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Uma visão sobre "Helena" - Machado de Assis

Análise Literária: Helena (Machado de Assis)
ASSIS, Machado. Helena/ Iaiá Garcia. São Paulo: Cultrix Ltda, 1959.
“...cada obra pertence ao seu tempo.” M. de Assis

Filho de pai pintor, descendente de escravos alforriados e mãe lavadeira; veio de escola pública, tinha vários motivos para ser apenas mais um, porém, Machado de Assis é um dos grandes nomes da poesia, do romance, da dramaturgia, enfim, da literatura brasileira. Suas obras serviram, dentre outras coisas, de base para historiadores desvendarem os mistérios do convívio social de épocas passadas, além de representarem os enlaces hierárquicos que conduziram o Brasil no período da escravidão. Muito do que se sabe hoje, sobre o processo escravocrata, deve-se às brilhantes narrativas machadianas. Sabe-se também, que Machado exprimia seu repúdio à escravatura e pôde contribuir na aplicação da Lei do Ventre Livre enquanto se encontrava funcionário da Diretoria do Ministério da Agricultura.
“Helena”, obra de Machado de Assis, teve sua primeira publicação no ano de 1876, em folhetim de O Globo. Trata-se de um romance que supera a arte da estética romântica, causando expressão do realismo interior, buscando o trágico da protagonista central da obra. Segundo Massaud Moisés, em nota preliminar na obra, Helena é um dos poucos exemplos de verdade artística e humana negativa, negra, mas nem por isso menos verdadeira. As descrições apresentadas por Machado são constituídas de interrupções e mistérios que envolvem a vida da personagem, cujo nome, intitula a obra e desencadeiam num misto de destino e mistério, fatalidades e surpresas. A obra é um diferencial da primeira fase da carreira de Machado, pois nesta, nota-se a fuga do romantismo exacerbado e melancólico, culminando na vida trágica da protagonista durante o desenrolar da narrativa que é feita pelo narrador observador.
O drama vivido por Helena não se diferencia da vida pregressa de muitas mulheres da época, uma vez que, a supremacia feminina do século XIX ainda estava sujeita às vontades de seus senhores. Na obra, vê-se claramente, a submissão da protagonista em relação ao seu irmão Estácio, sua tia d. Úrsula, seu legítimo pai Salvador e ainda à cláusula testamentária. Ambos estavam subordinados à igreja, pela pessoa do padre Melchior, e todos estes, seguiam a pretensão de executar as vontades de um morto: o Conselheiro Vale, cujo testamento lhe indicava o que deveria ocorrer em sua ausência. Vale ressaltar que a narrativa possui traços da crítica ao simplismo romântico e não emite determinados exageros do romantismo. O preconceito fez-se presente, pois o período em si, mantinha a preocupação sob o ponto de vista da sociedade. Nada mais inquietante que supor as críticas da elite acerca de uma filha bastarda ou escândalos proeminentes. Helena foi acolhida, a princípio, sob ares de desconfiança e repressão, posteriormente, todas as más impressões se desfizeram e a jovem passou a ser exaltada. Neste aspecto vemos a centralização numa determinada personagem.
Machado de Assis relata os personagens e suas histórias causando um suspense aos leitores, fazendo-os imaginar mil e uma maneiras de desvendar os mistérios que vão despontando no percurso da narrativa, mas, de forma brilhante, o autor surpreende e culmina num fim extraordinário, embora trágico. As características de alguns personagens travadas na obra retratam propriedades da sociedade do período, ou seja, elementos como a ganância por dinheiro e status social presentes em Dr. Camargo, uma vez que posicionou-se contra o reconhecimento de Helena no seio da família de Estácio, por achar que esta, tomaria parte da herança que sua filha herdaria, caso cumprisse os seus planos de casá-la com o filho do finado Conselheiro Vale. O próprio Machado tece comentários críticos acerca do Dr. Camargo, comparando-o com um réptil. (cf. Assis, 1959, cap.VII). Isso comprova que Machado escreveu em suas obras a história do Brasil no século XIX, estando preocupado em interpretar o sentido dos relatos à vista do seu tempo. Segundo Schwarz (In: Chalhoub, 2003), as obras machadianas perfazem um comentário “estrutural” da sociedade brasileira do século XIX, tratando dos aspectos relacionados às autoridades e explorações do período. Para Chalhoub (2003), “Helena” traça uma representação da sociedade brasileira numa época de preponderância política cultural, reproduzindo as relações de desigualdades da década de 1850. Ele ainda diz que “... é preciso ler Helena em suas duas historicidades: a da narrativa – ano 1850 – e a do autor – 1876 -,” (op. cit. p.19).
Machado de Assis utiliza a descrição em toda a narrativa de Helena, especialmente nos capítulos introdutórios, em que aborda a “ideologia senhorial”. O personagem conselheiro Vale, representa a família tradicional das primeiras classes da sociedade e estabelece a supremacia entre os demais personagens. É a posição social do pai de Estácio que desencadeará as demais relações, enfatizando assim o projeto de dominação: mesmo após a morte, sua vontade prevaleceu, ainda que, por meio de testamento.
Estácio, o “único filho” do conselheiro, era formado em matemáticas e possuía temperamento pacato, voltado à família; D.Ùrsula, irmã do finado, possuía temperamento mais firme e a princípio, não admitiu que o irmão manipulasse seus sentimentos em relação à Helena. O que, de fato, incomodava D. Úrsula era o preconceito de classe, por considerar a filha bastarda de posição inferior à sua. Fato este, muito comum até os dias de hoje.
A maneira como Machado descreve Helena é típica do período. Ele não poupou elogios: “... conseguia polir os ásperos, atrair os indiferentes e domar os hostis.” (ASSIS, 1959. p. 31) Além destas, Helena possuía uma característica própria, um método pelo qual conseguia envolver todos à sua volta, induzindo-os e detinha uma visão ampla acerca da sociedade a qual fazia parte. Talvez, por isso, sabia conduzir as situações que por ventura aparecessem. Apesar do pouco tempo de convívio com Estácio, a protagonista revela seu espírito sagaz e conhecedor em relação às atitudes e sentimentos do irmão. Podemos identificar tais dissimulações e astúcias, como características marcantes nas personagens/ protagonistas femininas de Machado de Assis.
Por ser, Machado, um grande historiador, ele introduz em suas obras, críticas camufladas, aos acontecimentos do seu tempo. Exemplifica-se a partir do seguinte fragmento da fala de Estácio: “Nunca experimentei a necessidade; mas imagino que o pior que há nela não é a privação de alguns apetites ou desejos, de sua natureza transitórios, mas sim essa escravidão moral que se submete o homem aos outros homens.” (op.cit. p. 45). Entende-se que esta fala refere-se ao sistema escravista que existia no Brasil naquele período, conforme sabemos, que “A escravidão é a situação de máxima dependência nessa sociedade em que o centro da política de domínio é a produção de dependentes.” (CHALHOUB, 2003. p. 28). Ainda hoje há processos de exploração moral e dependência humana em nosso país. Em Helena a figura que mais representa a classe escrava é o pajem Vicente, que a servia com estima e apreço desde sua chegada à casa dos senhores; e não havia naquela relação interesses, pois a possibilidade de liberdade era bastante remota.
Conforme alguns historiadores como Chalhoub, Machado de Assis descreve e interpreta a sociedade do período anterior à crise de 1871, ou seja, o momento turbulento em que o Brasil estava passando pelo “fim da escravidão” através da Lei do Ventre Livre. Já Schwarz, atesta que a obra “Helena” contribui para o “aperfeiçoamento do paternalismo” existente em tal época. Para um leitor alheio ao contexto histórico, a obra machadiana trata-se apenas de um romance esplêndido, porém, distante desses aspectos abordados por especialistas em história, principalmente história da escravidão, uma vez que o autor não trata o contexto de forma explícita.
A figura da mulher no século XIX ainda estava submissa à sociedade, mais precisamente à figura do homem, porém já se incorporava um espírito independente e dominador, tal qual o de Helena. A mulher retratada por Machado de Assis em “Helena”, trazia um pouco do idealismo, onde os planos maiores estavam na formação de um lar, no casamento e até mesmo nos mimos, como era o caso de Eugênia, noiva de Estácio. A Helena quebrava, em parte, esta pretensão, uma vez que afirmou não pretender casar-se, embora a sociedade a levasse para tal caminho. Os casamentos do período pareciam negócios entre famílias, em troca de melhoramento social e financeiro. Não que o sentimento fosse insignificante, só não estava em primeira instância. Para exemplificar, temos o amor entre Helena e Estácio, que, após ser descoberto e não havendo mais empecilhos (o suposto incesto, caso fossem irmãos biológicos) foi ignorado com o objetivo de não causar escândalos perante a sociedade.
Conforme a historicidade, nas últimas décadas de escravidão podia-se encontrar escravos bem vestidos e fazendo usos de calçados. Atos semelhantes faziam com que houvesse uma confusão de classes, onde era difícil a identificação de escravos e não escravos. Machado procurou relatar esse contexto histórico ao citar: “O pajem... ao mesmo tempo, com a liberdade que dá a confiança e a cumplicidade fumava um grosso charuto havanês, tirado às caixas do senhor.” (ASSIS, 1959. p. 91)
A maneira como Machado narra a história, ou seja, a descrição e a riqueza de detalhes, enfatizando as características dos personagens, bem como, o espaço onde se passa a trama, revelam a grandiosidade e o poder em obter a atenção do leitor, fazendo-o visualizar cada cena. O tempo transcorre linearmente e pode-se notar características cronológicas e psicológicas, simultaneamente. Para Moisés (1981), o tempo é um fator de extrema importância na prosa de ficção, já que, em torno dele desencadeiam os demais fatos históricos da narrativa. O espaço é caracterizado pela natureza, mais precisamente na fazenda de Andaraí. Machado ainda faz uso de vários recursos narrativos, tais como: o diálogo entre os personagens, a descrição e a narração.

Referências:
ASSIS, Machado. Helena/ Iaiá Garcia. São Paulo: Cultrix Ltda, 1959.
CHALHOUB, Sidney.  Machado de Assis: historiador. São Paulo: Cia. das Letras, 2003. 344 p.
MOISÉS, Massaud. A análise literária. São Paulo: Cultrix, 1981. 270 p.
Jamille Araujo
Enviado por Jamille Araujo em 10/02/2010
Código do texto: T2079021

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