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João de Santo Cristo em sua dupla realidade: O conceito de Formação Discursiva em Faroeste Caboclo, composição de Renato Russo.

Karina do Carmo Cintra
Mayara Lucio Farche

Orientadora: Profa. Ms. Maria Silvia Pereira Rodrigues Alves Barbosa

Resumo: Propomos, neste artigo, uma análise da música Faroeste Caboclo, composição de Renato Russo. Faremos nossa investigação a partir do conceito de Formação Discursiva, sob as considerações de Foucault e Pêcheux, estudiosos da Análise do Discurso. Serão abarcadas, para nosso trabalho, as fases da Análise Discurso, bem como seu surgimento e principais influências nos estudos atuais. Nossa fundamentação teórica, no que tange os estudos da Análise do Discurso, se alicerça nos preceitos de Mussalin (2004) e Foulcault (1969). Para o entendimento e compreensão da música, nos baseamos em fatos da vida do compositor Renato Russo, sob as perspectivas de  Dapieve (2006) e Marchetti (2001). Posteriormente, selecionamos trechos da música que nos serviram de objeto de estudo para nossa análise, cujo foco foi o conceito de Formação Discursiva.

Palavra-chave: Análise do Discurso; Renato Russo; Faroeste Caboclo; Formação Discursiva.

Introdução

Renato Russo estava no auge de sua carreira com o grupo de rock Legião Urbana, quando faleceu em 1996. E mesmo depois de tanto tempo, suas músicas, ou melhor, suas poesias musicadas, ainda são ouvidas por jovens. Desde o final da década de 70, muitas pessoas ouvem e se identificam com letras como “Que País é Este?”; ou cantam apaixonados “Monte Castelo”, uma junção de textos de puro sentimento, musicados de forma tão bela.
Neste ano, 2009, a música Faroeste Caboclo, composição de Renato Russo, completa 30 anos. Uma música de difícil memorização, devido aos seus 159 versos sem estribilho, narra a história de uma personagem muito interessante, João de Santo Cristo.
Propomos, neste artigo, uma análise da música sob a perspectiva da Análise do Discurso (AD) francesa. Faremos um breve estudo sobre o surgimento da AD e então abordaremos sua evolução, considerando os estudos atuais. Veremos, em seguida, suas fases, aprofundando na segunda fase, que versa sobre Formação Discursiva, conceito que será útil  para nossa investigação.
Posteriormente, faremos uma breve biografia do compositor Renato Russo. A partir dos estudos do material, e da vida do cantor, faremos as considerações e análise dos versos.

1 Surgimento da AD

A Análise do Discurso (AD) se desenvolveu nos meados dos anos 60 na França, na mesma época do aparecimento do estruturalismo. Dois estudiosos foram importantíssimos para o estudo do discurso: Dubois, que era linguísta, e Pêcheux, filósofo envolvido com o marxismo. A ligação entre essas duas personalidades em seus trabalhos é a preocupação com atividades sociais e políticas, então o discurso aparece como uma intervenção entre o homem e a realidade social.  Outro ponto importante no estudo da análise do discurso é o estudo baseado na psicanálise desenvolvida por Lacan a partir de estudos de Freud, como o afirma Ferreira:

A Análise do Discurso nasceu em uma zona já povoada e tumultuada – de um lado, numa esquina, ocupando quase todo o quarteirão – a lingüística; na outra ponta espaçosa, o materialismo histórico, e no meio dividindo o espaço lado a lado com a psicanálise, a teoria do discurso. Portanto, essa contigüidade, esse convívio fronteiriço entre análise do discurso e psicanálise vem de longe, vem desde o início. Tais vizinhas, contudo, ainda que bastante próximas, guardam distância e não confundem seus espaços comuns – são íntimas, mas nem tanto, donde há “estranha intimidade” (FERREIRA, 2005 p.213).

Esse conceito de psicanálise, como já dito, veio de Lacan, que estudou as abordagens de Freud em relação à descoberta do inconsciente em formas linguísticas, e de todo esse estudo, o que importa pra AD “diz respeito ao conceito do sujeito, definido em função do modo como ele se estrutura a partir da relação que mantem com o inconsciente, com a linguagem, já que, para Lacan, ‘a linguagem é condição do inconsciente’. (MUSSALIN, 2004 p.107).
Ressaltamos também, que o estruturalismo contribuiu com o aparecimento da Análise do Discurso, pois na vertente de Saussure: o primeiro relacionava de formato binário a estrutura da língua dentro de um mesmo sistema lingüístico. A esse respeito podemos considerar que “a língua não é apreendida na sua relação com o mundo, mas na estrutura interna de um sistema fechado sobre si mesmo”.(MUSSALIM, 2004, p.102). Nesse período aparece Jakobson, que é considerado estruturalista por abordar o processo comunicativo (remetente, destinatário, código, mensagem, contexto, canal) que se relacionam entre si em um sistema fechado.
No entanto, existem partes que desviam radicalmente os caminhos de estruturalismo e de Lacan na sua psicanálise. O estruturalismo diz respeito à inserção do sujeito na estrutura, e no segundo ponto dedica-se a maneira como surge a relação do sujeito com o Outro (o inconsciente), que se realiza no processo de comunicação de Jakobson. Ainda nessa ideia, Jakobson estuda uma simetria entre seus interlocutores, não considerando nenhuma superioridade entre o sujeito e o Outro. Lacan nega essa simetria, dizendo que o Outro ocupa um domínio maior que o sujeito.
Nessas abordagens, o estudo lacaniano foi fundamental para a fundação da Análise do Discurso. Como já foi estabelecido por Mussalim (2004), completamos que a AD estava ligada à um objetivo político, e na área da Linguística, haverá meios para abordar essa política, uma relação entre a linguística e a ideologia: a linguagem é a forma privilegiada em que a ideologia é apresentada.
O campo da linguística opõe um núcleo rígido a uma periferia de contornos estáveis, que entra em contato com a sociologia, psicologia, história, filosofia; um outro núcleo é o de contornos instáveis, ao contrario se refere à linguagem apenas à medida que esta faz sentido para sujeitos inscritos em estratégias de interlocução em posições sociais ou em conjunturas históricas.

1.1 Fases da Análise do Discurso

Desde o seu surgimento, a AD passou por uma evolução que pode ser divididas em três fases.
De acordo com Mussalim (2004) a primeira época da Analise do Discurso (AD – 1) explora a análise de discursos mais “estabilizados”, no sentido de terem uma menor abertura para variação do sujeito e pressupõe-se que tais discursos sejam produzidos a partir de condições de produção mais estáveis e homogêneas, no interior de posições ideológicas e de lugares sociais menos conflitantes.
Exemplos dessa primeira fase seriam os discursos políticos teórico-doutrinários, como o manifesto do Partido Comunista. Os procedimentos de análise para essa etapa da AD são realizados em partes, tais como: a) seleciona-se um corpus fechado de sequências discursivas, isto é, seleciona o texto que será estudado; b) faz-se a análise lingüística, considerando as construções sintáticas (de que maneira são estabelecidas as relações entre os enunciados) e o léxico (levantamento de vocabulário); c) passa-se à análise discursiva, construindo um sítio de identidade da percepção da relação de sinonímia e de paráfrase; e por último, provas que esta relação acontece numa mesma estrutura geradora de processo discursivo. A AD – 1 é nomeada de ‘Máquina Discursiva’ por ser uma estrutura que forma o processo discursivo a partir de um conjunto de argumentos.
Na segunda fase da Análise do Discurso, conhecida como AD – 2, o conceito de máquina discursiva começa a perder o poder, e a partir de estudos do filósofo Michel Pêcheux e de Michel Foucault, surge o estudo da ‘Formação Discursiva’ (FD); Para a AD - 2, a Formação Discursiva tem um espaço que vem a ser atravessado por outras Formações Discursivas, aquela que determinara o que pode ou deve ser dito a partir de um determinado lugar social, e será invadida por elementos que vêm de outro lugar, de outras FDs. Assim, o objeto de análise é as relações entre as máquinas discursivas. Como diz Mussalin (2004), o papel do sujeito nessa fase da AD sofre uma alteração. O sujeito passa a ser concebido como aquele que desempenha diferentes papéis de acordo com as várias posições que ocupa no espaço interdiscursivo.
Na verdade a destruição completa na primeira fase da AD, que explicava a máquina discursiva, acontece na terceira fase da Análise do Discurso (AD - 3). Nessa etapa, o sujeito sofre um deslocamento que inaugura uma nova vertente. A concepção de sujeito é definida de uma forma um pouco menos estruturalista (POSSENTI, 2002 apud MUSSALIN, 2004). Afirmando-se assim, na AD - 3, o primado do interdiscurso sobre o discurso, como um sujeito heterogêneo, clivado e dividido entre o consciente e o inconsciente. O primeiro perde a sua centralidade, quando o segundo passa a fazer parte de sua identidade. Pode-se dizer, que a ideologia é a condição para a constituição do sujeito e dos sentidos.

1.2 Formação Discursiva

A partir das especulações das três fases da AD, a segunda e a terceira fases são as que alicerçam os estudos atuais. Decidimos, para nossa investigação, refletir sobre o conceito de Formação Discursiva (FD).
No escopo da Análise do Discurso, a ideia de Formação Discursiva está relacionada com a problemática do sujeito. Seu surgimento se dá em diálogo de dois estudiosos dessa disciplina: Pêcheux e Foucault, cujos teóricos muito contribuíram para a relação entre Discurso, Sujeito e História.
Na perspectiva de Foucault, a linguagem se coloca em movimento pelos discursos, então são esses discursos que instituem os objetos que falam; é a discursivização, o falar sobre que constitui o “referente”, ou seja, ele não parte da sua análise a partir do sujeito ou do objeto, porque esses elementos não existem no momento. Eles só irão existir a partir de sua constituição por uma prática dentro da sociedade e, também, a partir da construção de identidade do sujeito, que será histórica, temporal, predestinado ao desaparecimento. Para Foucault (1969) O Sujeito não possui linguagem, ele apenas a usa.
O mesmo autor relata a FD de forma que se aplica ao lado ideológico – sem abordar na mesma perspectiva marxista – e não em vista dos objetos linguísticos, como proposições, atos de frase etc. Na parte ideológica, creem que as ideologias abordadas nos saberes e poderes, não passariam necessariamente pela ideologia de luta de classes, explicadas por Marx.
A partir desses estudos, e nas condições que a mídia contemporânea produz, Foucault aplica a ideia de arquivo. Arquivo representa o conjunto dos discursos efetivamente pronunciados em uma época dada e que continua a existir através da história, tendo uma ideia de “clássico”. Fazer entender essa arqueologia é buscar compreender as suas regras, suas práticas, suas condições de funcionamento.
Pêcheux, quando traz para a análise do discurso o conceito de Formação Discursiva, relaciona tal ideia a questão da ideologia e luta de classes, consideradas por Marx. Em suas perspectivas, ficam evidentes duas bases: de um lado, a ideologia já dita, e do outro, o apoio na Linguística, em que se fizeram presentes os gêneros do discurso, um dos componentes da materialidade lingüística. Na noção de FD, o foco continua sendo o aspecto de posição do sujeito da Formação Discursiva.
Aproximando as abordagens dos dois teóricos, apesar de terem perspectivas de polos quase extremos, consideramos as abordagens dos dois filósofos, tendo nesse estudo uma conclusão de que os discursos devem ser ligados de forma intradiscursiva e interdiscursiva, conceitos importantes para a AD, por estarem relacionados a outras questões principais (Courtine,1981 apud Granjeiro, 2007). Como a memória discursiva, que aprofunda ideia de relação da linguagem com os processos sócio-históricos e também com a questão de não-evidência do sentido.

2. Caminhos de Renato Russo

Renato Russo não gostava muito de ser considerado o novo porta-voz da juventude. Dizia então, “Eu escrevo justamente porque não sei”. (DAPIEVE, 2006 p.98) e que não via o porquê das pessoas ouvirem e seguirem suas músicas de forma tão idolatrada. Assim dizia Renato Manfredini Júnior, popularmente conhecido como Renato Russo, o compositor e vocalista da maior banda de rock que o Brasil teve nos anos 80 e 90: Legião Urbana.
Renato nasceu em 27 de março de 1960, no Rio de Janeiro. Desde pequeno, teve um gosto forte pela leitura, pelo cinema e o gosto pela música. Aos 13 anos, Renato e a família Manfredini mudam-se para Brasília.
Aos 18 assumiu para sua mãe a homossexualidade e, mais tarde, divulgou-a ao público, na tentativa de mostrar às pessoas que aquilo não era uma doença e, o preconceito deveria ter um fim. Também nessa sua fase jovem, o estilo musical punk invadiu o Brasil e, a partir dele, aumentou o seu apetite perante a música, surgindo a vontade de tocar e montar bandas de rock.
Uma de suas características marcantes era ficar facilmente magoado com um acontecimento transmitido na televisão. Notícias desagradáveis como a fome, acidentes e mortes deixavam-no deprimido, se sentia culpado e expressava isso, muitas vezes, em suas composições. Sua mãe, Dona Maria do Carmo, tinha a sensação de que Júnior (assim apelidado pelos familiares) “carregava o mundo nas costas” (DAPIEVE, 2006, p. 51).

2.1 Turma da Colina

Quando mudou-se para Brasília, Renato teve uma adolescência cheia de transformações e novos conhecimentos, oportunidades e rodas de amigos. Essa turma de amigos que ele teve nessa fase era conhecida como Turma da Colina, referindo ao local próximo a UnB, um dos pontos de encontro da “Turma”.
A turma surgiu em meados de 1976, quando a cidade era recém-formada, com poucos habitantes. Para os jovens, como Renato então, pertencentes à classe média alta, a cidade era um tédio, porque tinham poucas opções de lazer.
Com o movimento punk explodindo pelo mundo e outros adolescentes voltando de intercâmbios no exterior e trazendo instrumentos modernos, LP’s e sons diferentes, fizeram com que aparecesse um grupo de amigos ao qual dedicaram a maior parte de seus tempos às bandas e às farras. Ao longo de dez anos, nessa brincadeira de montar bandas de rock, surgiram várias delas que teriam uma importante carreira pela frente, como por exemplo, os outros ex-integrantes da Legião Urbana, integrantes do Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Raimundos e outros grupos conhecidos no cenário musical.
Renato era considerado um dos gênios da Turma, organizava as farras, fazia as melhores composições, era visto como uma pessoa diferente, por ter uma cabeça mais desenvolvida em relação a dos colegas. Tinha um carisma enorme por todos, valorizava muito aquelas amizades. Nesse período, usou drogas e, após alguns anos deixou a dependência química. Na fase da Turma da Colina, esses jovens não se preocuparam com o futuro, sempre curtiam o momento e a sede pela música expressiva. Dentro da Turma, Renato teve duas bandas: Aborto Elétrico, formado por Felipe Lemos (ou Fê Lemos, atual baterista do Capital Inicial) e André Pretórius e, a Legião Urbana, que depois de algumas entradas e saídas de integrantes, ficou formada por Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá.

2.2 Faroeste Caboclo

Não seria estranho falar que Russo teria o dom para escrever as músicas. Tanto no Aborto Elétrico como na Legião Urbana, as composições foram feitas a partir do nada: alguém entrava com um acorde, com alguma melodia que inventava e, Renato, ali mesmo, compunha algo que surgia a partir da melodia. Relacionando a questão temática de suas músicas, Babu, amigo da época da Turma da Colina, disse: “Tente perceber uma coisa nas letras do Renato: ele fala o que as pessoas querem escutar, e pra ter essa percepção, tem de ser informar com as pessoas em sua volta. Então, eu acho que ele fazia uma espécie de laboratório com essas gravações”. (Babu apud MARCHETTI, 2001, p. 75).
Nessa frase, Babu tenta explicar um hábito “estranho” que Júnior tinha, o de gravar suas conversas com os amigos, fazendo perguntas para refletir sobre a vida, além das questões político-sociais retratadas em outras músicas, como Faroeste Caboclo.
A música, escrita em 1979 (no tempo da sua primeira banda), Renato considera João de Santo Cristo, uma “personificação do próprio Brasil”. Alguns acontecimentos e lugares que ele e os amigos frequentaram na capital do Brasil, como a Rockona (festa que misturava sons de rock com uso de maconha), foram citados na música.
Dizia Fê Lemos que as personagens da música foram inspiradas através de um ciúme que Renato tinha desse com outros amigos. Segundo Felipe Lemos: “(...) e na história da música o vilão se chama Jeremias, que – tenho certeza – foi inspirado no Jeremy (amigo de Fê), e Maria Lucia, namorada de João de Santo Cristo, tem o mesmo nome da minha mãe”.(Felipe Lemos apud MARCHETTI, 2001, p. 78).
Renato chegou a roteirizar a música para a cinematografia, quando fosse se dedicar à sétima arte, popularmente conhecida como cinema. Na composição da letra, ele conta que a produção “(...) é uma mistura de Domingo no Parque de Gilberto Gil, e coisas do Raul Seixas com a tradição oral do povo brasileiro. Brasileiro adora contar história. E eu também queria imitar”. (Renato Russo apud ASSAD, 1996, p. 103).
A música narra a trajetória de João de Santo Cristo, personagem do sertão brasileiro, que se muda para Brasília para tentar uma melhora de vida, mas não começa bem, tornando-se traficante local. Logo se livrou dessa condição ao apaixonar-se por Maria Lucia, e tenta uma vida mais honesta. Aparece um traficante rival na saga, o Jeremias, e eles brigam pelo amor de Maria Lucia. No final, há um duelo e os dois acabam mortos. Maria Lucia também morre e, João de Santo Cristo se torna, para a classe mais popular, um santo devido a sua coragem na luta.

2.3 URBANA LEGIO OMINIA VINCIT  (A Legião Urbana tudo vence).

Em meados de 1981, o Aborto Elétrico chega ao fim; Júnior se dedica por um tempo como “O Trovador Solitário” (nome de sua turnê), tocando sozinho ao violão. Com o tempo, surge a ideia de montar a Legião Urbana. Depois de então fixar os integrantes, em 1983, o grupo ganha a sua forma. Em 1984, lançam o seu primeiro álbum, com o próprio nome da Banda. A partir daí, A Legião virou sensação pelo Brasil, com seu ritmo forte e marcante, letras provocativas, conquistando uma legião de fãs, que qualificou a banda por um tempo como “Religião Urbana”, nome que todos os integrantes odiavam.
Renato Russo planejava fazer uma nova banda de rock, havia também um novo nome, inspirado na frase em latim Urbana Legio Ominia Vincit (A Legião Urbana tudo vence). Surgiu então a banda que fez muito sucesso nos anos 80: Legião Urbana.
Júnior lançou mais oito álbuns com o grupo e dois solos até 1996. Em 11 de outubro do mesmo ano, faleceu, vítima de AIDS, havendo sido portador da doença há 6 anos. Depois disso, lançaram oito álbuns póstumos, incluindo Acústico MTV, Shows ao vivo e um solo, com entrevista e músicas até então não apresentadas aos fãs.
Após treze anos de sua morte, Renato continua sendo lembrado pelos familiares e amigos e, ainda hoje, suas músicas conseguem representar as pessoas, provocá-las por serem sua forma de expressão. Há composições que mostram os problemas de nosso país e, mesmo depois de muitos anos, continuam atuais, já que os problemas daquela época se refletem nos tempos modernos.

3 Pondo em prática

Depois de conceituarmos a Formação Discursiva a partir dos estudos de Michel Foucault e Michel Pêcheux, iniciemos a análise de nosso corpus: a canção Faroeste Caboclo.
Em 1979, aproximava-se o fim da Ditadura Militar, depois de tantas pessoas torturadas, desaparecidas ou exiladas, por não poderem expressar exatamente o que desejavam para si e para o próximo. Nesse momento, do quase declínio da ditadura, que aparece como um “presente”, o estilo musical punk, no qual expressava através de seu som forte, letras com certa rebeldia, por algum motivo. No caso de Renato, a rebeldia era expressada pela indignação pela política e sociedade do Brasil.
Mas, infelizmente, a TV e os jornais desse tempo tinham ainda a função de mostrar que no país estava tudo bem, em questão econômica e social, omitindo tudo (ou quase tudo) que pudesse prejudicar essa visão do Brasil. Na música de Renato, ao longo da história, destacam-se dois aspectos: a visão Burguesa do país e a visão real que a classe baixa presenciava. Podemos dizer que as FDs que discutiremos nesse texto serão a FD Burguesa versus FD Realidade Social.  Partimos, então, para a nossa análise que se organizará com a apresentação do trecho da música seguida do comentário embasado teoricamente. Informamos que a música, na íntegra, é apêndice deste trabalho.

“Não tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu
Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu
Era o terror da cercania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu”
(RUSSO, R. Que País é Este 1978/1987)

Na primeira estrofe há claramente, a realidade social: pessoas que passam por necessidades logo na infância, no caso de João, seu pai foi morto e por isso se perdeu logo quando criança, pensando em ser bandido, tendo ódio das coisas a sua volta e, ainda tinha um temperamento forte que influenciava as pessoas de seu convívio.

“Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar
Sentia mesmo que era mesmo diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
E de escolha própria, escolheu a solidão.”
(RUSSO, R. Que País é Este 1978/1987)

A partir da 3ª estrofe, fica mais explícito o conflito entre a FD Burguesa e a FD Realidade Social, no momento em que continua a narração da realidade de João, há uma ponta de desejo pela burguesia e da influência dessa sobre ele a partir de um meio de comunicação: a TV. Como falamos, a TV nos tempos de ditadura militar só mostrava as coisas boas que o país oferecia, economicamente, na política, na condição de vida das pessoas. É visível, também, a vontade de querer fugir desse seu mundo para conhecer aquele que vê por meio da mídia.

“Não entendia como a vida funcionava
Descriminação por causa da sua classe ou sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem foi direto a Salvador”
(RUSSO, R. Que País é Este 1978/1987)

Nessa estrofe, é visível, novamente, uma amostra da realidade do país, sobre o preconceito por sua classe ou cor e o cansaço de João de Santo Cristo diante de toda essa repressão e galgando um sonho “burguês”, o de viver bem como a classe alta.

“E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal
- Meu Deus mais que cidade linda!
No Ano Novo eu começo a trabalhar
Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
Ganhava três mil por mês em Taguatinga.
(RUSSO, R. Que País é Este 1978/1987)

Aqui, é possível perceber a Formação Discursiva Burguesa através das Luzes do Natal, caracterizando o capitalismo e, também, mostrando o personagem tentando mudar a sua realidade a partir dessas visões. Vemos, a partir de informações da vida do próprio autor, o seu apreço pela cidade: “Eu adoro Brasília. Para mim, é a melhor cidade do Brasil”. (RUSSO apud ASSAD, 2000, p.41).

 “E Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
Com Pablo, ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E, sem ser crucificado, a plantação foi começar.
Logo, logo os malucos da cidade
Souberam da novidade:
- Tem bagulho bom aí!
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali(...)”
(RUSSO, R. Que País é Este 1978/1987)

Na estrofe acima, há um novo choque entre as duas FDs: Burguesia versus Realidade Social. João de Santo Cristo vê que não é fácil sair de sua realidade e mostra, mais uma vez, a manipulação da TV. João cansa da televisão como esse meio manipulador, ele tenta por meios do tráfico conseguir o que quer e, podemos ver que a partir desse meio ilegal de trabalho, João sobe rapidamente de nível social.

“Fez amigos, freqüentava a Asa Norte
E ia pra festa de rock, pra se libertar
Mas de repente
Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
Começou a roubar

Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
- Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.”
(RUSSO, R. Que País é Este 1978/1987)

Na estrofe apresentada, há a FD Burguesa e a FD Realidade Social, quando se considera que nem sempre a burguesia é feita de pessoas malignas, que podem prejudicar o próximo, e volta a estaca zero, a sua revolta com a sua realidade.

“O tempo passa e um dia vem à porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta
Uma resposta de João:
- Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
Isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa com o cu na mão
E é melhor o senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um Peixes com ascendente Escorpião

Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse:
- Você perdeu a sua vida, meu irmão!

Você perdeu a sua vida meu irmão
Você perdeu a sua vida meu irmão
Essas palavras vão entrar no coração
Eu vou sofrer as conseqüências como um cão.”
(RUSSO, R. Que País é Este 1978/1987)

Ainda sobre a FD Burguesa x FD Realidade Social há o retrato da sujeira da política no tempo, da Ditadura Militar, na tentativa de subornar os mais humildes, com ofertas de trabalhos ilegais, exigindo o silêncio com a ameaça de torturas ou morte.

“E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade não acreditou na estória que eles viram da TV
E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente,
Pra ajudar toda essa gente
que só faz sofrer.”
(RUSSO, R. Que País é Este 1978/1987)

A música é finalizada em seis versos que resumem totalmente as Formação Discursivas aqui ressaltadas. No tempo em que Brasília foi construída, muitas pessoas do Nordeste, de baixo nível social, migraram-se para a capital do país, na esperança de uma  vida melhor, levados pelas informações transmitidas pela televisão. Na vida real, a história é de sofrimento, muitos seguem um caminho ilegal e, como João de Santo Cristo, acabam mortos com pouca ou nenhuma glória.

Considerações Finais

Esse artigo foi proposto para estudarmos o conceito de Formação Discursiva, inserido na evolução das fases da Análise do Discurso. Consideramos o processo de desenvolvimento da AD nas últimas décadas, através das fases evolutivas, com foco principal sobre a segunda fase, no conceito de Formação Discursiva.
A partir desse levantamento e, em relação ao nosso corpus, observamos que em muitos textos, como a própria música, há, na maioria das vezes, um enfrentamento entre duas formações discursivas. Em nossa investigação, destacamos a FD Burguesa em contraste com a FD Realidade Social.
 Recordamos que há outros conceitos da Análise do Discurso e outras FDs que poderiam ser estudados nesse mesmo corpus, no entanto nosso foco repousa sobre a Formação Discursiva. O estudo da Análise do Discurso é extremamente importante, para uma melhor reflexão sobre o próprio discurso e um melhor reconhecimento sobre a história e formação do Sujeito.
É importante lembrar que esse nosso estudo também teve o objetivo de considerar a importância que o compositor, Renato Russo, teve para toda uma geração, na forma de descrever os problemas internos do ser humano. Renato Russo permanecerá moderno, influente e inesquecível, principalmente para aqueles tantos homens e mulheres que, como ele, creem que é “preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. (RUSSO. R. As Quatro Estações, 1989)

Referências

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BARONAS, Roberto Leiser. Ainda sobre a noção-conceito de Formação Discursiva em Pêcheux e Foucault. In:______. Análise do Discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. São Carlos: Pedro & João Editores, 2007.

BUZZULINI, Mario H.F. Biografia de João de Santo Cristo: Projeto Faroeste. São Paulo: Brainstore, 2003

DAPIEVE, Arthur. Renato Russo: O Trovador Solitário. 9 ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

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FOULCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

GRANJEIRO, Cláudia R. P. Foucault, Pêcheux e a Formação Discursiva. In: Análise do Discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. São Carlos: Pedro & João Editores, 2007.

GREGOLIN, Maria R. V. Formação Discursiva, redes de memória e trajetos sociais de sentido: mídia e produção de identidades. In: Análise do Discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. São Carlos: Pedro & João Editores, 2007.

MARCHETTI, Paulo. O Diário da turma 1976-1986: a história do rock de Brasília. São Paulo: Conrad Livros, 2001.

MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Org.). Introdução a Linguística: Domínios e Fronteiras. v.2. 4. ed.. São Paulo: Cortez, 2004.

URBANA, Legião: Faroeste Caboclo. R. Russo [compositor] In: ______. Que país é este? 1978/1987 [S.1]: Emi-Brasil, p1987. 1CD (ca. 57 min.). Faixa 8 (9 min.02 s.) Remasteurizado Digital.
______. Pais e Filhos. R. Russo [compositor] In: ______. As quatro estações. S.1]: Emi-Brasil, p1989. 1CD (ca. 1h 08 min.). Faixa 3 (5 min.19 s.) Remasteurizado Digital
Mayara Lucio
Enviado por Mayara Lucio em 12/02/2010
Código do texto: T2083301

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Sobre a autora
Mayara Lucio
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