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A Literatura: um “fio de Ariadne” no labirinto do ensino


A literatura, o teatro e o cinema são escolas de vida para crianças
e adolescentes, onde eles aprendem a se reconhecer a si mesmos.
[...] escolas de complexidade humana onde se descobrem a
multiplicidade interior de cada ser e as transformações das
personalidades envolvidas na torrente dos acontecimentos.
Edgar Morin (1997)


Talvez o grande problema de ensinar a literatura na escola esteja no engano de perspectiva ao lidarmos com a obra literária. O que ocorre é que não se sabe distinguir a palavra-informação da palavra-arte.

Enquanto a primeira é essencialmente denotativa, quanto mais preciso e unívoco seu significado, tanto melhor ela vai cumprir sua função, uma vez que se deseja que o maior número possível de pessoas entendam do mesmo modo a informação; com a segunda, dá-se o contrário, pois sendo conotativa, pretende-se múltiplas possibilidades de interpretação já que é uma palavra poética.

Deste modo, lidamos na escola ou na família com a palavra-arte como se ela fosse palavra-informação. Trabalhamos, na escola, com a literatura do mesmo modo que com a matemática ou a geografia: não distinguimos objetivos diferentes, nem usamos estratégias diferentes, para as duas espécies de palavras.

Definido que a literatura deve ser “aprendida” pelo aluno, um silêncio total preenche o tempo entre a apresentação do título da obra a ser lida e a prova que comprove a sua leitura, que medirá o que é mensurável na literatura: o que o aluno sabe da história, das personagens...

Atividades que tornem o livro uma fonte de prazer e enriquecimento, um desafio saudável para o aluno, essas não são imaginadas pela maioria dos educadores. Assim, durante os dias que durar a leitura, o aluno está irremediavelmente solitário com seu prazer ou desprazer, com suas dúvidas ou, ainda, com uma enorme vontade de não chegar ao fim do livro.

De posse dessa realidade, dúvidas surgem: Até que ponto é legítimo impormos ao aluno uma obra a ser cobrada em determinado dia do calendário escolar? É lícito impor-lhe a literatura? Seria a técnica da coerção capaz de formar leitores?

Pessoalmente, acredito que ninguém pode ser obrigado a gostar de ler, ou a preferir a leitura à música, à dança, ao futebol. Suponho, no entanto, que sendo a literatura importante faz-se mister mudarmos de tática.

Sabe-se que gostar ou não da literatura não é um dado biológico, de nascença, é, sim, uma característica da história de cada um; cabe a nós, portanto, influir o melhor que pudermos nesse dado cultural. Mas, como fazê-lo? É preciso mostrar ao aluno não só a literatura como também as demais artes como fascinantes formas de descoberta do indivíduo, nas relações de recreação e recriação possíveis entre ele e a obra, descortinando todas as possibilidades de cada arte, mas, contudo, deixando o aluno livre para se aventurar nos caminhos de uma ou de outra.

Sob a perspectiva de quais estratégias, adotar para o efetivo trabalho com a literatura em sala de aula, cabe ao educador sempre se questionar se sua atuação está sendo eficiente e orientada, se está motivando verdadeiramente e/ou se está oferecendo ao aluno um acompanhamento estimulante para que ele sinta prazer em ler um clássico da literatura.

Como condições necessárias para o trabalho de formação de leitores na escola, precisamos criar condições para que as salas de aula disponham de um acervo não só de livros, como também de outros materiais de leitura, atentando-nos para a variedade que permitirá a diversificação de situações de leitura. A existência de momentos para leitura livre, isto é, sem que a ela se siga um conjunto de atividades obrigatórias de trabalhos, também pode ser um aliado eficiente, bem como a instalação de projetos, como o circuito de leitura, entre alunos e professor e, principalmente, a possibilidade de que os alunos escolham seus livros.

Podemos desenvolver assim, um programa de educação do leitor através da formação de bibliotecas de classe e, a partir de então, prepararmos aulas nas quais se percorra livremente as estantes, se converse sobre livros, se escute a leitura em voz alta do professor, se ouça o texto na voz deste ou daquele autor/ator, se encene ou se dramatize pequenas seqüências, etc; em outras palavras se viva a literatura.

Desta forma, poderemos formar leitores dentro das diferentes naturezas da linguagem escrita e visual; agregando ao ato solitário da leitura do texto escrito o movimento de luz e sons; motivando e formando alunos/leitores, mesmo dentro dessa sociedade, tão urbana e tecnológica, em que estamos inseridos.


Patrícia Ferreira Bianchini Borges
Professora da Rede Municipal de Ensino de Uberaba
Licenciada em Letras pela Uniube - MG

Patrícia Ferreira Bianchini Borges
Enviado por Patrícia Ferreira Bianchini Borges em 03/08/2006
Reeditado em 03/01/2007
Código do texto: T208578
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Sobre a autora
Patrícia Ferreira Bianchini Borges
Uberaba - Minas Gerais - Brasil, 45 anos
8 textos (1204 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 16:45)