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Vitória-Régia

Ainda que as águas tumultuem e espumejem, e na sua fúria os montes se estremeçam, há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus. (Salmo 46:3)

Quanta chuva! Parecia que o planeta estava a inundar-se. O céu começou a ficar escuro às 13:00 horas. Acho que os animais até se recolheram mais cedo, nesta tarde tão plúmbea. Estava examinando um relatório de uma conferência que ia participar. Voltei a olhar pela janela e, tornando a ver as mesmas imagens, pensei: estarei filmando alguma cena, ou o avião vai cair?

--Senhores passageiros. Daqui a pouco, pousaremos em Manaus. Vamos dar ainda algumas voltinhas devido as fortes chuvas. Após meia hora adicional de viagem grátis, o pássaro de prata deitava seus ovos ( passageiros ) em terra.

Fui hospedado em um hotel bem especial, à beira do rio Negro. Curiosamente, meus aposentos ficavam na ala Vitória-Régia. Você pode pensar: curiosamente porquê, se a Vitória-Régia é o que mais tem em Manaus? Aguarde um instante e saberá.

A agenda estava tão extensa, que ficava difícil liberar meu cérebro, para registrar adequadamente as características tão únicas da CAM - Cidade-Água-Mata.

Findo o dia de vários compromissos, pude então retornar ao confortável hotel e pensei: amanhã será um dia de tantas ocupações que acho melhor desligar o ar-condicionado e deixar a janela aberta, para ser acordado pelo som dos animais.

Acordei, como previsto, bem cedo. Escutava sons jamais imaginados. Lembrei do grande escritor Ferreira de Castro, quando editou seu excelente livro: A Selva. É demais! Nosso Senhor! Parece até a OSSA – Orquestra Sinfônica da Selva Amazônica – , regida pelo maestro Uirapuru. É só bicho. Aliás, se mexer em alguma coisa, estraga.

Entretido com tamanha sinfonia comecei a lembrar de uma microempresária do Rio de Janeiro. --Conto?

Dispensada através do “sopão” – programa de demissão voluntária com vantagens – após  10 anos de trabalho em uma empresa transnacional, a corajosa mulher decidiu montar um restaurante.

Nos primeiros 90 dias, foi tudo show de bola. Colocava nas mesas, diariamente, cerca de 100 talheres, dando para pagar as contas. Se dobrasse o número de consumidores, poderia mesmo começar a ganhar dinheiro, principal finalidade de um bom negócio.

Como as vacas magras de vez em quando surgem, – tomara que não apareça em sua firma – sem saber como, a partir do quarto mês, o restaurante somente estava tendo um movimento de 10 pessoas. A situação ficou tão difícil que cortaram o gás.

Lembrou da seleção natural da espécie proposta por Charles Darwin e, depois de passar 50 minutos lutando em oração, abriu seus olhos, quando se deparou com uma belíssima lata de tinta.

Assim que começou a pintar o restaurante, os 10 fiéis clientes chegaram perguntando: --o que houve? --não vai ter comida hoje?
--Gente! Mil desculpas! Vocês não foram avisados?
--Resolvi pintar o restaurante para atender melhor a vocês. Também estou me re-estruturando para a partir de amanhã, acrescentar ao cardápio uma novidade espetacular, o Pirarucu!

Intrigado por não saber o resto da história, atendi ao telefone. Era o pessoal que já estava  aguardando para tomar café comigo. Partimos, então, para os compromissos.

Almoçamos em um restaurante flutuante no Rio Negro, nos deliciando com costela de  tambaqui e retornamos ao trabalho.

À noite, perguntaram-me se eu gostava de Pirarucu. Respondi: --lógico!
--Que coincidência, falei. Hoje, pela manhã, lembrei de uma moça chamada Vitória-Régia.  Fui interrompido.

--Oi! Você me chamou?

--Vitória-Régia! O que você está fazendo aqui em Manaus? Como ficou o seu restaurante lá no Rio?  Conseguiu pagar o gás?

--Gil, a idéia da tinta foi providencial, pois até os 10 clientes eu ia perder, sem ter como cozinhar. Resolvi ganhar tempo pintando, enquanto conseguia recursos para quitar o gás. O sucesso foi tamanho que passei a trabalhar somente com o Pirarucu. O movimento diário ultrapassava 300 pessoas. Foi um negócio tão lucrativo que decidi mudar para Manaus e, agora, sou a dona desse restaurante.

--Posso mandar servir a vocês um bom Pirarucu?

--Vi, me diz só uma coisa: o que a fez escolher Manaus?

E ela respondeu assim:
-- E existe algum lugar melhor para a Vitória-Régia?
Gilberto Landim
Enviado por Gilberto Landim em 23/08/2006
Código do texto: T223109
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Sobre o autor
Gilberto Landim
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 68 anos
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Gilberto Landim