que alguns folcloristas acreditam que os contos de fada transmitem 'lições' sobre comportamento correto e, assim, ensinam aos jovens como ter sucesso na vida, por meio de conselhos. A crença de que os contos de fada contêm lições pode ser, em parte, creditada a Perrault, cujas histórias vem acompanhadas de divertidas 'morais', muitas das quais inclusive rimadas. E ele conclui: “os contos de fada possuem muitos atrativos, mas transmitir lições não é um deles".

2.3 As marcas de oralidade na formação interdiscursiva do conto popular

Na acepção de Guimarães (2003) os contos vincula-se a uma literatura oral, viva e sonora direcionada a um auditório que não sabia ler, porém que determinava a técnica  da exposição da própria narrativa: exposição simples, que segue a sequência lógica, sem pormenor que demore o que não seja indispensável. Ela afirma que a tradição oral é muito diferente da escrita, cujos textos tentam transmitir os efeitos que devem ter dado vida as histórias: pausas dramáticas, olhares maliciosos, gestos para criar cenas, sons para pontuar as acões, como uma cacetada ou batida à porta. Para ela, os contos sempre aconteciam em contextos básicos: casa, aldeia e estradas.
A referida filológa nos diz que,


O conto popular busca [...], sua fonte no imaginário e na memória coletiva, de forma que todo ouvinte ou leitor possa se reconhecer, se identificar, dando sentido ao que ouve ou lê. Há temas que persistem, como o do alimento, não só por fazerem parte dessa memória coletiva, mas também por envolverem uma questão universal, de interesse permanente, já que a sobrevivência da espécie, até hoje, é uma questão não resolvida para parcela significativa da população mundial. (GUIMARÃES, 2003, p. 95-96).

                                                                                                                                                                             
Dessa forma, presumi-se que essas construções interdiscursivas da oralidade no conto traduzem fielmente as verdadeiras condições de vida dos camponeses, por exemplo, não enquanto narrativas fotográficas, mas permitindo que se localize um substrato de realismo social.


2.4 As características dos contos de fadas: da fantasia à realidade

Concebemos, de imediato, que uma obra literária sensibiliza-nos pelo fato de ser construída em torno de um complexo. Segundo Anzieu (1997), quanto mais infantil for a literatura ou quanto mais infantil for a narrativa, mais fantasiosa será ou parecerá. O processo fantasiástico pode ser considerado o organizador inconsciente das produções artísticas, como coloca Laplanche (2001, p. 169),

A fantasia é um roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo e, em ultima análise, de um desejo inconsciente. [grifos nossos].


Isto significa que de acordo com Anzieu (1997), a obra literária é uma criação que envolve tanto acontecimentos relacionados à existência cotidiana, real, quanto acontecimentos de caráter excepcional, fictícios. Ela inventa uma representabilidade para um setor da realidade psíquica, tanto do autor como do leitor, englobando um estado de vigilância e, por um ato criador, as transformações que o pré-consciente opera espontaneamente nos pensamentos latentes dos sonhos.
Compreende-se, pois, que todo esse processo é vivido por meio da fantasia, do imaginário, com a intervenção de entidades fantásticas,


Os contos de fadas mantêm uma estrutura fixa. Partem de um problema vinculado à realidade, que desequilibra a tranquilidade inicial. O desenvolvimento é a busca de soluções, no plano da fantasia, com a introdução de elementos mágicos. A restauração da ordem acontece no desfecho da narrativa, quanto há uma volta ao real. Valendo-se desta estrutura, os autores, de um lado, demonstram que aceitam o potencial imaginativo infantil e, de outro, transmitem à criança a ideia de que ela não pode viver indefinidamente no mundo da fantasia, sendo necessário assumir o real, no momento certo. (AGUIAR apud ABRAMOVICH, 1989, p.120). [grifos nossos].

Entende-se do excerto acima que a magia de um conto de fadas, segundo Abramovich (1989), não está no fato de haver uma fada, já anunciada no título, mas na sua forma de ação, de aparição, de comportamento, de abertura de portas, na sua segurança. Se a criança identifica-se, por vezes, com o herói bom e belo, não é pela sua beleza ou bondade, mas por sentir nele a própria personalização de seus problemas, seus medos e anseios, e, principalmente, sua necessidade de proteção e segurança. A identificação (no caso imitação) com o herói é um caminho para a criança resolver, inconscientemente, seus conflitos, superando o medo que a inibe e ajudando-a a enfrentar os perigos e ameaças que sente a sua volta e assim, gradativamente, poder alcançar o equilíbrio adulto.
A apropriação do texto escrito, sociolinguisticamente, pela oralidade passa por um processo adaptativo ao seu modo discursivo e às peculiaridades da forma oral, sem, contudo, perder as evidências da procedência impressa. Por exemplo, no conto oral, a ação predomina sobre a descrição e os acontecimentos, quase sempre, desenvolvem-se em ordem cronológica.
Do mesmo modo, a adaptação também deve estar em consonância com aspectos geofísico-sociais para imprimir mais concretude a esse gênero, relacionando-o a um contexto referencial conhecido, visando conseguir a instrumentalidade da forma.
3. Análise e discussão teórica do corpus dos contos de fadas trabalhados
Como sabemos os irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, alguns dos autores de contos de fadas mais famosos, foram estudiosos, pesquisadores, que em 1800 viajaram por toda a Alemanha conversando com o povo, levantando suas lendas e sua linguagem e recolhendo um farto material oral que transcreviam à noite. Não pretendiam escrever para crianças, tanto que seu primeiro livro não se destinava a elas.
Só em 1815, Wilhelm mostrou uma certa preocupação com o estilo, usando seu material fantástico de forma sensível e conservando a ingenuidade popular, a fantasia e o poético ao escrevê-lo. Neste trabalho analisamos as marcas de oralidade presente nesses três contos de fadas dos irmãos Grimm : Chapeuzinho Vermelho, João e Maria e o lobo e os sete cabritinhos, associando aos propósitos que cada um tem em relação à formação do imaginário da criança.
Primeiramente, em Chapeuzinho Vermelho, observamos um relato de uma criança que, a pedido da mãe, leva comida para a vovozinha que se encontrava doente. Apesar das recomendações da mãe para que tomasse cuidado com o lobo, Chapeuzinho, no caminho, encontra-se com o lobo, trocando algumas palavras com ele. Sabendo que ela iria para a casa de sua avó, o lobo, apressado, dirige-se para lá, comendo a avó e, em seguida, fingindo ser a avó, devora a Chapeuzinho. Retirada da barriga do lobo pelos caçadores, a menina é salva, e o lobo, com a barriga cheia de pedras, afoga-se no rio ao ir beber água.
Como vemos nos excertos da mãe falando com Chapeuzinho: -- “Vá saber noticias da vovozinha porque me contaram que ela está doente; leva estes biscoitinhos para ela e este potinho de manteiga”. (p. 4). Esclarecemos que Chapeuzinho foi estimulada pela mãe a visitar a vovozinha sozinha, porque ela já estava uma mocinha, isto é, estava crescendo, mesmo assim, a mãe faz recomendações dos perigos da floresta, o lobo, e pede que tome cuidado.
Porém, ela encontra-o, o lobo tem vontade logo de comê-la e hesita por causa dos lenhadores, então ele faz uma pergunta e ela responde: - “Vou visitar minha vovozinha e levar uns biscoitinhos e um potinho de manteiga que minha mãe fez para ela”. Nota-se que o lobo que enganá-la e intentou, então, chegar antes na casa da avozinha para devorá-las. Embora, ela seja comida, ainda escapa e o lobo cheio de pedras na barriga, onde foi tirada Chapeuzinho se afoga no rio.
Já em João e Maria, verificamos que é uma narrativa de duas crianças cuja madrasta convencera seu pai a abandoná-las na floresta por causa da situação de pobreza em que se encontravam. Perdidas na floresta são atraídas pela “casa de doces”, moradia da bruxa que as prende para, após engordá-las, vir a comê-las. No final, Maria consegue empurrar a bruxa no caldeirão, as crianças fogem com pedras preciosas, regressando à casa paterna, onde vem a saber que a madrasta morrera e passam a viver bem e felizes sob a proteção do pai.
Observe um diálogo da madrasta ao direciona-se a eles: -- “Aqui está um pedaço de pão para cada um. Guardem para o almoço, pois seu pai vai cortar lenha muito longe e nós vamos com ele” (p.5). João e Maria já sabiam a pretensão deles que eram deixá-los perdidos, ou seja, abandoná-los na floresta, por isso eles decidiram marcar o caminho de volta, nota-se no discurso oral marcas importantes com nossa atualidade social, no qual muitas crianças são abandonas, infelizmente o fim não é tão mágico como dos personagens acima.
No seguinte diálogo, que é no clímax do enredo, vemos o estado psicológico de desespero de Maria: -- “Que vai ser de nós agora?, perguntou Maria, choramingando de medo”. Já João diz com paciência e calma: -- “Vamos tratar de dormir, disse João. Amanhã daremos um jeito de voltar para casa.” (p.8). Vê-se aqui a idealização feita por eles mesmo com essa situação crítica, eles ainda acreditam que voltarão para casa, porque algo fantástico vai acontecer.
O lobo e os sete cabritinhos conta a história de sete irmãozinhos que precisam ficar alguns momentos sem a proteção da mãe em sua casa. Antes de sair à mãe os previne para não abrirem a porta para ninguém. Mas o lobo, com sua astúcia, consegue disfarçar-se: suaviza a voz e embranquece a pata. Assim, alcança seu intento: penetra na casa e devora seis dos sete cabritinhos. O sétimo cabritinho esconde-se e no final revela à mãe o que acontecera. A mãe salva os irmãos que saem, todos vivos, de dentro da barriga do lobo, e este, com a barriga cheia de pedras, afoga-se no rio ao ir beber água.
Como se salienta nos seguintes excertos: -- "Podemos viver, sem ter mais cuidado. O lobo malvado morreu, no poço afogado." (p.2). - Meus filhinhos, abram a porta. A mãezinha já está aqui, de volta da floresta, e trouxe uma coisa para cada um de vocês. Os cabritinhos disseram: - Primeiro mostre-nos suas patas, para vermos se você é mesmo nossa mãezinha.
Aqui analisamos um aspecto muito presente na constituição nos contos de fadas, o maniqueísmo, do bem que sempre vence o mal, no caso embora o lobo fosse astucioso ao ponto de enganar para comer seis dos cabritinhos, a mãe deles ainda os tira da barriga do lobo, e no lugar põe pedras; então, o lobo vai beber água e morre afogado.


Esses contos de fadas estão estreitamente relacionados à oralidade da criança, já que envolvem a voracidade da pulsão oral. Chapeuzinho Vermelho fala do lobo que comeu  a vovozinha e tenta, a todo custo, comer a Chapeuzinho; em diferentes momentos e cenas, desde o gesto da mãe de mandar comida para a avó enferma, à busca insaciável do lobo por alimento, ao gesto dos caçadores de “encher a barriga do lobo de pedras”, a pulsão oral está presente.
João e Maria mostra dois irmãos encantados pela casa de doces que, ao final, não se contentam só com isso, e acabam desejando comer também a bruxa, que, por sua vez, deseja comer as crianças e faz disso seu maior desejo. O lobo e os sete cabritinhos revela a figura do lobo mau que, em uma emboscada, come vorazmente não apenas um cabritinho, mas seis e se o sétimo escapa é porque se esconde. Nos três contos, o desejo de comer e a ameaça de ser comido, a voracidade e a insaciabilidade permeiam as narrativas.
Esses contos de fadas estão fundados, portanto, na pulsão oral, não se referem só ao ato de comer, mas também à voracidade, à agressividade. Ressalte-se que a agressividade deve ser vista não como algo negativo, mas como algo inerente a todo ser humano, que opera regido pelas pulsões, estando presente em todas as relações estabelecidas, sendo, portanto, de fundamental importância para a sobrevivência e para o desenvolvimento de cada ser humano.
Considerações Finais
Concluímos, portanto, que segundo Reis (2008, p. 18), o uso de contos de fadas possibilita aos aprendizes uma exposição a diferentes tipos de palavras através das histórias. Porque novas palavras são aprendidas a cada história e, ao mesmo tempo, está-se em contato com outras aprendidas anteriormente e que, continuamente, repetem-se. Este vocabulário aprendido através de um contexto é importante, e se as instruções para tal aprendizado acontecem de modo sistemático e com exercícios explícitos, isto pode ajudar a expandir o conhecimento do léxico.
Essas constatações nos levam a concluir que a leitura de contos de fadas pode ajudar a criança a enfrentar seus conflitos e medos de forma menos ameaçadora, e a encontrar no universo simbólico e mágico da fantasia indícios importantes para construir e solidificar sua constituição psíquica.
Neste trabalho, os contos de fadas que sustentam aqui as considerações propostas sendo que, Chapeuzinho Vermelho, João e Maria e O lobo e os sete cabritinhos, estão estreitamente relacionados àquela pressão ou força que move os sujeitos e, particularmente, à pulsão oral, visto que envolvem a oralidade e a voracidade. Chapeuzinho Vermelho coloca em cena um lobo que come a vovozinha e tenta, a todo custo, comer a protagonista da história; João e Maria mostra dois irmãos encantados pela casa de doces que, ao final, não se contentam só com isso, e acabam desejando comer também a bruxa, que, por sua vez, deseja comer as crianças e faz disso seu grande desejo. O lobo e os sete cabritinhos revela a figura do lobo mau que também come vorazmente não apenas um cabritinho, mas seis, e se o sétimo escapa é porque se esconde.
Nos três contos, o desejo de comer e a ameaça de ser comido, a voracidade e a insaciabilidade permeiam as narrativas, por isso que a construção dos contos é monotípica, já que podemos encontrar repetições de algumas funções e a ausência de fadas.
Presumi-se aqui, finalmente, que a escola como espaço educador e socializador deve ser atuante, entendendo que a criança não é um ser passivo, sem autonomia e sem direito a reflexão. Dessa forma, esse espaço escolar deve ser, portanto, um meio diversificado na formação ética e cultural da criança, propiciando atividades que envolvam a ordem física, afetiva, cognitiva, ética, estética, de relação interpessoal e inserção social.
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Geimes Oliveira
Enviado por Geimes Oliveira em 06/02/2010
Código do texto: T2072790

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