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A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO E O NEO-ESTRUTURALISMO SEMIÓTICO

A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO E
O NEO-ESTRUTURALISMO SEMIÓTICO: Um diálogo no Horizonte do Provável.
Prof. Dr. Jayro Luna (Jairo Nogueira Luna)

O Neo-estruturalismo Semiótico tem facilmente demonstrado em meu trabalho específico sobre esse assunto ligações com a Semiótica e o Estruturalismo, porém, não ficaram claras suas relações com a Estética da Recepção. O objetivo deste breve artigo é comentar as formas e maneiras pelas quais conceitos advindos da Estética da Recepção podem ser perfeitamente conciliáveis com noções desenvolvidas no Neo-estruturalismo Semiótico. O inverso também me parece perfeitamente possível, embora isso implique numa elasticidade conceitual e teórica das idéias de Jauss e Gadamer que, em princípio, vejo como possível, porém, não sendo um especialista teórico da Estética da Recepção, posso, num certo sentido, forçar uma situação que me é favorável. A Crítica afeita ao assunto julgará a necessidade e conveniência dessas ligações.
Conforme comenta Luíza Lobo, a Estética da Recepção buscou superar o impasse ou fechamento a que chegou o Estruturalismo e o Formalismo, para tanto, buscou na noção do sincrônico uma chave para a abertura:

“O movimento da estética da recepção buscou também superar o fechamento do estruturalismo que, além de não dar conta da dimensão histórica, diacrônica, tem como base o conceito de estrutura. (...)
Segundo Wolf-Dieter Stempel, a estética da recepção parte do Formalismo Russo e da teoria crítica literárias marxistas, seguindo entretanto a tradição alemã da hermenêutica, ou da interpretação de Gadamer.”
(LOBO: 1999, p. 114/115)
Não é outro também um dos propósitos iniciais do Neo-estruturalismo Semiótico, o da superação dos impasses das análises estrutural-formalistas que na validação contínua e exclusiva dos elementos da linguagem como determinantes da obra acaba por distanciar-se da relação obra-público, bem como da ponte que a obra traça entre autor e público, havendo de um lado - o do autor - a conceituação virtual de expectativas acerca de seu leitor imaginário, e de outro - a possibilidade de superação diacrônica dessa comunicação por efeito mágico de sincronicidade, nesse efeito elementos comunicativos se ressignificam.
A conferência de Jauss em Constança (1967) que serviu de base ao texto A História da Literatura Como Provocação À Teoria da Literatura, se fundamenta num conjunto de 7 teses acerca do papel da obra no processo de comunicação autor-público. Esse processo estava sendo visto de dois ângulos parciais, o da corrente Estrutural-Formalista e o do Marxismo. Neste último, a obra literária era vista como tal impregnância de elementos sócio-políticos e ideológicos que o resultado estético era coadjuvante quase descartável da interpretação e da crítica. No outro modo de ver, o Estrutural-Formalista, os aspectos específicos literários eram de tal forma valorizados que a obra se via suspensa num tempo anacrônico e num espaço próximo da sublimação.
Como comenta Terry Eagleton, a comunicação no tempo se dá mediante o processo de leitura, de modo que presente e passado estão latentes a cada nova leitura e se fundem ou se comunicam nesse momento, criando novas possibilidades interpretativas que superam tanto o momento histórico da leitura quanto da criação literária, quanto às especificidades estéticas:

“Para Gadamer, toda a interpretação de uma obra do passo consiste num diálogo entre o passado e o presente. Ante essa obra, ouvimos com prudente passividade heideggeriana a sua voz não familiar, permitindo que ela questione nossas preocupações atuais; mas aquilo que a obra nos ‘diz’ dependerá por sua vez, do tipo de perguntas que somos capazes de lhe fazer, dependerá de nosso ponto de vista na história. Dependerá também da nossa capacidade de reconstituir a ‘pergunta’ para a qual a obra é uma ‘resposta’, pois a obra é também um diálogo com a sua própria história.”
(EAGLETON: 2001, p. 98)

Essas dependências a que o leitor está colocado, em suma, consiste numa necessidade aberta, digamos assim, de se propor ou se colocar no ato de leitura. Se, previamente, nos armamos de um método que privilegia sobremaneira os aspectos ideológicos e histórico-sociais, ou os aspectos formais e estéticos, ou os elementos biográficos, ou ainda os psicológicos do autor, etc., cada método nos limita a um conjunto de perguntas determinado. Não convém ao estudioso do método sociológico, p. ex., fazer um quadro comparativo das orações subordinadas e coordenadas em Vidas Secas de Graciliano Ramos, ao passo que lhe parece muito pertinente discutir o cenário social apresentado na obra e, por outro lado, para um adepto de uma visão mais formal-estruturalista parece ser justamente o contrário o que se deva fazer. Embora, supondo uma boa capacidade interpretativa de ambos, ao final, chegarão de certo modo a resultados complementares, mas não semelhantes, de maneira que é perfeitamente possível partir de uma conclusão e chegar-se à outra por alguma ponte que, em certo sentido, ultrapassa as possibilidades de cada método em si.
O Neo-estruturalismo Semiótico propõe-se, de imediato, como um supra-método, de tal perspectiva que o limite inicial se vê colocado como horizonte de eventos e que para além dele existe sempre a possibilidade de ultrapassar e alargar tais horizontes, ainda que para isso seja necessário uma reconfiguração do instrumental da análise. Essa capacidade de reconfigurar-se, de munir-se continuamente de novos instrumentais não tem por objetivo o ecletismo ou a abertura infinita o que pode levar ao despropósito e a nulidade crítica. Antes, o que se objetiva é se demonstrar que a posição crítica não está no instrumental em si, sejam tabelas de análises gramaticais, paradigmáticas e sintagmáticas, sejam discussões sobre as características sócio-culturais das personagens e da ordem social apresentada, sejam avaliações de arquétipos e de símbolos jacentes ou subliminares, enfim, esses todos são instrumentais. A postura crítica está em utilizar-se deles com o objetivo último que é o de conseguir fazer as perguntas que a obra pode responder na maior quantidade possível, não para a obra, pois algumas parecem inesgotáveis, mas para o crítico e seu tempo e que tais respostas satisfaçam a necessidade ou a capacidade de se fazer perguntas.
Esta idéia de “horizonte de expectativas” que Jauss fora buscar em Gadamer e este por sua vez, ao que parece, a encontrara latente em E. Husserl é um parâmetro eficiente para a colocação do problema da comunicação da obra literária através do tempo e do espaço. Regina Zilbmeran assim considera essa questão:

“Cada leitor pode reagir individualmente a um texto, mas a recepção é um fato social - uma medida comum localizada entre essas reações particulares; este é o horizonte que marca os limites dentro dos quais uma obra é compreendida em seu tempo e que, sendo ‘trans-subjetivo’, ‘condiciona a ação do texto’.”
(ZILBERMAN: 1989, p. 34)


  Pois, ao que me parece, é justamente nesse ponto em que o Neo-estruturalismo Semiótico mais pode ser útil à Estética da Recepção e vice-versa. No Neo-estruturalismo Semiótico o “horizonte” é um “horizonte de eventos”, conceito primordialmente tomado de empréstimo da Física moderna. Em que se considere a distância dessas duas áreas do conhecimento humano - a Teoria Literária e a Física, isto inclusive, motivo para um outro texto e outra discussão - a analogia, enquanto figura retórica é absolutamente pertinente.
Na Física moderna o termo refere-se à teoria dos buracos negros, estes por sua vez, entidades, para alguns, tão intangíveis e diáfanas quanto o que se passa na mente dum autor no ato do processo criativo ou do leitor no outro extremo.
A idéia de horizonte de eventos foi desenvolvida por Schwarzschild, para quem existe um limite espaço-temporal no buraco negro, além do que nada pode retornar, preso que fica, ao que parece, numa cela gravitacional.

“Um buraco negro, evidentemente, não possui qualquer superfície sólida. Se pudéssemos cruzar o horizonte dos eventos não nos daríamos conta de que o espaço fosse diferente do espaço em qualquer outro lugar, mas uma vez dentro deste limite nos sentiríamos incapazes de nos movermos para fora e cairíamos inexoravelmente dentro da singularidade central. O horizonte de eventos é um limite com uma só direção. Os objetos materiais, luz ou qualquer outra espécie de radiação, podem cair em um buraco negro, mas nada pode sair dele.”
(NICOLSON: 1983, p. 134)

Assim, analogamente, o “horizonte de expectativas” é um “horizonte de eventos”. O “evento”, no caso, é a leitura da obra. Se na Estética da Recepção podemos nos valer de duas tríades correlatas e reconfiguradas no seu significado original: a) Poésis, Aisthesis e Katharsis; b) Compreensão, Interpretação e Aplicação. Também, no Neo-estruturalismo Semiótico essas tríades são absolutamente válidas, com a diferença de que o “horizonte de eventos” determina uma possibilidade máxima além do qual, no mínimo, o terceiro elemento de cada uma dessas duas tríades não tem mais eficácia: a Katharsis e a Aplicação.
Enquanto “Katharsis” que se define como “a concretização de um processo de identificação que leva o espectador a assumir novas normas de comportamento social, numa retomada de idéias expostas anteriormente” (ZILBERMAN: 1989, p.57), no Neo-estruturalismo Semiótico tal tomada de posição, que configura esta “Katharsis” como elemento ativo ou ativador, para além do “horizonte de eventos” torna-se inócuo, pois, seja por parte da inoperância das perguntas feitas, quanto da ineficácia das respostas obtidas, o resultado é sempre passivo, provocando nada mais do que inércia. Desse modo, avaliações que ficam na exposição adjetiva de qualidades não mensuráveis ou períodos glamurosos são o resultado mais direto dessa incapacidade para além do horizonte de eventos. Tais respostas são apenas o ricocheteio de uma pergunta ao limite do “raio de schwarzschild” da obra, como não se consegue ir além, a resposta é nula e equívoca. Porém, ir além do “horizonte de eventos” implica em ter diante de si uma nova postura, um novo instrumental, tanto na Física quanto aqui, na teoria do Neo-estruturalismo Semiótico. As respostas insuficientes podem, não raras vezes, não serem fruto de uma obra ruim, mas de uma crítica instrumentalizada de maneira inadequada.
Daí que outra analogia com a Física se faz presente, a dos “Buracos brancos” ou “wormholes”. Por esta figura teórica, o físico supõe que tudo aquilo que “desaparece” no “horizonte de eventos” pode de alguma forma surgir em outro lugar distante tanto no tempo quanto no espaço. As obras de ficção científica gostam dessa figura teórica, pois com elas sustentam a possibilidade de viagens no tempo assim como a transposição de inimagináveis distâncias em poucos segundos.
Nessa nossa analogia, nossos “wormholes” (literalmente “buracos de minhoca”) se apresentam como a leitura capaz de ultrapassar os limites visíveis do “horizonte de eventos” descobrindo o que estava até então oculto, não imediatamente perceptível. Dizer que em Vidas Secas (nosso exemplo nesse artigo) existe uma postura ideológica marxista do autor perceptível na denúncia das condições subhumanas da sobrevivência daquela família de retirantes da seca no polígono das secas ou, ainda, demonstrar que a escrita do texto na obra se faz por períodos curtos com uma certa constância numerável entre subordinação e coordenação como resultado da incapacidade de apreensão da realidade pelas personagens em estado de alienação é ficar no limite do horizonte de eventos, ir além, criar um “wormhole”, uma passagem, é poder a cada caminho seguido ir sair em outro, do marxismo e da leitura sociológica ao formalismo e estruturalismo, da semiótica e estilística à hermenêutica e estética da recepção e tantos outros cruzamentos quanto se quiser num universo de múltiplas dimensões.
Desse modo, as fases de percepção estética, leitura compreensiva e leitura retrospectiva da obra literária, segundo a Estética da Recepção se mostram como partes de um processo que conforma um caminho que pode terminar na impossibilidade física de transposição do “horizonte de eventos” ou, se ousado, ir além, e buscar as vias de comunicação (“wormholes” - aqui, por analogia, gostaria de usar o termo “bookwormholes”).
Ainda outro conceito da Estética da Recepção que me faz pensar na proximidade programática com o Neo-estruturalismo Semiótico é o de “distância estética”.
“A distância entre o horizonte de expectativa e a obra, entre o já conhecido da experiência estética anterior e a ‘mudança de horizonte’ exigida pela acolhida à nova obra, determina, do ponto de vista da estética da recepção, o caráter artístico de um obra literária. À medida que essa distância se reduz, que não se demanda da consciência receptora nenhuma guinada rumo ao horizonte da expectativa ainda desconhecida, a obra se aproxima da esfera da arte ‘culinária’ ou ligeira.”
(JAUSS: 1994, p. 31-32)

Regina Zilberman avalia esse conceito de Jauss como muito próximo da visão estética estruturalista e formalista e, num certo sentido, limitada por ela:

“De um lado, a noção de valor é, tal como no estruturalismo, avessa à postura idealista que o deposita num conceito universal fora do tempo e da história; de outro, Jauss não escapa a uma fórmula simplista, segundo a qual quanto maior a distância, maior a arte.”
(ZILBERMAN: 1989, p. 35)

Esta simplicidade algo ingênua do conceito de “distância estética”, no Neo-estruturalismo Semiótico se resolve pela noção de “ressignificação simbólica”.
Como no Neo-estruturalismo Semiótico se busca ir além do aparente visível, mas não incognoscível e mostrar as relações simbólicas latentes intraliterárias e extraliterárias e recolocar a obra num processo de comunicação não apenas literária e literalmente artística, mas também, simbólica, pois supomos que a obra comunica simbolicamente e inconscientemente, a distância estética não se resumiria ao espaço entre a obra e o horizonte de expectativas do público, mas haveria um espaço imensamente maior, subjacente, oculto provisoriamente, esperando ser revelado de novas formas e intensidades, mas nunca completamente. Uma espécie de espaço, no todo inconcebível a qualquer trabalho crítico humano e, quanto maior a fortuna crítica ou a capacidade da obra de gerar essa fortuna (realizada ou não, afinal não podemos esquecer das injustiças críticas que se fizeram e se fazem acerca das obras olvidadas e que eventualmente são redescobertas, por exemplo: Sousândrade, Qorpo Santo, e tantos outros) maior se configura esse espaço para além do horizonte de eventos.
 Na nossa analogia com a Física, entramos num ramo dessa ciência mais teórica e de tal forma discutida no próprio âmbito da Física, que para alguns, beira o limite do rigor científico se aproxima de alguma espécie de misticismo ou esoterismo. David Bohm ao propor a concepção da existência duma ordem implicada e de outra manifesta. De que no âmbito do manifesto os fenômenos físicos podem ser explicados localmente e reproduzíveis, mas que por meio deles jamais se alcança uma idéia totalizante e que de outro modo, a ordem implicada configura algo incognoscível, mas que determina as especificidades de cada manifestação, estava, num certo sentido, abrindo a possibilidade de ligação do pensamento esotérico e místico (principalmente oriental) com a Física moderna. De nossa parte, podemos dizer que nosso “ir além do horizonte de eventos” e buscar a “ressignificação simbólica” dos símbolos latentes na obra estamos tentando a abertura de caminhos. Com efeito, a leitura de Mensagem de Fernando Pessoa ressignifica o brasão de Portugal e a história portuguesa, Avalovara ressignifica o selo do quadrado mágico (“Sator Arepo Tenet Opera Rotas” e a espiral, assim como O Fausto de Goethe ressignifica a figura do diabo e o perdão. Esses símbolos arquetípicos passam a ter nova significação e isto é resultado em grande medida do avanço sobre o horizonte de eventos. O mistério, que para Einstein, era o elemento mais belo a ser alcançado pelo conhecimento humano, no caso da literatura, se processa continuamente, porém, às vistas de instrumentais ainda parciais, a ação misteriosa muitas vezes passa por ser entendida apenas como resultado dum conjunto de causas que no mais das vezes é conseqüência, ou seja, é apenas a parte manifesta, ficando a ordem implicada cada vez mais distante do entendimento, quando na verdade, por ela se atinge a proximidade com o todo, apenas a proximidade, pois o todo é efetivamente incognoscível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOHM, David.  A Totalidade e a Ordem Implicada: uma nova percepção da realidade. Cultrix, São Paulo, 1992.
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
JAUSS, Hans Robert. A História da Literatura Como Provocação À Teoria da Literatura. São Paulo, Ática, 1994.
LOBO, Luíza. “Estética da Recepção” em: SAMUEL, Rogel (org.). Manual de Teoria Literária. Petrópolis, Vozes, 1985.
LUNA, Jayro. Teoria do Neo-estruturalismo Semiótico. São Paulo, Oportuno, 2006.
NICOLSON, Iain. Gravidade, Buracos Negros e o Universo. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1983.
ZILBERMAN, Regina. Estética da Recepção e História da Literatura. São Paulo, Ática, 1989.
Jayro Luna
Enviado por Jayro Luna em 07/08/2006
Código do texto: T211295
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Sobre o autor
Jayro Luna
São Paulo - São Paulo - Brasil, 56 anos
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