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DIÁLOGO ENTRE PAIS E FILHOS ADOLESCENTES

É evidente que, quando os pais só começam a dialogar com os filhos na adolescência, começam tarde demais. O diálogo há-de vir de muito antes, ou então talvez jamais se consiga.
     
       Quando falo em  pais, refiro-me a ambos, ele e ela, pois é frequente o pai delegar na mãe, e vice-versa, a «tarefa» de tratar dos filhos, incluindo a educação dos mesmos. Mas, salvo algumas funções específicas inerentes a horários,  aptidões, e outros condicionalismos, quer a mãe quer o pai deverão sempre assumir, em conjunto, a sua missão relativa aos filhos que, também, ambos trouxeram ao mundo.

       Falar com os filhos não é falar para os filhos. É, sim, criar condições favoráveis a que, sem receio e sem tabus, filhos e pais conversem sobre qualquer assunto, de forma natural e sem constrangimento. Claro que os temas, os conteúdos e os níveis de abordagem desses assuntos, serão diferentes, conforme a idade, ou melhor, o grau de desenvolvimento psicológico dos filhos.

       É importante que os filhos(adolescentes, neste caso) e os pais falem sobre as coisas vulgares, do quotidiano, com o mesmo à-vontade com que tocam nos temas mais íntimos, por vezes melindrosos ou polémicos. Isto, quer a iniciativa parta dos pais ou venha dos filhos, já que o diálogo deveria ser sempre bilateral.

       Se conseguirem dialogar, séria, serena e descontraidamente sobre, por exemplo, programas da TV, resultados escolares, vocação profissional, droga e alcoolismo, religião e igreja,  aspectos invulgares ou até chocantes da história bíblica, e outros do género, já não é nada mau. Melhor ainda, se houver a mesma abertura para tratar de assuntos da esfera sexual, em que ainda parece haver uma maior carga sociocultural de secretismo, reserva ou mesmo confidencialidade inibidoras.

       Entre eles, podemos referir alguns, tais como : transformações fisiológicas da puberdade, menstruação, masturbação, meios de contracepção, orientação hetero ou homossexual, erotismo e pornografia, interrupção da gravidez, sexo-sem-amor, amor-sem-sexo e amor-com-sexo, sida(aids) e outras doenças sexualmente transmissíveis...


        Haverá perguntas dos filhos a que os pais tenderão a dar uma resposta, a sua resposta, mesmo apontando para uma certa interpretação bíblica, ou uma «evidência» científica ou social, no intuito de tentarem fundamentar essa sua resposta .

        Não seria melhor que, além da opinião que os pais transmitem, ou até das suas sugestões(«conselhos»?), as tais perguntas sejam também devolvidas aos que as fazem(aos filhos), para estes verbalizarem aquilo que pensam a tal respeito?  Colocar-se-iam então essas questões em franco debate, destituído, este, de hierarquias (nomeadamente a da autoridade parental), sobrepondo-se-lhe o respeito recíproco e  a aceitação uns dos outros. Talvez mesmo uma questão possa ter de ficar em aberto, para uma reflexão mais aprofundada, enfim, uma questão a ser retomada mais tarde.

      Mas convém não adiar "sine die", o que poderia resultar, na prática, em arrumar esse tema, definitivamente, no arquivo dos «pendentes». E nunca mais se falar nele. Essa é, aliás, uma maneira, bastante usual de fugir aos assuntos «quentes» e incómodos, indesejáveis ou «inconvenientes».

      Voltando ao princípio. Se houver, desde a infância, uma educação geral e, nomeadamente sexual, permanente e gradual, começando talvez pela «maravilhosa história do nascimento»,o diálogo será mais fácil na adolescência. (Ler, a propósito, o poema do autor, «Pétalas rubras», que se publica a seguir, e que também podia servir para leitura com os filhos, ou, ao menos, para  inspiração dos pais como uma introdução ao tema).

      Manter sempre a indispensável abertura à troca de impressões, de opiniões e de informações sobre o que quer que seja, é a atitude indispensável.  Abertura, sim, com disponibilidade, flexibilidade(sem rigidez nem dogmatismo intolerante), ou seja, um amplo espaço para reflexão, expressão e opção.

      Com esta educação na e para a liberdade responsável, pais e filhos só terão a ganhar. A confiança e o respeito mútuo reforçar-se-ão, e a partilha tornar-se-á extensiva a todas as áreas desejáveis.
     
      E assim existirá  um clima de diálogo permanente.

Orlando Caetano
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                                                          Poema do autor:

PÉTALAS RUBRAS

Olha as flores
com as pernas-pétalas abertas,
pétalas rubras
fogosas
atraentes
em insinuante oferta.

Olha as flores
com estames à mostra
quais falos erectos,
as anteras- glandes
de ponta sensível
vibrátil...

Olha as flores
perfumadas
coloridas
acetinadas
convidativas.

Flores deste jardim-mundo
corpos despidos
sexos expostos,
nada imundo
neste nudismo
original.

Flores!
Quem as mira
quem as toca
quem as colhe
quem as leva
para adornar lapelas
centros de mesa
sepulturas
nichos de capelas
não se envergonha delas.

Noel Ferreira
(pseudónimo de Orlando Caetano)

(in «Descontinuidades»,1991)


Orlando Caetano
Enviado por Orlando Caetano em 21/08/2006
Reeditado em 14/08/2010
Código do texto: T221761
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Sobre o autor
Orlando Caetano
Portugal
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Orlando Caetano