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Da ideologia dos filmes pornôs

Que a indústria pornográfica gira centenas de milhões de dólares anualmente é um fato corrido e se tal capital gira assim há quem compre e usufrua de seus produtos. Não sei quando começou a trajetória das produções puramente pornográficas, mas o começo de minhas impressões sobre elas vem das pornochancadas brasileiras da década de 70.

Como um pouco de dados reais não machuca ninguém, em uma livre tradução do verbete “Pornographic movie” da Wikipedia, eu traduzi um pouco da história do pornô, e peço uns parágrafos de atenção antes de continuarmos nosso artigo.

Wikipedia em 05-08-2006 Tradução livre do verbete “Pornographic movie” feita por mim.

A camera cinematográfica tem sido usada para a pornografia ao longo de sua história, mas filmes pornográficos foram por muito tempo apenas distribuidos no underground, para projeções em casa e clubes privados.

Filmes pornográficos são quase tão antigos como os filmes regulares. De acordo com Film Facts, de Patrick Robertson, "the earliest pornographic motion picture which can definitely be dated is A L'Ecu d'Or ou la bonne auberge" (o primeiro filme pornográfico que pode ser comprovadamente datado é A L'Ecu d'Or ou la bonne auberge), feito na França em 1908; ele mostra um soldado que busca repouso com uma servente de uma estalagem. Robertson nota que o filme pornô argentino El Satario pode ser ainda mais velho, ele foi datado de entre os anos de 1907 e 1912. Robertson nota que "the oldest surviving pornographic films are contained in America's Kinsey Collection" (os filmes pornográficos mais antigos estão na Coleção Americana de Kinsey). Um filme demonstra como antigas convenções pornográficas foram estabelecidas. O filme alemão Am Abend (c. 1910) é, como Robertson escreve, "a ten-minute film which begins with a woman masturbating alone in her bedroom, and progresses to scenes of her with a man performing straight sex, fellatio and anal penetration." (Robertson, p. 66) (um filme de 10 minutos que começa com uma mulher se masturbando sozinha em seu quarto, e progride para uma cena com um homem, com coito, felação e penetração anal)

Filmes pornográficos se espalharam na era do Filme Mudo, década de 1920, e foram frequentemente mostrados em "brothels" (algo perto de um prostíbulo). Muitos filmes pornográficos foram produzidos nas décadas subsequentes, mas naturalmente devido a clandestinidade em que eram feitos e distribuídos, detalhes de tais filmes são muito difíceis de obter.

Na década de 1970 uma legislação mais permissiva permitiu a ascenção das salas de cinema "XXX-rated" nos EUA. Existiu também uma proliferação de cabines ativáveis por moedas em sexy shops que exibiam "loops" pornográficos (assim chamado porque projetavam um pedaço de filme editado em um loop contínuo).

Naquele tempo, filmes pornográficos até alcançaram aceitação dentro da indústria cinematográfica principal, com filmes como Deep Throat (Garganta Profunda), Behind the Green Door (Atrás da Porta Verde) e de Gerard Damiano, The Devil in Miss Jones (O Diabo em Miss Jones) de 1972, sendo filmado com altos custos de produção, e com ótimos lucros nos cinemas.

Com a chegada dos video cassetes caseiros com função de gravação na década de 1980, a indústria pornográfica cresceu massivamente, permitindo as pessoas não somente ver tais filmes em suas casas sozinhas sem precisar ir a cinemas, mas também a fazer seus próprios filmes. Produção em vídeo é muito mais barata que que a filmagem e edição profissionais, e assim substituindo na produção em vídeo para quase todos os filmes pornográficos.

Com o advento da internet e do DVD, a produção e distribuição de filmes pornô se tornou ainda maior e é um tremendo negócio envolvendo pelo menos centenas de produtores no mundo todo, e milhares de atores. Com cerca de 20.000 filmes de longa por ano nos EUA sozinhos, a indústria pornográfica é a maior indústria de filmes do mundo. ||

Continuando o artigo, então.

Como era bastante pequeno, nascido no inicio da década de 80 peguei os resquícios finais do gênero que foi consagrado como expoente de cinema brasileiro, só dando retornos agora no inicio do século XXI com a retomada do cinema brasileiro, chamado de Novo Cinema. Que não tem nada a ver com as pornochanchadas setentistas.

A indústria pornográfica é maior na maior das economias do mundo. Nos EUA ela gera centenas de filmes por ano consagrando as principais atrizes, que lá, participam de campanhas publicitárias e são tratadas como estrelas nacionais, conforme visto acima.

O filme pornográfico, dito obsceno, veio colocar a mostra, creio que sua base é essa, toda a hipocrisia de nossa sociedade já que todos fazem o que fazemos e nos impomos esse tabu sexual que já explorado em muitas obras mostra suas más conseqüências quando não discutido abertamente. Veja “Kinsey, Vamos falar de Sexo” (2004, de Bill Condon, com Liam Neeson, Laura Linney, Chris O'Donnell, Peter Sarsgaard, Timothy Hutton, John Lithgow)

Mas com todo esse sentimento podemos tentar ver os filmes pornográficos pelo lado puramente analista, frio, a fim de, com a conclusão de tal análise,  chegar a um consenso sobre a ideologia que o filme pornô nos passa, mesmo que a principio aquilo seja apenas um vídeo expositor de puro sexo.

A estrutura, que por muito tempo durou e perdura atualmente, é muito simples na verdade, uma câmera, ou duas, acompanham um ato sexual entre duas ou mais pessoas durante uma performance de sexo. Assim dizendo tudo é o mais simples possível. Mas no fundo o conceito que temos de um filme desses é muito mais interessante que qualquer outro aspecto de sua composição.

Primeiro pela narrativa. Temos frequentemente uma mulher que começa fazendo-se de fácil presa e logo se iniciam umas carícias, seguindo para um ato de felação da mulher no homem. Logo temos o ato sexual em si e no final uma ejaculação.

O modo como isso tudo é mostrado é que nos dá uma base para analisar como e porque os nossos filmes pornôs nos passam uma realidade diferente da que existe normalmente. Levando em consideração a realidade atual deles. Não coube aqui uma análise da progressão do molde pornográfico produzido industrialmente desde a década de 1980. Como a indústria do cinema pornográfico é algo de consolidada, podemos dizer que se ela nos passa o que podemos ver atualmente é porque ela tem um posicionamento perante a realidade.

Como filme busca-se uma supra realidade. Primeiramente pela ausência de odores. Qualquer pessoa que tenha praticado sexo na vida sabe que os odores fazem parte fundamental de nossa interação e nossos relacionamentos. O filme pornô idealiza um ato sexual desprovido de associação ao odor. Esse que quando experimentado na vida real já põe abaixo qualquer idealização nele contida. E nos afasta daquela realidade.

O fato do odor é o menor dos problemas de certa idealização. Como a cena de cada filme há de durar determinados minutos o homem tem que agüentar sem ejacular (na grande maioria das vezes) durante toda a cena, se desdobrando em diferentes posições sexuais, das mais desconfortáveis e mais cinematográficas possíveis. Vemos um verdadeiro show de malabarismo e elasticidade, quando não muito aliado a uma performance dignamente atlética das duas pessoas durante o ato. O que nos leva mais ainda a concluir que o filme pornô, não é só obsceno, mas cria um platô a que uma pessoa sexualmente ativa deve se basear para atingir o ideal no sexo. Para satisfazer uma mulher muitos homens se acham, inspiram e se baseiam nos filmes que vêem. Criando um ciclo vicioso perturbador, pois se por acaso uma pessoa normal chegar a quase um profissionalismo do desempenho sexual o futuro produtor terá que encontrar meios de garantir a supremacia do filme em relação à realidade.

Vemos então homens transando com duas ou mais mulheres, orgias, e demais deturpações do gênero a fim de garantir a supremacia em relação a realidade. O que é de certo modo falando inútil já que toda a cena já se mostra de forma ideologicamente afastada da realidade. Pois, vemos mulheres e homens com o único intuito, e disposição, sexual. A total falta de intimidade, carinho, tesão e comprometimento com o outro lado mostra como que aquilo que ali está é apenas uma obtenção de prazer, quando muito, pois na maioria das vezes o que nos passa aquilo é justamente que o homem faz porque quer e faz o que quer com a mulher ali disponível.

Alguns filmes pornográficos tentam ainda inserir as cenas de sexo em um contexto, mas pela separação clara entre atores pornô e atores profissionais do ramo mais usual do cinema essas tentativas acabam sempre a uns passos de onde pretendem ir. Gerando uma frustração nos mais exigentes e certa dose de satisfação nos menos. Mas sem muito sucesso de aceitação global.

Pelo aspecto físico mais um detalhe contribui para a supra realidade idealizada no pornô. As pessoas que aparecem transando são em sua grande maioria possuidoras de corpos torneados, definidos, com requintes de perfeição. E, garantido pela edição final do filme, possuidoras de uma disposição desigual.

Como qualquer pessoa que já transou deve saber, transar sem muita empolgação causa uma ligeira falta de lubrificação adequada dos membros e com o coito prolongado causa irritação, desconforto etc. Em filmes pornográficos não é muito difícil vermos pessoas transando durante mais de vinte minutos sem que qualquer lubrificação natural se mostre visível o que acarreta aos atores recorrem a todo tipo de artifício para cobrir essa falta, desde a saliva até lubrificantes profissionais. O que mostra mais ainda que ali estão pessoas que não estão predispostas a fazer sexo natural, mas sim fazer sexo de qualquer maneira.

Essa falta de realidade sempre me incomodou em tais filmes, nas análises feitas sempre coube ressaltar o artificialismo total do que nos é mostrado. Tornando aquilo puramente ficcional. Pessoas adestradas para as mais e explícitas performances antinaturais do sexo possíveis.

O que se reflete em nossa sociedade em uma boa parte de gerações crescentes. Elas querem fazer sexo, seja lá quais forem os motivos. Essa atração natural já não é tão necessária assim. Incute-se na mentalidade geral uma ávida procura por sexo casual, e uma busca em performances sexuais de certa satisfação pessoal. Não raro são os casos de uma transa aleatória ser relatada pelo homem como a façanha mais recente dele, com requintes e detalhes que beiram a supra realidade. Como se aquilo fosse filmado poderia muito bem ser passado como um filme pornô digno de nota. E garantidamente se fosse realmente gravado não daria muito mais do que um filme em que se poderia rir dessas pessoas achando que estariam em um filme.

Mais uma questão a ser ressaltada é que pela total má qualidade do dote artístico desses filmes percebemos em muitos momentos a clara performance, da atriz e do ator, quando não conseguem se manter em seus “papeis” o prazer e mostram claramente que estão fingindo e simulando um ato. Coisa que mesmo explicitamente mostrada nossa imaginação trabalha para relevar esse fato.

Mas o que mais incomoda ainda nessas produções destinadas a todo tipo de público, majoritariamente o adolescente, que pelas leis é proibido de vê-los, é a relação de poder entre homem e mulher. O homem possuidor do falo ainda é aquele que possui a mulher, esta que se rende aos desejos do homem, considerando tais e quais posições fazer, como se comportar. E o que mais reconhece isso é ao final das cenas, na hora da ejaculação, o homem em sinal de superioridade, aliada a total falta de necessidade de completar o ato sexual com a concepção, ejacula peremptoriamente no rosto da mulher. Esse ato mostra ainda como o homem despreza a mulher que acaba de ter um relacionamento. Não que ejacular em qualquer parte da parceira seja um ato de desprezo, mas a forma como é mostrada passa exatamente esse sentimento. Já que o rosto é a parte mais notável de nossa individualidade e praticamente o nosso meio de contato exterior básico, pelo rosto falamos, comemos, interagimos de n maneiras com o ambiente e mais do que qualquer impressão digital ou mapeamento de retina o nosso rosto diz exatamente quem somos. Essa atitude demonstra a total falta de consideração com qualquer tipo de individualidade que possa existir. O que é retificado pela quase ausência nesses filmes da idendidade masculina, o que podemos ver na grosseira maioria dos filmes é a mulher lidando com um falo durante toda a cena. O rosto da mulher e um ou mais falos que em seu derradeiro clímax é rebaixado com uma ejaculação.

E não é raro ver o homem após ejacular no rosto ou no torso da mulher, ainda lhe dar pancadas com seu membro, como que rebaixando ainda mais esta. O que vemos na tela é o resultado de toda uma produção e uma junção de esforços para nos dizer, ditar, suscitar como deveria ser um ato sexual, puramente sexual, desprovido de qualquer sentido a não ser praticá-lo.

O filme pornô nos serviria para povoar nossa imaginação com imagens que nos proporcionaria a ter prazeres com os pensamentos que produzimos. O que é totalmente inaceitável pela estrutura e formato dos filmes atualmente produzidos. Uma série grande de fatores contribuem para a falta de naturalidade e realidade daquilo que vemos. O que é rapidamente compensado pelo nosso cérebro fazendo-nos esquecer os detalhes ruins do que vemos, ficando apenas com o essencial para nos estimular. E, no entanto, esse pouco é o necessário para criar uma supra realidade em nossas mentes nos dizendo como o sexo, o ato, deve ser, o seu ideal.

Não muito vemos pessoas normais que, diferentemente de antigamente como visto no artigo, jogam seus filmes particulares na internet. Filmes esses caseiros e desprovidos de qualquer profissionalismo, que querem se parecer ao máximo com filmes profissionais. Filmes esses que buscam desesperadamente uma compensação real pela falta da supra realidade exibida pela indústria.

Em uma época em que centenas de filmes são produzidos e milhares de atores e atrizes estão entrando no ramo pornô, vemos como uma indústria de imposição da superioridade do macho pela fêmea vem introduzindo ou garantindo um pensamento retrógrado pelas suas produções. A fato de somente o macho gozar durante o filme pornô e a mulher não, já é por si só um bom motivo para chegar a essa conclusão. Em uma época de busca, por parte das mulheres, de direitos iguais essa realidade ainda é totalmente machista.

Não muito vemos filmes lésbicos em que as mulheres conseguem fazê-las elas mesmas gozarem, não necessitando de um homem. Deixando bem clara essa separação. Quando uma relação é heterossexual a mulher serve apenas aos caprichos dos homens. Vemos cenas em que uma mulher transa com muitos homens, o que ao contrário já é complicado e raro de se ver, no máximo vemos um homem com duas mulheres, nunca mais e as duas sempre trabalham conjuntamente para o prazer irrestrito do homem.

Uma análise dos planos captados pelo diretor do filme também mostra como que a situação mostrada é puramente fria e unicamente sexual sem qualquer interesse em nos ambientar em tal história, por mais crua que seja ainda continua a ser uma história, basicamente resumível a: homem e mulher transam até homem gozar. Vemos closes constantes no pênis. Seja felação, coito ou penetração anal, a câmera segue peremptoriamente sua trajetória, restando muito pouco espaço para o resto todo.

Concluindo esse artigo mostro que ainda estamos, pelo menos pelo reflexo mostrado na supra realidade pornográfica, em um momento que exalta-se o falo e a realidade da mulher se mostra ainda submissa ao homem, no que diz respeito ao sexo. Uma realidade dura e crua. E muito menos importante do que a ideologia e a perfeição do sexo mostrada por esses filmes que influenciam gerações. Por isso talvez os filmes produzidos sejam proibidos para menores de idade, o que me pergunto é a diferença entre um adolescente de 17 anos e um adulto de 18. Como se essas leis fossem respeitadas, ainda mais com o advento da internet que com um digitar de “mulher pelada” no Google podemos ter acesso a milhões de sites que estão a apenas a um clique de distância. A pornografia é direcionada a homens diretamente e as mulheres que se aproveitam dela são aquelas que conseguem se encaixar nesse meio. Se você fosse vender algo a um homem lhe daria um produto que exaltasse o poder feminino?

Termino perguntando ainda, se alguém acha que isso não é sinal de machismo como explicar as bilhões de fotos de mulheres nuas na internet e nem sequer uma de homem facilmente acessível (considerando que fotos de homens são direcionadas a gays, que também, em princípio são homens)?


leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 05/08/2006
Reeditado em 29/07/2008
Código do texto: T209746
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz