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De Chico

Foi assistindo a Chico (2002) que esta jornada começou. O filme de Ibolya Fekete fala da vida de um cosmopolita perfeito (Eduardo Rosza), nascido na América Latina, Húngaro-Cristão filho de um judeu comunista, que ao longo da vida descobre a luta social e a carrega como fardo por países como a Hungria, a antiga Yusgoslavia e Croácia, bem como a fronteira Greco-Albanesa e mais alguns cantos em uma época de Guerra Fria entre a Russia e os Estados Unidos, e a guerra ideológica entre o capitalismo e o comunismo.

  O filme em si não é dos melhores, mas a história certamente me fez pensar. Chico assumiu o jornalismo como arma, mas ao longo do caminho, testemunhando as diversas injustiças sociais de seus conterrâneos e a cara de pau dos que se encarregavam do poder, resolveu usar as armas como armas. Uniu-se a exércitos independentes, guerrilhas, exércitos anexados e, pouco a pouco, perdeu sua ideologia entre as mortes de seus seguidores.

  Nesta semana abriu-se o espaço no BrTv a um debate a respeito de Fidel. Parte do público condena o militar governante soberano de sua ilha, e parte o elogia e exalta por seus feitos sociais e por ser simplesmente uma das únicas entidades deste mundo nosso a não sucumbir aos Estados Unidos. Além das tentativas de assassinato de presidentes como São Kennedy (a quem enviava uma caixa de charutos cubanos quando sobrevivia), conseguiu não deixar com que Cuba se tornasse uma enorme favela mesmo com pouquissimos recursos naturais internos e um embargo histórico pelo Tio Sam.

  Como li na coluna de Fausto Wolff esta semana, mesmo que Cuba tenha desempregados e prostitutas, e mesmo que uma parte da população atualmente passe fome, a situação social não permite que ocorra o que ocorre no Brasil, a violência urbana tão desumana quanto o trato que a maior parte destes ‘criminosos’ recebia em infância e em cárcere. As proporções são traçadas, e o paradoxo nos confunde.

   Confunde, porque mesmo que apenas uma parte ínfima da história conhecida de Castro seja verdadeira, mesmo que tenha matado em paredões somente dez pessoas, já não se pode fazer apologia à sua integridade. Se eventualmente Guevara também foi um assassino, com maior aptidão, fardado, mas governando, Fidel é um assassino (se é que ainda é) e não há muito o que se dizer a respeito. Não só assassino, mas também opressor dos livres direitos de expressão, e contra as eleições democráticas porque, pra quê eleições se existe Fidel?

   A torto e direto, percebemos que o mundo se modela em duas forças tanáticas expressivas: A milícia urbana e a milícia soberana. Enquanto há guerras, incluindo o conflito contra o Iraque em seu princípio, travadas entre dois exércitos de paises antagônicos soberanos, há outras, como atualmente, o exército estadunidense lidando contra os rebeldes não oficiais, uma verdadeira guerrilha, como o Hezbollah contra o qual Israel estaria lutando, tanto quanto estão os países aliados nesta região e em diversas outras, entre exércitos de países soberanos e guerrilheiros advindos do povo, supostamente lutando pelo povo. O mesmo ocorria à época de Chico. A maior parte das auto-preconizadas forças armadas sociais foram compostas por pessoas que, de um modo ou de outro, não pertenciam ao cenário. Civis, como jornalistas, jovens idealistas, e uma série de marginalizados. Lutavam, não porque alguém pedia ou mandava, mas porque não encontravam outra saída para sua vida, não conseguiriam segui-la sem algo fazer, e isto em casos de escolha, porque há lutas pela fome que nos impedem a opção, visto que se não lutarmos, de fome sucumbiremos.
 
  Assim, uma das frases mais brilhantes do filme é quando ainda moleque, Chico descobre a diferença entre um soldado e um guerrilheiro.

  “A diferença entre soldados e guerrilheiros, é que soldados seguem ordens sua vida inteira, e guerrilheiros seguem um ideal sua vida inteira.”

   Muitos soldados não sabem pelo que lutam, mas não há um guerrilheiro ignorante de sua causa, por mais alienada à realidade seja. No entanto, será que quem atira e quem morre, a nível pessoal, não luta mais ou menos pelas mesmas coisas? (Casa, comida, roupa, medicina, educação, etc). Não é esta a propaganda de qualquer guerra? Segurança, ou justiça social? Há também os que lutam pela soberania, mas estes ao menos, quando o dizem, não são hipócritas. Afinal, pelo que luta quem luta? Por que se deixa mandar o soldado? Por que o enviam à guerra o Tio Busho ou o líder Nasralah?

II

  Estamos prestes, ao meu ver, de passar por mais uma revolução modeladora de valores, mas como o ocorrido até os dias atuais, esta revolução antecede ou procede uma grande guerra. De 1963 a praticamente 1990, o mundo passou por inúmeros conflitos, mas quem lutava, na maior parte, não seguia a mesma ideologia do que os que estudavam, e sabiam. Quem lutava, lutava porque tinha de lutar, porque não havia saída. Encontrava em seus ideais algo a seguir e a esperar, mas de fato, a fome antecede o ideal, mesmo tendo os famintos ideologia, como qualquer um. O fato é que enquanto se vive em um meio desrespeitoso a sua vida, é mais fácil que seu ideal deixe de ser pensamento ou fala, e se torne ação. Eis então, a seguinte afirmaçao duvidosa, também de Chico:

  “Boas razões para viver trazem boas razões para morrer.”

  No entanto, se eu pergunto para uma grande parte de nossos conpatriotas que ainda se desviam das balas perdidas e ainda se isolam em seus sítios se vale mesmo a pena morrer por uma causa, pela causa que às vezes até sairia de suas bocas defendida, qual seria sua resposta?

  Talvez, o interesse em se carregar uma arma de fogo e atirar não parta da ideologia ou da fé, mas sim, do que se é, de uma necessidade acima da razão, inconsciente, sem a menor auto-consciência, como a fome, como a falta de infra-estruturas nas áreas mais importantes ao mais básico desenvolvimento humano, ou a falta de respeito à vida humana com opressões e segregações. Talvez, Che não tenha lutado porque pensava como Marx, mas sim, porque não podia deixar de lutar depois de testemunhar com seus olhos o que antes apenas ovira falar. Mas isto porque era Che, outros viram e não lutaram. O mesmo com Fidel. O mesmo com Chico.

  Chico se arrependeu. Descobriu que depois de algumas mortes não faz mais diferença o que se pensa. Não se está matando, efetivamente, pessoas muito diferentes do que nós e nas altas camadas, tudo continua mais ou menos a mesma coisa. O caso de Colômbia e de Cuba são a parte. Em Colômbia se vive um constante estado de tensão social e política, desde os ídos do fim de século dezenove. Abstenção de voto e a criação de guerrilhas são apenas algumas das armas usadas pelo povo para protestar contra a corrupção de seus governantes. Depois de um certo tempo, no entanto, esta violência apenas machuca ao povo que a criou, ou talvez à parte do povo que não se importou em criá-la. Em Cuba, os paredões e a revolução levaram muita gente, e muita gente boa porque em muita gente há de tudo. Morreram pais de família. Irmãos e irmãs. Mães. Avôs e avós, mas, a pena mesmo é a morte de filhos, que nunca souberam nada de nada disso tudo que por aí se vê. Mesmo assim, atualmente, não tem um país tão exemplar, e por alguns motivos. O primeiro é o fato de que há prostitutas em Cuba e é lógico afirmar que pelo menos uma delas o faz por não ter grandes outras opções. Ou, engenheiros desempregados, como li no Fausto. Ou, que seja, uma criança passando algumas horas da infame fome. Pronto, miou seu Fidel, para mim não valeu todo esse sangue derramado. Outro motivo, este mais meu, pelo fato de se preocupar tanto em ser o único governante verdadeiro daquela ilha, o que farão os cubanos quando (se é que já não aconteceu) morrer? Como saberão continuar algo que apenas uma pessoa fez questão em adquirir experiência? Será que há alguém, da milícia ou do povo, capaz de reger a região sem urgentemente dar a bunda ao Sam?

  Chico se arrependeu porque percebeu que a luta social é infinita. O individuo tem sua luta interna constante, mas como grupo, como sociedade, não podemos permitir que isto aconteça. Não podemos dar motivos aos revolucionários, e não podemos transformar criminosos em assassinos, assassinos em heróis, bandidos em políticos. Simplesmente, pára tudo! Estes valores aos quais seguimos não são a verdadeira causa da violência massiva a desestabilizar o planeta. A violência nasce da completa e total falta. Bush pode ter tudo e querer mais. Tem tempo de planejar uma guerra. Mas, em grande parte, quem levanta o rifle não tem exatamente um milionésimo do que tem papai. São quase sempre os marginalizados de qualquer povo a aderir à milícia, com a mesma ideologia em princípios, da ideologia de um integrante do Hezbollah ou do PCC. A ideologia em campo de batalha não importa para absolutamente nada, mesmo que um soldado ou guerrilheiro a tenha. E, batata, violência gera violência, camarás. Não resolve o que visa a ideologia. Não resolve o ‘para quê viemos?’

  As ditaduras não funcionaram, mas funcionou a de Fidel. No entanto, a de Fidel não é a mesma que a de Mao Tse, de Stalin, ou da Coréia do Norte. Foi injusta e impiedosa, sim, em muitos pontos, mas sem dúvidas a que melhor funcionou. Meu problema com os melhores entre os piores é que não se pode eleger o melhor músico do mundo pegando vinte pessoas que mal sabem batucar e colocando um bateirista de treze anos de idade a competir pelo título. Lula é o melhor entre os piores, está certo, alguns se vêem completamente obrigados a lutar por ele, mas por favor, quem é esse homem, meus amigos? Desde quando Perón se importou? E Fidel, quem é Fidel? Márquez fala dele como um herói e assim também Fausto Wolff e muitos outros, mas quem é ele? Acaso eles deram pro Fidel, ou o Fidel deu pra eles? Foi caso de amor longinquo ou amizade próspera? Parabéns por se importarem pelo povo, mas esta não foi mais do que vossa obrigação. Meu receio é de que primordialmente tenham se importado por si muito mais. E o povo, em enorme maioria, passa a ser este o grande e verdadeiro produto do meio. Não são as excessões. São todos parte de um eterno circulo vicioso.

  Agora, fecho trazendo a vocês a justiça de, de todos os modos, levantar as questões dos melhores e piores a se pensar:

 
  Qual é a diferença, em termos, entre o exército de um país soberano e organizações terroristas?

  Em qual das situações a seguir morreram (e sofreram) mais pessoas?

  Ditadura de Fidel Castro
  A violência no Brasil pós-ditadura

  O que é considerado injustiça humana?

  O problema é exclusivamente social, ou há outras causas?

  O problema social, prático, se resolvido, visa automaticamente a solução dos conflitos ideológicos?

  Em que espécie de sociedade precisariamos viver para que não houvesse violência urbana?

  Um bom fim de semana, aos abrax,

  RF


(18 de Agosto de 2006)

PS: Se sou grosso com dois de meus idolos, Wolff e Marquez, por favor, me perdoem, creio que posso ser brusco, o que verdadeiramente sou, com quem verdadeiramente admiro.
O Intenso
Enviado por O Intenso em 18/08/2006
Código do texto: T219187
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