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FABRIQUETA DE NEURÓTICOS



Ah! Como deveriam ser felizes os nossos ancestrais. Os chamados homens da caverna. Após o cumprimento de suas necessidades físicas básicas, era somente o respeitável compromisso com o dolce far niente. Comer, beber, dormir, xixizinho daqui, um xixizinho dali, uma agachadinha atrás da moita aqui, outra ali. Se houvesse pulsão, aplacava a manifestação da libido apanhando uma revista Playboy e uma banana nanica. Buscava a quietude e a refrescante sombra de alguma frondosa árvore, assim, enquanto folheava a revista, descascava a banana.
Nas vezes em que a namoradinha começava a grunhir, sim, grunhir pois as mulheres daquele tempo não falavam nenhuma língua... Que maravilha! Pois bem, se ela estivesse grunhindo, lhe enchendo o saco, apontando para a gola da sua camisa que estava marcada de batom super vermelho, o homem já apanhava um pedaço de pau e antes que ela resolvesse querer inventar o abecedário para lhe encher de conversa fiada, dava-lhe uma porretada na cabeça e a arrastava pelos cabelos para dentro da caverna. Permaneciam ali bons momentos. Exceto, óbvio, os ligeirinhos, aqueles que estavam com o mesmo problema ejaculatório do chefe do galinheiro. De qualquer modo, logo, logo, saíam os enamorados a passos largos, de mãos dadas, com seus longos cabelos e suas blusas de seda esvoaçando nos ares, correndo alegres em busca de águas transparentes de algum rio ali por perto para banhar-se. A felicidade era tanta que eles saltitantes cantarolavam Danúbio Azul ou qualquer outra valsa de Strauss. Saudavelmente respiravam aquele ar puríssimo, sentindo o refinado perfume das flores silvestres. Os inquietos e belos pássaros sobrevoavam em harmonia a linda região e davam um toque maior ao céu de brigadeiro. Era um Paraíso, uma beleza única! Durou pouco essa fase mágica. O encantamento esvaiu-se quando o homem passou a respeitar as hoje conhecidas desculpas noturnas das mulheres. Assim, a aplicação do pau deixou de funcionar em respeito as dores de cabeça feminina.
Negociatas começaram a pintar entre os casais. Na base do toma lá e dá cá. Aí,  celular, rádio, televisão, Internet, etc, surgiram com toda a certeza, por influência feminina. E veja só no que deu!
Antes não havia poluição, nem buraco negro. Sim, apesar das exaustivas pesquisas não encontramos no meio dessas comunidades alguém que não fosse da raça branca. Portanto, não podia existir buraco negro. Mas de qualquer forma, ninguém metia o dedo no buraco do tatu. Assim, não tinha o porquê de se preocupar com as maracutaias de políticos da Casa Branca, da Casa Rosada ou da Casa da Maria-Joana que fica logo ali em Brasília. Que tempos!... Memoráveis!!!
Dei este breve intróito para falar da minha dificuldade em acessar a INTERNET. Quase uma semana sem poder navegar nesse oceano de neuróticos. A Via-Crucis começou, quando quis reclamar com a responsável pela linha telefônica. De posse do número 0800, disquei. Foi meu primeiro contato com as portas do inferno, que ainda estavam fechadas. Acabei adquirindo umas doses de neurose a mais em meu desgastado e velho cérebro, principalmente depois do jogo de empurra, de um setor para outro, após ter clicado uma centena de números, na base de disque um para falar com a moça da capa, disque dois para falar com George W. Bush, etc, ou seja, um jogo de empurra de um setor para outro.
Hoje, com as orelhas queimando pelo longo contacto com o aparelho no ouvido, e já remetido a falar com um terceiro setor, ouvia há meia hora aquela propaganda idiota da companhia telefônica, quando finalmente a atendente deu sinal de vida. Aí sim! As portas do inferno se abriram em toda a plenitude e acabei recebendo as boas vindas de um afrescalhado diabinho gay que me ofereceu um mundo novo, cheio de prazeres e sem este serviço telefônico tão irritante. Relutei! Preferi entrar no embate com a companhia telefônica. Quis sair apedrejando. A defesa porém, era verde-amarela. O bate-bola foi mais ou menos assim:
— MINHA, FILHA, ESTA É A DÉCIMA...(Berrei, impostando a grossa voz).
— A atendente com voz sensual de não-tô-nem-aí-pra-sua-bronca, deixou-me ainda mais irritado quando delicadamente perguntou-me:
— Qual é seu nome, por favor?
— PÔ CACETE, JÁ DISSE MEU NOME E MEU TELEFONE UM CAMINHÃO DE VEZES! – Vociferei.
— Por favor, senhor, seu nome e o número de seu telefone com DDD – insistiu gentilmente  a funcionária.
— Daí pra frente o diálogo com esse pessoal todo mundo conhece. Blá blá blá...blá blá blá...(com as irritantes respostas previamente aprendidas naquele curso rápido de telemarketing).
— Um minuto por favor!
— Tá!
— ...!!!
— Mais um minuto, por favor!
— Tá bom!
— Senhor, obrigado por aguardar. Vou passar seu caso para o departamento...
— Péra um pouco, péra um pouco...pô minha jovem, este já é o terceiro setor que estou tentando reclamar e você quer me repassar para outro? Assim você está superdimensionando minha tolerância... NÃO AGÜENTO MAIS, OUVIU?...ESTOU NO TRIGÉSIMO QUINTO ANDAR...E se eu me atirar?...Vocês serão os responsáveis... TÁ OUVINDO???
— Mais alguma informação, senhor?
— Parece que você nem me ouviu, não é?
— Nossa Companhia agradece sua ligação e lhe deseja uma boa tarde.
— Vá a merda! (Não falei, mas pensei em falar).

Acordei no Céu. “Menos mal” — pensei. Aguardei com paciência, numa longa fila, minha vez de ser atendido. Enquanto aguardava, comprei umas pipocas que estavam sendo ofertadas por um vendedor que recém havia morrido após uma partida de Palmeiras e Corinthians. Ao chegar minha vez uma atendente me entrega uma máquina parecida com aquela do dia da eleição do Referendo. E já foi me ordenando: tecle um para morte natural, tecle dois para morte dentro do guarda-roupa...Coitado de mim, não resisti! Um absurdo! Duas mortes em menos de vinte e quatro horas, pois acabei tendo um infarto fulminante e acordei no inferno. Fui recepcionado por um bem maquiado diabinho gay que me oferecia um mundo... !!!


Luiz Celso de Matos
Enviado por Luiz Celso de Matos em 19/08/2006
Código do texto: T220039
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Sobre o autor
Luiz Celso de Matos
Curitiba - Paraná - Brasil, 74 anos
92 textos (3257 leituras)
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Luiz Celso de Matos