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Críticas: uma postura positiva

Uma experiência pessoal.

Ao receber um comentário mais elaborado, independente do conteúdo, uma de minhas primeiras reações é me sentir grata ao autor(a) pelo tempo gasto na leitura e expressão de uma reação. Principalmente se for crítica ou análise, atividades que requerem leitura minuciosa.

É comum se ver críticas sendo rotuladas de positivas ou negativas. A meu ver, de qualquer crítica é quase sempre possível se tirar algo positivo, independente da intenção ou motivação com a qual foi escrita. Restrinjo-me aqui, claro, ao escopo de um site literário como o Recanto das Letras, lugar em que vários escritores iniciantes expõem obras à apreciação, já que críticas maldosas, em outros contextos, podem causar sérios danos.

Está claro então: critica profissional, assim como Medicina, só deve ser praticada por pessoas responsáveis e que estejam habilitadas para tal. Por outro lado, em ambientes onde participantes se propõem a compartilhar sobre a arte de fazer Literatura, não vejo como necessário ter formação específica para se poder aventurar numa análise mais profunda de textos próprios ou alheios.

Críticos, assim como profissionais de outras áreas, necessitam de muita prática antes de serem autorizados a atuar como tal. Penso que se escreve melhor à medida em que se vai adquirindo uma visão autocrítica e analítica de obras e do processo de escrever. Sendo assim, críticas que fazemos ou recebemos aqui no Recanto devem ser encaradas muito mais como exercícios.

Grosso modo, e para não me estender além do necessário, construções do tipo “o trabalho é bom/ruim”, que puramente expressam juízo de valor (e não justificado), não podem ser consideradas como crítica. Expressam, no máximo, uma opinião (sem maiores explicações). Por outro lado, se “o trabalho é bom/ruim POR isso e aquilo” aí a coisa muda de figura. Ainda que não se concorde com os critérios apontados, a simples menção deles pode chamar a atenção para qualidades ou pontos do trabalho que talvez precisem mesmo ser melhorados. Num campo tão subjetivo quanto a Literatura, uma crítica ou análise, a meu ver, será sempre só mais uma possível interpretação. Em suma, se alguém se propõem a criticar um escrito meu, vislumbro a iniciativa como um benefício, estando livre, pois, para  considerar ou não o conteúdo da crítica.

Sim, onde pretendo chegar com isto? Queria compartilhar uma crítica recebida. Mesmo tendo questionando alguns pontos, esta opinião me foi muito útil – e talvez seja também para outros que buscam melhorar na arte de narrar; E por isso compartilho – Por causa de pessoas generosas assim, como o autor deste comentário,  que ainda encontram um pouco de tempo para tirar dúvidas de iniciantes,  tenho adquirido uma visão mais apurada de meus textos e outras questões de teoria literária, exatamente o que buscava quando comecei a publicar meus experimentos aqui.

Sendo assim, comentários mais críticos só fazem enriquecer as trocas, e sem causar estragos, dependendo os efeitos muito mais da postura do receptor.


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Comentário sobre o conto 'No Restaurante - O Show da Vida'

“Oi, Helena.

Antes de tudo, obrigado pelo contato.

Já li muitos textos de outros escritores, mas, atualmente, não é algo que eu costume fazer com frequência. Como você bem disse, estamos todos correndo atrás do tempo.

Li o seu conto "Show da Vida" e seguem as minhas impressões:

1 - o primeiro parágrafo não tem serventia. Quando se trata de um causo, ainda vá lá apresentar quem narra a história, mas, num conto cotidiano, melhor do que dizer que vai contar uma história é começar a contá-la.

2 - qual é o tema do conto? Que história você queria contar?
Neste texto, há uma multidão de personagens. Gente demais para um conto tão breve. Os princípios tradicionais do conto (que não são os únicos nem absolutos, deixemos claro) diz que esta forma exige: unidade de enredo (uma ação), unidade de personagens (poucos), unidade temporal (que ocorra num curto espaço de tempo) e unidade espacial (poucas mudanças de cenário).
Assim, o importante do conto é agarrar o leitor na primeira linha e, sem dar-lhe fôlego, levá-lo até a última. Nem sempre isto é possível, nem sempre dá certo, mas é um esforço a ser empreendido.
Julio Cortázar diz que o conto é como ganhar de nocaute no boxe. A luta começa, ficamos muito empolgados, e num golpe violento o conto acaba.

3 - Os dois hífens ao invés de travessão é um pouco antiestético. Além disto, há um excesso de informações entre aspas, o que nos distrai. A maioria das palavras com aspas poderia aparecer sem; com certeza o leitor compreenderia que é uma analogia.
Há bastantes reticências também. Geralmente, isto é um vício que o autor não percebe.

4 - A nota no final é prescindível. O autor não deve explicar nem justificar o conto. Às vezes, até fazemos isto num prefácio de romance ou duma antologia, mas o texto tem de ser auto-explicativo;

5 - De resto, você demonstra uma grande capacidade de observação, uma perspicácia na hora de descrever as características dos personagens, seus trejeitos. Não vi grandes problemas na construção gramatical, você só precisa de foco, decidir o que desejar contar e contá-lo do começo ao fim. O romance nos permite digressões maiores, a viajar um pouco mais, no conto o lema é "menos é mais".

Abraços e sucesso,

H.

Notas:
Informo somente a inicial pois não sei se o autor gostaria de ter seu nome divulgado, já que nosso contato foi via-email. 'No Restaurante – o Show da Vida' não é um conto em si, e sim parte de uma narrativa maior, num contexto dinâmico, e inacabada, que só classifiquei aqui como conto por falta de um rótulo mais adequado. Se o texto está rotulado como conto era de se esperar sua leitura como tal. Não se pode exigir do leitor que adivinhe o que nos vai pela cabeça quando escrevemos, lógico! Alguns dos elementos de teoria de contos apontados pelo colega eu já conhecia, mas para outros aspectos ainda não havia sido chamada à atenção. Só por aí, já valeu a troca! Concordo também que me falte foco - 'viajo' muito! É uma das coisas que eu mesma já havia percebido e venho trabalhando. Por outro lado, não sou do tipo que se deixa facilmente prender a teorias. Um desejo enorme de experimentar, digamos assim um lado pós-moderno anarquista, é muito forte em mim. Conheço e recomendo os escritos de Julio Cortázar. O capítulo 34 de Rayuela inspirou-me a escrever Quarteto e outras brincadeiras. Completando minha resposta à pergunta do mentor josé cláudio (1) “O que é Literatura?”. Para mim, até agora, tem sido brincadeira, brincadeiras leves, porém sérias, e sobretudo: trocas produtivas. E também por isso escrevi este artigo. Um abraço fraterno :-)


Um texto que pode esclarecer várias outras dúvidas sobre o tema:
CRÍTICA, Tânia Meneses
http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2089161

(1) A FUNÇÃO DA LITERATURA, José Cláudio
http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/2079087

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 18/02/2010
Reeditado em 18/02/2010
Código do texto: T2093028
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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