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Os limites da tolerância

Os limites da tolerância


Em épocas difíceis os valores que pautam a conduta do ser humano são postos à prova. Justamente em momentos de crise podemos conhecer parte do conteúdo interior das pessoas, uma vez que a “censura” é praticamente anestesiada pela intensidade de emoção que ali se manifesta.
Vivemos num momento peculiar na história da humanidade. A sociedade, de maneira geral, passa por uma transformação considerável, em decorrência dos avanços científicos, do advento da informática, internet, entre tantas outras novidades que se instalam no cotidiano das pessoas, com uma rapidez vertiginosa. A rapidez com que tudo acontece não permite que haja tempo para que se assimilem padrões de conduta, mais adequados às novas estruturas que vão surgindo.
Ocorre que o comportamento humano é a expressão, em ação, do conteúdo interior que possui. Os valores, as crenças, conceitos, pré-conceitos, enfim, a cultura em sua abrangência mais sutil, e sua carga genética.
Uma das características marcantes da atualidade é o culto ao tempo. Por alguma razão a sociedade contemporânea, praticamente, persegue o tempo, como se dele fosse extrair uma parcela a mais, assegurando-lhe algo vantajoso e vital.
Temos então um quadro perverso, já que produz a ilusão de eficiência. Esta compulsão em relação ao tempo, provoca nas pessoas uma ansiedade que, invariavelmente, passa a interferir no grau de tolerância que se utiliza para lidar com dia a dia.
Uma vez que estão todos correndo, afobados e provavelmente sobrecarregados, a tendência é exaltar-se sempre que algo desvie sua atenção, interrompa, ou saia diferente do previsto.
O que se deseja ressaltar é: até que ponto esta atitude irrefletida pode afetar a qualidade de vida das pessoas, pode interferir na produtividade efetiva de um profissional, e criar sérios desentendimentos nas relações interpessoais.
Estudos já mostram que a intolerância é produto da tensão constante entre o desejar  e o realizar. Avalia-se o grau de tolerância das pessoas baseado na capacidade que o indivíduo tem de driblar os contratempos sem chegar ao limite de sua paciência, e consequentemente, sem reagir tempestivamente, no decorrer desta tensão.
A tolerância nada mais é que a habilidade  para contornar diferenças, conflitos e até o caos, sem abrir mão da razão e bom senso.
Albert Einstein dizia que no meio da dificuldade está a oportunidade. Se tivermos flexibilidade para lidar com  conflitos, diferenças e dificuldades teremos a oportunidade de descobrir coisas novas, não raras vezes, e em diversos aspectos de nossa vida.
O estresse causado pelas inúmeras solicitações impostas pela sociedade, tal como está configurada, leva o ser humano a perder o contato com as coisas mais simples e que lhe proporcionavam bem estar e prazer. Isso se agrava conforme o tempo passa e esta tensão não se desfaz, apertando ainda mais o cerco, induzindo a um estado de agonia crônica, que muitas vezes não é percebido a não ser quando já está exacerbado.
O ser humano nasceu com o impulso para ser feliz, e pode-se afirmar que a felicidade é a capacidade de lidar adequadamente com cada situação que se vive. Se não consegue lidar com sua rotina, de tal sorte que sinta-se relativamente confortável, a infelicidade vai se avolumando aos poucos e provocando efeitos nocivos na conduta deste indivíduo.
O resultado desse processo é a intolerância em seu grau mais agudo. Isso estabelece uma relação propícia a violência, retro alimentada pela generalização deste comportamento na sociedade como um todo.
Tudo começa com uma pequena falta de paciência, e se não é bem trabalhada irá progredindo num crescer até ganhar proporções desastrosas que impedirão qualquer relacionamento saudável.
Muito comum sermos, ironicamente, tolerantes com a intolerância das pessoas em algumas situações. Não alcançamos talvez, a gravidade e importância que este comportamento tem na vida de quem o pratica e de todas que com ela se relacionam.
Quando levantamos bandeiras, organizamos movimentos, investimos em propagandas e campanhas em prol da Paz, esquecemos que a violência não esta fora do ser humano, mas dentro dele. Que o que vemos fora são os efeitos que a violência provoca. Sabe-se que para resolver um problema é necessário chegar à causa e lidar com ela, pois só assim desaparecerão os efeitos que ela provoca.
Portanto, é de extrema importância que todos nos, que formamos a sociedade, tenhamos a consciência de que é preciso haver tolerância, aceitação e flexibilidade em todos os segmentos de nossa vida. Para isso deve-se investir sim na compreensão das pessoas em relação ao comportamento. Primeiro mudamos o modo de pensar e depois o modo de agir.
 Impossível exterminar a violência, pois ela habita dentro de cada ser humano. Penso que se deve levar em conta a utilidade que tem, nos auxiliando em determinadas situações. O que me parece lógico e necessário é aprender a lidar com ela. Há que se conduzi-la e não sermos por ela dominados. Precisamos aprender a dirigi-la satisfatoriamente de modo a torná-la uma aliada em nossa vida, que seja produtiva e não destrutiva.
Esse talvez seja um dos grandes desafios que a modernidade nos lança. Não podemos assistir a degeneração das relações interpessoais sem interferir, uma vez que temos o poder e a capacidade para tal. E enquanto o ser humano distrair-se imaginando estratégias para acabar com a violência na sociedade, tendo como objeto os efeitos, nada conseguirá e estará retardando a evolução da humanidade.
Se refletirmos sobre os limites da tolerância, estaremos em ultima análise, levando em conta a essência da cidadania, que nada mais é do que viver em harmonia dentro das diferenças.
Que tal aceitarmos o desafio todos juntos?





Priscila de Loureiro Coelho
Consultora de Desenvolvimento de Pessoas
Priscila de Loureiro Coelho
Enviado por Priscila de Loureiro Coelho em 01/06/2005
Código do texto: T21326
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Sobre a autora
Priscila de Loureiro Coelho
Jacareí - São Paulo - Brasil, 65 anos
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Priscila de Loureiro Coelho