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ORDEM E PROGRESSO EM OS SERTÕES DE EUCLIDES DA CUNHA (Breve análise de caráter baseado no Neo-estruturalismo Semiótico)

ORDEM E PROGRESSO EM OS SERTÕES DE EUCLIDES DA CUNHA
(Breve análise de caráter  baseado no Neo-estruturalismo Semiótico)
Prof. Dr. Jayro Luna (Jairo Nogueira Luna)

A obra Os Sertões (1905) de Euclides da Cunha é um dos pilares literários da fundamentação teórica da Análise Sociológica da Literatura em Literatura Brasileira. Abundam teses, dissertações, artigos, resenhas e resumos que destacam os aspectos ideológicos do autor e de como esses aspectos foram se modificando à medida que Euclides dava contornos finais a sua obra. De como as suas crenças científicas fundadas no Positivismo e no Determinismo foram sendo modificadas sutilmente até o ponto de Euclides, contradizendo as teses raciais vigentes, dizer que “o sertanejo é antes de tudo um forte”, ou ainda, quando da vitória do exército republicano, em que Euclides nos apresenta o cenário da mais terrível barbárie com elementos da sandice e loucura por parte dos vencedores em contraposição ao heroísmo, bravura e resistência dos vencidos.
Massaud Moisés comentando acerca do significado geral de Os Sertões para a História da Literatura Brasileira, afirma ser esta obra euclidiana um divisor de águas, o limite entre a idealização da pátria e a análise social do retrato brasileiro, o marco final das ilusões românticas diante da rudeza e crueza do cenário concreto da nossa sociedade:

“Seja como for, Os Sertões anunciavam o término do ciclo romântico de nossa visão idílica da história pátria. Iniciava-se a hora da verdade, com a derrocada ‘de um falso idealismo, que era a pior das idealizações, porque era a idealização dos aspectos inferiores da nossa natureza’. Na sua visão do mundo, o Brasil nacionalizava-se ao tomar consciência do seu ego dividido, e ao exprimir-se ‘pela linguagem mais épica que ainda se escreveu em prosa portuguesa’, indicava a superação, ainda que parcial, dos vínculos com a Literatura Portuguesa. Vazado ‘em estilo brasileiro, com a ênfase, a truculência, o excesso, a exuberância, o brilho, o arremesso, a prodigalidade, a magnificência, que nos autorizavam e talvez nos singularizem no mundo’, preludiava, na sua denúncia, o romance social dos anos 30: a revolução literária de 1922, inaugurando a modernidade, começa em 1902, com Os Sertões.”
(MOISÉS: 1984, p. 572)

Na busca da definição mais pertinente do perfil ideológico que gerou Os Sertões, Alfredo Bosi comenta, apoiando-se nos trabalhos de Gilberto Freire e de Franklin de Oliveira que Euclides parece ter os elementos necessários para inseri-lo numa linha de caráter socialista democrático:

“Não se veja, porém, no autor de Os Sertões um pessimista míope, afeito apenas a narrar as desgraças inevitáveis de homens e raças, incapaz de vislumbrar alguma esperança por detrás da struggle for life de um determinismo sem matizes. Quem julgou o assédio a Canudos um crime e o denunciou era, moralmente, um rebelde e um idealista que se recusava, porém, ao otimismo fácil. (...) Mas, não podendo, por outro lado, seu forte senso de liberdade aceitar qualquer forma autoritária de governo (...) aproximava-se politicamente do socialismo democrático.”
(BOSI: 1969, p. 24)

  Adilson Citelli nos apresentando um bem organizado “Roteiro de Leitura” de Os Sertões, conclui, comentando acerca da situação limite que se colocava para Euclides da Cunha em relação à validade das teses científicas deterministas e positivistas de seu tempo, que:

“Foi graças a esta tensão teórica e ideológica que Euclides da Cunha pode, progressivamente, em Os Sertões afastar-se da crença na existência de um complô político anti-republicano em Canudos, assim como redefinir seu ponto de vista sobre os sertanejos. No solo recrestado, no meio dos difusos sonhos igualitários e messiânicos de Antônio Conselheiro, entre cactos e espinhos, Euclides mostrou ao país que as razões civilizatórias e do Estado ao investirem contra Canudos aclararam, no sentido integral do termo, as linhas da loucura e dos crimes que foram capazes de cometer em nome da construção da nacionalidade.”
(CITELLI: 1999, P. 117)

Nicolau Sevcenko observa como para Euclides da Cunha a Literatura era um instrumento privilegiado de discussão e apresentação de suas idéias políticas e sociais. Que seu amálgama de Positivismo, Determinismo e Socialismo, este baseado mais no Liberalismo Humanitário Inglês e numa reinterpretação de Spencer do que em qualquer outro autor:

“Ciência, indústria, direito, república, civilização e socialismo: todo esse conjunto de conceitos encadeados necessitaria para atingir a realização prática e a consolidação, em plena sintonia com as pulsações próprias da lei da evolução, de uma propaganda ampla e eficaz. Desde a adolescência, militando como abolicionista e republicano, essa foi a fé de Euclides. Nada marca mais a atitude intelectual desse escritor do que a tenacidade do seu apego ao verbo. ‘Vemos como é forte essa alavanca - a palavra - que alevanta sociedades inteiras, derriba tiranias seculares...’. Quando recebe de Machado de Assis a comunicação do seu ingresso para a Academia Brasileira de Letras, no rol dos grandes literatos da nação, declara enfático: ‘Não sei de nenhum posto mais elevado neste país’. A maneira como a literatura se transformou no instrumento privilegiado de difusão de suas convicções é transparente, elas estão incrustadas na própria textura de sua linguagem.”
(SEVCENKO: 1983, p. 151)

Assim, a obra de Euclides é resultado, também, de uma confluência de gêneros e formas. História e Literatura, Jornalismo e Criação Literária, Épica e Tragédia. Nossa breve análise não se deterá na recolocação de aspectos tão amplamente e competentemente já abordados. Trabalhos como o de Valentim Facioli(1), Walnice Nogueira Galvão (2), Ataliba Nogueira (3), Adilson Citelli (4), entre outros podem servir de orientação para entrar e compreender um pouco a riqueza dessa obra. Nosso intuito é apenas fazer uma colocação nova, sutil, oriunda de nosso método próprio de análise que é o Neo-estruturalismo Semiótico e, por isso, abordaremos a ressignificação do lema “Ordem e Progresso” a partir de Os Sertões.
Partiremos do que parece mais óbvio na obra, a razão de sua divisão em três partes: A Terra, O Homem, A Luta. Essa divisão se baseia numa visão determinista do processo de ocupação da terra. O sertão é apresentando com suas características geográficas, de relevo, climáticas, hidrográficas demonstrando o conhecimento científico-positivista de Euclides da Cunha na apresentação das características naturais do território estudado. Estes estudos são para Comte parte do “Estudo da Terra ou Cosmologia”.  O conjunto de estudos científicos seguintes forma para Comte o “Estudo do Homem e Sociologia” e inclui a biologia, a sociologia e a moral. Nesse caso, a segunda parte, “O Homem” corresponde à parte preliminar desse conjunto (biologia) e à parte coletiva do estudo Final (Sociologia). A terceira parte de Os Sertões resulta do desenvolvimento do estudo histórico fundado na Filosofia Moral.
Essa divisão tripartite, no entanto, não obedece ao rigor esperado da própria titulação das partes e subpartes, havendo, por vezes, notadamente na terceira parte explicações que parecem mais pertencer ao caráter descritivo das duas partes anteriores.

“Essa divisão geral, contudo, não obedece a critérios tão rígidos quando os títulos e subtítulos parecem dar a entender. Apontando como uma das causas geradoras do drama que constitui a razão de ser do livro, como o motivo do isolamento - ou insulamento. Como prefere Euclides - que distanciou, mais no tempo do que no espaço, o homem do sertão de seu irmão do litoral, o cenário transforma-se freqüentemente em personagem da própria ação que sobre ele se desenrola. Sobrepõe-se então, por vezes, à luta, ou integra-se nela, alterando-lhe até os rumos, como uma milícia fantástica que, aliada ao jagunço, com que se entende, investe contra o invasor que fatalmente irá transformá-la em deserto.”
(BARROS: 1982, p. 12)

O que queremos de pronto destacar é que como Euclides era bom conhecedor das teorias positivistas e deterministas, sabia ele que antecedendo aos estudos da Física estava, para Comte, o da Matemática. Comte, talvez, prestando tributo ao pensamento pitagórico, coloca a Matemática como a ciência da abstração que antecede na ordem a todas as outras.
Em Os Sertões, de Euclides da Cunha, o fato de que a primeira parte ecoa nos parágrafos da segunda, e estas duas na terceira parte não é resultado apenas de um afrouxamento da divisão das partes, mas sim conceituação pitagórica, uma vez que cada número seguinte à unidade, contém não apenas a própria unidade em potência, como também o número precedente. Por isso, o 3 contém o 2 e o 1, e o 2 contém o 1. Essa fundamentação pitagórica tem, por sua vez, suas bases no pensamento místico oriental.
Ao dizermos que o 3 contém o 2 e assim sucessivamente, não significa que as qualidades abstratas numéricas do 2 está no número 3, mas sim que a realidade concreta que nos permite a apreensão do número 3 está condicionada à apreensão precedente do número 2 e deste, por sua vez, do número 1. Nesse sentido, a terceira parte de Os Sertões só é apreensível enquanto “Luta” se está se dá entre seres (“O Homem”) ou entre estes e o ambiente (“A Terra”) no processo de dominação da terra.
As duas primeiras partes do livro são simétricas nas suas subdvisões. Cinco subpartes para cada. “A Terra” está subdividida em: I. Preliminares. A Entrada do sertão. Terra Ignota. Em Caminho para Monte Santo. Primeiras Impressões. Um sonho de geólogo. II. Do alto de Monte Santo. Do alto da Favela. III. O clima. Higrômetros singulares. IV. As secas. Hipóteses sobre a gênese das secas. As caatingas. A tormenta. Ressurreição da flora. O umbuzeiro. A jurema. O sertão é um paraíso. Manhãs sertanejas. V. Uma categoria geográfica que Hegel não citou. Como se faz um deserto. Como se extingue um deserto. O martírio secular da Terra.
A segunda parte do livro, “O Homem” tem as cinco subpartes formadas cada uma por um conjunto de tópicos que podem variar de 7(subparte I) até 22 (caso da subparte III). A falta de títulos para cada subparte tanto da “A Terra” como de “O Homem” pode indicar que Euclides da Cunha tinha em mente uma ordem que não quis ou não achou conveniente divulgar, o que justificaria essa divisão, caso contrário, seríamos forçados a pensar que a extensão e a subdivisão das partes fora casual ou oriunda de um processo de composição algo preso ao ritmo diacrônico da escrita.
No caso de “A Terra” podemos sugerir um conjunto de títulos conforme o contexto geral de cada subparte, desse modo:
I. Chegada de Euclides ao Sertão: Primeiras Impressões;
II. Descrição Geral de Monte Santo;
III. O Clima do Sertão de Canudos;
IV. Estudo e Hipóteses acerca do regime das Secas;
V. Conclusões teóricas acerca da Seca.
Quanto à segunda parte, “O Homem” sugerimos a seguinte nomeação das partes:
I. Etnologia e relação com os aspectos climáticos e de vegetação da região;
II. O Rio São Francisco e a formação tipológica das funções do sertanejo: Jagunços e Vaqueiros;
III. Aspectos culturais, sociais, religiosos da tipologia do Sertanejo;
IV. Estudo biográfico e sociológico da figura de Antônio Conselheiro;
V. Estudo sociológico de Canudos.
Essa divisão das duas primeiras partes do livro demonstra uma simetria no trato dos dois assuntos que determinam a natureza de cada parte, a terra e o homem. Para Comte 5 são as grandes ciências: Matemática, Física, Biologia, Sociologia e Moral. Também no Positivismo Comtiano 5 são os processos intelectivos  ou funções intelectuais:
1. Concreta ou relativa aos seres, essencialmente sintética;
2. Abstrata, ou relativa aos acontecimentos, essencialmente analítica;
3. Indutiva, ou por comparação, de onde Generalização;
4. Dedutiva, ou por coordenação, de onde Sistematização;
5. Expressão: mímica, oral, escrita, de onde Comunicação.

Para Comte as quatro primeiras funções intelectuais estão agrupadas sob o tópico denominado de Concepção, que pode ser ativa ou passiva.
É possível ajustar o quadro das cinco subpartes de “A Terra” e “O Homem” às cinco funções intelectuais ou ainda, às cinco grandes ciências. Porém, tal ajuste se configuraria superficial tendo em vista o que já expusemos acerca da própria natureza integrada das três partes em que se divide no todo o livro. O que fica, ao final, é a visão simétrica da divisão das partes segundo um princípio estruturalmente harmônico, configurando-se mesmo como uma visão científica tanto da terra quanto da ocupação desta terra pelo homem. Ou dizendo de outra forma, a primeira e a segunda partes do livro demonstram uma rigorosa ordem compositiva no processo de divisão e análise dos assuntos específicos. A própria palavra ordem se compõe de cinco letras em português. A origem do lema na nossa bandeira, sabidamente de natureza positivista comtiana serve de base, de certo modo, à organização do pensamento euclidiano. Porém, o que podemos perceber é que a ordem inicialmente proposta vai se degenerando mais do que evoluindo com a escrita da terceira parte, “A Luta”.
Assim, esta terceira parte é dividida em outras seis, a saber: 1. A luta; 2. A Travessia do Cambaio; 3. Expedição Moreira César; 4. Quarta Expedição; 5. Nova fase da Luta; 6. Últimos Dias. Cada subparte tem uma divisão interna variada, conforme já ocorrera em “A Terra” e “O Homem”. “A Luta” tem 4 capítulos; “A Travessia do Cambaio” tem 6 capítulos; “Expedição Moreira César” tem outros 6 capítulos; “Quarta Expedição” tem 8 capítulos; “Nova Fase da Luta” se divide em apenas 3 capítulos e “Últimos Dias” tem 7 capítulos.  Essa complexidade maior na organização das partes parece corroborar o pensamento spenceriano acerca do modo como as sociedades tendem da simplicidade à complexidade. A “ordem” inicial dominada pela ação da natureza se vê agora modificada pela ação direta dos conflitos sociais no cenário natural e nessa interação, cenário e agente (o homem) se modificam.
Em Comte o lema que definia a base da religião positivista era “O Amor por base, a Ordem por princípio e o Progresso por fim”. Teixeira Mendes, discípulo de Comte no Brasil sintetizou o lema para inseri-lo na bandeira republicana. Nessa síntese o primeiro elemento da tríade (“Amor”) foi excluído. A estrutura tripartite de Os Sertões, porém, se conforma bem nessa tríade positivista. O Amor relaciona-se à Terra, enquanto Natureza; A Ordem à parte “O Homem” enquanto ser que domina a Natureza por suas faculdades intelectuais, impondo assim uma ordem social ao meio; por fim o Progresso é o fim natural das sociedades organizadas hierarquicamente segundos a orientação intelectual e científica.
Já se observou na linguagem de Euclides da Cunha em Os Sertões um trabalho rico em figuras como onomatopéias, hipérboles, antíteses, metáforas e metonímias. No caso específico da paragrafação e da sonoridade das palavras, nota-se uma riqueza rítmica e sonora que visa criar nas palavras a sensação da rudeza da batalha e do cenário da caatinga. Como no trecho a seguir:

“Bombardeou-se a montanha. Arrojadas de perto as granadas e lanternetas, batendo-lhe em cheio os flancos ou ricocheteando, confundiam nos ares as balas e estilhas de ferro com o lastro aspérrimo das encostas rijamente varridas; em arrebentando entre fraguedos, deslocando-os, derrubando-os, fazendo-os, rolar com estrépito pelos pendores abaixo, como um súbito derruir de lanços de muralhas, pareciam desmascarar inteiramente as posições contrárias. Mas, foram contrapoducentes. Estimularam, réplica violentíssima, estupenda, inexplicável, expluindo maior e mais viva dentre o desabamento das trincheiras. Os atiradores suportavam-na a custo. Rareavam.”
(Os Sertões, “Diante das Trincheiras”)

Essa construção comum nas páginas da obra euclidiana não se restringe aos momentos de batalhas, mas também pode ser encontrada, por exemplo, na descrição do cenário da caatinga:

“Então os terrenos da extrema setentrional da Bahia, que se resumiam nos cachopos de quartizito de Monte Santo e visos da Itiúba, esparsos pelas águas, avolumaram-se, num ascender contínuo. Mas nesse vagaroso altear-se, enquanto as regiões mais altas, recém-desvendadas, se salpintavam de lagos, toda a parte média daquela escarpa permanecia imersa. Uma corrente impetuosa, de que é forma decaída a atual da nossa costa, enlaçava-a. E embatendo-a, e corrondo-a,  e triturando-a, remoinhando para oeste e arrebatando todos os materiais desgregados, modelava aquele recanto da Bahia até que ele emergisse de todo, seguindo o movimento geral das terras, feio informe amontoado de montanhas derruídas.”
(Os Sertões, “Um Sonho de Geólogo”)

Parece mesmo que a batalha sangrenta que se narraria nas partes finais do livro se prefiguram na própria forma como o autor nos conta a formação geológica da região: o movimento das terras, a erosão, a modificação da paisagem é apresentada como se fosse um choque de forças antagônicas. Num outro trecho, entre tantos outros, vemos como o autor descreve o estouro da boiada:

“Destroem-se em minutos, feito montes de leivas, antigas roças penosamente cultivadas; extinguem-se, em lameiros revolvidos, as ipueiras rasas; abatem-se, apisoados, os pousos; ou esvaziam-se, deixando-os os habitantes espavoridos, fugindo para os lados, evitando o rumo retilíneo em que se pespenha a ‘arribada’, - milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitando na carreira doida. E sobre este tumulto, arrodeando-o, ou arremessando-se impetuoso na esteira de destroços, que deixa após si aquela avalanche viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas, e valos, e cerros, e galhadas - enristado o ferrão, rédeas soltas, soltos os estribos, estirado sobre o lombilho, preso às crinas do cavalo - o vaqueiro!”
(Os Sertões, “Estouro de boiada”)

Não foi por acaso que o poeta Augusto de Campos resolveu criar ou extrair poemas dos parágrafos de Os Sertões. A riqueza rítmica e sonora está por toda parte na obra. Parágrafos de períodos extensos, cheios de gradação (notadamente com verbos no gerúndio seguidos de um pronome com função de objeto direto), a utilização seqüencial da desinência de número (-s), as vírgulas, a riqueza de dígrafos, encontros consonantais, tudo isso dá um aspecto singular à textura da obra.
Na gramática da língua portuguesa se considera como a sílaba natural aquela formada por um consoante e uma vogal (CV). As variações possíveis a este padrão ocorrem com relativa constância, mas no conjunto mostram-se inferiores em quantidade ao padrão. Sílabas como VC (invertida ao padrão), CVC (CURta), CCV (PROva), CCVC (TRANSporte), CVV (CAUsa), por exemplo são relativamente poucas.
Na Teoria da Informação a seqüência previsível ou possível de letras ou fonemas numa dada língua origina conceitos como o de “dependência seqüencial” e do “cadeia de Markov”:

“Uma cadeia de Markov pode ser definida como um processo probabilístico no qual o desenvolvimento futuro depende estatisticamente do estado presente e, de modo algum, pela forma com que se chegou a ele.”
(EPSTEIN: 1986, p. 59)

No caso das 26 letras do alfabeto em português e mais o espaço em branco entre palavras, se temos uma seqüência da qual faltam algumas letras ou ainda, se uma ordem prevista tem uma alteração (por erro ortográfico, por exemplo) é perfeitamente ao leitor reconstituir a forma original sem grande esforço, muitas vezes. Como em “possbilidade” (falta o “i”), ou “conrtario” (no lugar de “contrário”).  Por outro lado, nesse raciocínio, é também perceber, em certos casos, quando uma palavra não pertence à língua portuguesa. Por exemplo, a seqüência CCCC (quatro consoantes seguidas) é incomum na nossa língua, mas recorrente em outras, como na palavra volkswagen.
No caso da sonoridade de Os Sertões esse padrão da língua portuguesa se vê constantemente alterado por um aumento da freqüência média de dígrafos, de encontros consonantais, de terminações de gerúndio, de desinências de número (-s). O próprio título, no plural - razão de algumas discussões acerca do sentido desses vários sertões - não tem uma só sílaba na seqüência comum CV: Os Sertões (VC - CVC / CVVC). O lema positivista adaptado por Teixeira Mendes, “Ordem e Progresso” também não: VC / CVC - V- CCV/ CCV(C) - CCV. A palavra “Amor” do lema original também não (VC / CVC).  Singular ainda é o fato de que A primeira parte “A Terra” tem ao centro de “Sertões”, e que também não tem a previsível  sílaba CV : “A Terra” = V - CV(C) / VVC. A segunda parte, “O Homem” formada por um som vocálico seguiu de “m” e uma vogal “e” nasalizada  e iniciando por um grafema consonantal sem som pode ser representada no “Õ” de “SertÕes”. “A luta”, por fim, está representada no título se subtraímos as letras com que representamos as duas primeiras partes (“t”, “õ”), ficando “seres”: palavra palíndromo que indica a possibilidade de leituras em dois sentidos, mas também o conflito de seres, a própria luta.
Quanto ao “Progresso”, nessa nossa observação sobre a forma do título do livro, é significativo o fato de que o final de “Progresso” ecoa numa forma invertida do sentido da leitura em “OS SErtões” (OSSErgorp - progrESSO).  A “ordem” pois que já se apresenta no título é na verdade a da alteração constante da ordem, da mudança constante do que é previsível pelo que é imprevisível. Não é por acaso a constância com que Euclides usa palavras como “indescritível”, “inexplicável”, “imprevisto” entre outras da mesma esfera semântica.
Seguindo um caráter de documento histórico e jornalístico, Os Sertões narra a seqüência das quatro expedições contra Canudos, dando destaque para a de Moreira César (terceira expedição) e a quarta, a chefiada por Artur Oscar de Andrade Guimarães. O destaque para essas duas é em virtude dessas representarem o combate entre o exército republicano e Canudos, além de suas proporções, bem maiores que as duas primeiras: a do tenente Pires Ferreira era uma força policial de 107 homens organizada em Juazeiro; a segunda, organizada em Salvador, era comandada pelo major Febrônio de Brito e também não tinha a organização militar das posteriores, embora somasse 560 soldados e dois canhões.
Na breve narrativa da expedição de Pires Ferreira, destaca-se a inoperância da expedição, de como o que poderia ter sido considerado vitória se tornou um exemplo de fracasso e desorganização em contradição com os números, uma vez que o combate de Uauá resultou em mais de 150 sertanejos mortos contra apenas uma dezena de soldados:

“Apavorara-o a própria vitória, se tal nome cabe ao sucedido, pois as suas conseqüências o desanimavam. O médico da força enlouquecera... Desvairara-o o aspecto da peleja. Quedava-se inútil, antes os feridos, alguns graves.”
(Os Sertões, “Primeiro Combate”)

Neste episódio, destaca Euclides a resistência e o apego com que os seguidores de Antônio Conselheiro seguravam o estandarte com a bandeira do divino, e de como com tal símbolo se atiravam loucamente diante das armas dos soldados:

“E a turba fanatizada, entre vivas ao ‘Bom Jesus’ e ao ‘Conselheiro’, e silvos estridentes de apitos de taquara, desdobrada, ondulante, a bandeira do Divino, erguidos para os ares os santos e as armas, seguindo empós o curiboca  audaz que levava meio inclinada em aríete a grande cruz de madeira - atravessou o largo arrebatadamente...”
(Os Sertões, “Primeiro Combate”)

A segunda expedição tem um espaço maior na obra, Euclides conta em detalhes as batalhas e as estratégias de ambos os lados, destacando a ferocidade e a valentia beirando à loucura de todos os envolvidos. A derrota da expedição dirigida por Febrônio de Brito é destacada, ao contrário da inválida vitória superficial de Pires Ferreira:

“Ora, a retirada do major Febrônio se, pelo restrito do campo em que se operou, não se equipara a outros feitos memoráveis, pelas circunstâncias que a enquadraram é um dos episódios mais emocionantes de nossa história militar. Os soldados batiam-se ia para dois dias, sem alimento algum, entre os quais mediava o armistício enganador de uma noite de alarmas; cerca de setenta feridos enfraqueciam as fileiras; grande número de estropiados mal carregavam as armas; os mais robustos deixavam a linha de fogo para arrastarem os canhões ou arcavam sob feixes de espingardas, ou, ainda, em padiolas, transportavam malferidos e agonizantes - e, na frente desta multidão revolta, se estendia uma estrada de cem quilômetros, em sertão maninho, inçado de tocaias...”
(Os Sertões, “Retirada”)

Lembrando um pouco a Retirada da Laguna, de Taunay, aqui Euclides valoriza a bravura da tropa que busca enfrentar não apenas o opositor fanático e audaz, mas também o cenário duro e inóspito oferecido pela natureza concretizado na estrada de cem quilômetros que se avultava diante da tropa em fuga, assim, ficar e enfrentar o inimigo não é esforço maior do que a própria retirada.
A terceira expedição tem uma quantidade maior ainda de detalhes, todas etapas da preparação, as informações biográficas acerca do comandante Moreira César, sua influência no governo de Floriano Peixoto, tudo cria uma introdução dramática para os combates que se desenvolveriam.
Falando do comandante, destaca sua carreira, as vitórias conseguidas em outras campanhas, mas não deixa aqui e ali, de em fazendo a descrição física, mostrar como era possível perceber numa falsa aparência de herói destemido e vitorioso os índices de um fracasso por vir:

“Tinha o temperamento desigual e bizarro de um epiléptico provado, encobrindo a instabilidade nervosa de doente grave em placidez enganadora.
Entretanto, não raro, a sua serenidade partia-se rota pelos movimentos impulsivos da moléstia que somente mais tarde, mercê de comoções violentas, se desvendou inteiramente nas manifestações físicas dos ataques.”
(Os Sertões, “Moreira César”)

Na descrição dos fracassos e insucessos que se seguem na grandiosa e desastrosa expedição de Moreira César, Euclides narra o momento em que o comandante é ferido na batalha e passa o comando ao Coronel Tamarindo, que não tem outra preocupação àquela altura do que salvar seu próprio batalhão. Moreira César, ferido duas vezes, agoniza alguns dias, até que morrendo, o comando passa definitivamente ao Coronel Tamarindo. A retirada que se faz, ao contrário da retirada de Febrônio de Brito é marcada pelo fracasso, o modo como os canhões foram cair nas mãos dos fanáticos seguidores de Antônio Conselheiro ganha cores de tragédia:

“Pela beira da estrada, viam-se apenas peças esparsas de equipamentos, mochilas e espingardas, cinturões e sabres, jogados a esmo por ali afora, como coisas imprestáveis.
Inteiramente só, sem uma única ordenança, o coronel Tamarindo lançou-se desesperadamente, o cavalo a galope, pela estrada - vanguarda. E a artilharia ficou afinal inteiramente em abandono, antes de chegar ao Angico.
Os jagunços lançaram-se sobre ela.
Era o desfecho. O capitão Salomão tinha apenas em torno meia dúzia de combatentes leais. Convergiam-lhe em cima os golpes; e ele tombou, retalhado a foiçadas, junto dos canhões que não abandonara.
Consumara-se a catástrofe...”
(Os Sertões, “Salomão da Rocha”)

A quarta expedição, aquela que finalmente vencerá a bravura religiosa dos seguidores do Conselheiro, também narrará momentos de pura ferocidade, mas também, o modo desumano, tão ou mais do que os fanáticos aplicaram às expedições em fuga. É como se a guerra apresentada fosse marcada pela inconseqüência de todas as ações, por uma atmosfera de insensatez que permeasse cada ato aparentemente racionalizado.

“O general Artur Oscar avaliou, então, com segurança, o estado das coisas. Pediu um corpo auxiliar de cinco mil homens e curou de dispositivos para garantir a força que triunfara de maneira singular, a pique de uma derrota. Estava, depois de mais um triunfo, na conjuntura torturante de não poder arriscar nem um passo à frente, nem um passo atrás. Oficialmente, as ordens do dia decretavam o começo do sítio. Mas, de fato, como sempre sucedera desde 27 de junho, a expedição é que estava sitiada. Tolhia-o o arraial a oeste. Ao sul, os altos da Favela fechavam-se-lhe atravancados de feridos e doentes. Para o norte e o nascente, se desenrolava o deserto impenetrável. A área de sua ação aparentemente aumentara. Dois acampamentos distintos pareciam denotar mais larga movimentação, liberta da constrição de trincheiras envolventes. Esta ilusão, porém, extingui-se no próprio dia do assalto. Os cerros, varridos de cargas de baionetas poucas horas antes, figuravam-se de novo guarnecidos. As comunicações com a Favela tornaram-se logo dificílimas. Tombavam, novamente baleados, os feridos que para lá se arrastavam; e um médico, o Dr. Tolentino, que na tarde do combate dali descera, caíra, gravemente ferido, na ribanceira do rio. A travessia no campo conquistado fez-se problema sério aos conquistadores.”
(Os Sertões, “Nos flancos de Canudos”)

Quando o assalto finalmente se mostra vencedor, também o crescente das descrições de desumanidade se arrolam nos parágrafos:

“Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão.
Um golpe único, entrando pelo baixo-ventre. Um destripamento rápido...
Tínhamos valentes que ansiavam por essas cobardias repugnantes, tácita e explicitadamente sancionadas pelos chefes militares. Apesar de três séculos de atraso, os sertanejos não lhes levavam a palma no estadear idênticas barbaridades.”
(Os Sertões, “A degola”)

O assalto ao povoado de Canudos também envolve atrocidades descritas por Euclides da Cunha. Mulheres, velhos e crianças não escaparam da mortandade, e muitas suicidaram-se com seus filhos antes de encontrarem a tropa de soldados:

“Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos?...
E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os prisioneiros válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele Antônio Beatinho, que se nos entregara, confiante - e a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre esta fase obscura da nossa história?”
(Os Sertões, “Canudos não se rendeu”)

A figura de Antônio Conselheiro, no seu momento derradeiro na obra, é um cadáver em estado de putrefação que, no entanto, ainda atemoriza o vencedor:

“Desenterram-no cuidadosamente. Dádiva preciosa - único prêmio, únicos despojos opimos de tal guerra! - faziam-na mister os máximos resguardos para que se não desarticulasse ou deformasse, reduzindo-se a uma massa angulhenta de tecidos decompostos.
Fotografaram-na depois. E lavrou-se uma ata rigorosa firmando a sua identidade: importava que o país se convencesse bem de que estava afinal extinto aquele terribilíssimo antagonista.”
(Os Sertões, “O cadáver de Antonio Conselheiro”)

Com ironia Euclides apresenta o troféu dos vencedores, a cabeça de um fanático já em estado de decomposição, morto que fora não por tiros ou golpes de baioneta, mas provavelmente por diarréia. A cabeça fora depois enviada ao médico Dr. Raimundo Nina Rodrigues, afamado discípulo das teses evolucionistas e deterministas. Buscando nas medidas do crânio informações que confirmassem a tese de que os males psicológicos poderiam ser encontrados por índices físicos de anormalidades do crânio, teve que ao afinal atestar, que em contradição às expectativas, o crânio de Antônio Conselheiro não apresentava sinais de loucura.
O livro de Euclides termina com um capítulo de somente “duas linhas” (aliás, este é o título), concisão que se contrapõe ao conjunto de extensos períodos que caracterizava toda a narrativa:

“É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades”

Henri Maudsley, médico cientista defendia a idéia de monomanias de caráter instintivas  e as de caráter raciocinantes, estas também conhecidas como “loucura moral”, expressão bem ao gosto comtiano.
Assim, ironicamente, Euclides conclui que falta um tipo de conhecimento que supera a previsibilidade física proposta pelas teses científicas deterministas. Spencer não poderia ser esse “Maudsley” pois ele via a sociedade análoga ao modo como via um animal vivo em processo evolutivo. Faltava às teses conhecidas por Euclides um modo de compreender como a “ordem” e o “progresso” de que o estado deveria ser representante tornaram-se de fato, naquele cenário da guerra insana, em loucura generalizada: “Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam, no relevo das circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura...”
Desse modo, a “ordem” é substituída pela desordem, pelo caos, ao progresso se sobrepõe a casualidade e o despropósito. Resta para Euclides intuir na existência de alguma coisa vindoura que pudesse reorganizar o caos da sociedade, embora já na nota inicial do romance, confirme sua fé nas idéias de um Gumplowicz (“A civilização avancará nos sertões impelida por essa implacável ‘força motriz da Hitória’”), o fato é que o modo como se horroriza com os desdobramentos dos combates, com a insanidade de vencedores e vencidos acaba por demonstrar em Euclides a intuição de que existe uma outra ordem com uma outra noção de progresso a que ainda não tem elementos concretos para entender: “O sertão é o homizio. Quem lhe rompe as trilhas ao divisar à beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime. Tira o chapéu, e passa.” (Os Sertões, “Um grito de protesto”).

Notas:
1.FACIOLI, Valentim. Euclides da Cunha: A Gênese da Forma. Tese de Doutoramento, FFLCH/USP, 1993.
2.Edição crítica por Walnice Nogueira Galvão de Os Sertões de Euclides da Cunha, São Paulo, Brasiliense 1985. A edição vem com brilhante prefácio escrito pela professora e pesquisadora.
3.NOGUEIRA, Ataliba. António Conselheiro e Canudos. São Paulo, Nacional (Col. Brasiliana 355), 1978.
4.Além do Roteiro de Leitura: Os Sertões (São Paulo, Ática, 1999) indicamos a tese de doutoramento, FFLCH/USP, 1991: Os Caminhos da Salvação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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CITELLI, Adilson. Roteiro de Leitura: Os Sertões de Euclides da Cunha. São Paulo, Ática, 1999.
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Jayro Luna
Enviado por Jayro Luna em 13/08/2006
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Jayro Luna
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