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POR QUE UM HOMEM ADORA UMA MULHER? ( A saga do herói romântico e sua eterna princesa )



                        Para a poeta Paty Essinger
                        com o meu melhor abraço de amigo.

   
   Adorar uma mulher é esquecer de sua humanidade; é não a considerar humana mas uma espécie de deusa. É contemplar sua imagem com profunda reverência , com uma admiração quase devota. É querer servi-la a todo custo e a todo instante.  É querer cobri-la de jóias , e dos melhores panos, e oferecer-lhe os melhores jantares nos mais refinados restaurantes. É desejar aspirar o perfume do seu corpo, e tocar na maciez do seu cabelo , e acariciar o seu rosto com  suavidade indizível.  É sentir-se herói a desafiar monstros de sete cabeças , e trazê-los, mortos , a seus pés, apenas para ganhar o seu sorriso de satisfação e aprovação. E se ela aceitar essas e milhares de outras oferendas com boa disposição e reconhecimento , então pouco se poderá dizer (por limitação da linguagem)  do estado de alma do ofertante, que gozará de uma felicidade jamais pensada, e consequentemente se sentirá ainda mais fortalecido para continuar o seu ritual de viver para ela. Deveras , ela terá feito emergir  o herói brilhante , o ser competentíssimo , o supremo gladiador que permanecia em estado dormente e potencial nas profundezas desse notável vencedor de batalhas. Ela lhe terá dado razão para viver , para lutar e vencer! Porque ele , o herói , romanticamente , não terá encontrado sentido em lutar para ele mesmo, para a sua glória pessoal: enojado do mundo, de suas falcatruas, de suas falsidades, pouco ou nada lhe importa o aplauso dos miúdos. Generoso, lutará pelos fracos e oprimidos como questão de honra. Mas seu mais profundo anseio é entregar a sua glória  nas mãos de sua eterna princesa! Se um dia porém ela lhe vira o rosto, se lhe desconsidera , se volta a sua vista para um outro herói – então ele morre! Desprezado , jogará todo o seu brilho a um canto obscuro de si próprio , perderá todo o interesse pela vida e caminhará errante , de taverna em taverna , mendicante , humilhado... Seu corpo encurvará , seus cabelos embranquecerão , seus olhos perderão o brilho e doenças psicossomáticas o atormentarão. Ficará a mercê do mais medíocre e indigno dos homens; será ridicularizado pela plebe imunda. Oh! Sim: todos verão nele um cavaleiro das grandes cruzadas, porque esse extraordinário herói , de quando em quando , em conversas banais , permitirá , a partir de lembranças de sua vida , que o seu brilho apareça rapidamente para , depois , sumir novamente. E de mais a mais, como se trata de um fidalgo , de um ilustre cavaleiro das mais importantes cruzadas românticas , será  amiúde denunciado por si próprio, pelo jeito de falar e de se comportar,  o que aumentará o ódio dos seus convivas , lobos disfarçados em  ovelhas , medíocres cidadãos e cidadãs prontos a devorar-lhe a energia vital restante, a espezinhá-lo , a pisa-lo: todas as  vezes que um gigante cai vencido, centenas de formigas sobem sobre seu corpo. Um dia, porém, uma outra deusa aparece. E a sua chegada na vida do herói  irá transtorna-lo , irá causar uma verdadeira revolução em sua vida e , em função dessa chegada , o gigante se levantará! E assombrará o mundo a sua genialidade! Que será depositada aos pés da princesa mais uma vez! Cabe aqui uma observação: tal princesa jamais deverá ser amada por seu herói , senão adorada. Simplesmente porque ,se for amada , sua humanidade transparecerá , e com ela os mais inconfessáveis defeitos , e com eles – a desilusão do herói que precisa imaginá-la perfeita e, portanto , digna de seu apreço. Para ele,  ela precisa ser incomum, única. Ainda que seja uma mulher dos mais repulsivos princípios , uma vagabunda , se ele se encantar por ela , ela  será a seus olhos mais digna do que a Virgem Santíssima. Resta saber o que determina esse encanto. Conta a lenda que três homens caminhavam por uma estrada , homens que não se conheciam. Acabaram se encontrando num certo ponto e descobriram, admirados , que tinham algo em comum: todos estavam condenados à morte pelos reis de seus respectivos países pelo cometimento de delitos. E que não tentassem fugir pois seriam inevitavelmente achados e exterminados sem mais demoras. Os monarcas haviam determinado que esses homens levassem ao reino diamantes: o primeiro homem deveria levar um diamante de um quilo; o segundo de dois e o terceiro de três. Se levassem o determinado, salvariam suas vidas. Ocorre que o primeiro estava em posse de um diamante de três quilos, o segundo portava um diamante de um quilo e o terceiro um diamante de dois quilos. Todos portavam diamantes, mas de peso indevido às suas causas. Com que satisfação então cada qual entregou para o outro o diamante achado ,de acordo com sua causa pessoal ,  tendo todos salvo a vida de todos! Havia , porém , um detalhe: os três diamantes foram achados em charcos de lama e fediam então. Não tinha como limpá-los e os homens os levaram para os reis mal cheirosos mesmo! A bem da verdade, os reis tinham pedido diamantes de 1 , 2 e 3 quilos, e não diamantes cheirosos ou limpos. Quando um homem adora uma mulher , ele com certeza terá visto nela algo parecido com um diamante de 1 ou 2 ou 3 quilos , que o salvará da morte. Ele, o eterno gladiador! Que, romanticamente , depende dela para continuar existindo. Se ele porventura vier a amá-la , é porque terá percebido o lado humano da princesa , assim como os homens perceberam o mal cheiro dos diamantes achados em fétidos charcos de lama. Mas fiquemos com a adoração: é ela que o leva a existir porque é de extrema necessidade para ele oferecer seus frutos. E , não nos enganemos,  é de sua suprema vaidade receber o aceno de aceitação de sua princesa que o privilegiará, talvez em meio a muitos rivais. Um diamante: nela, algo extremamente valioso para ele.  Intelectual , emocional ou espiritualmente , algo extremamente valioso para ele. Como um sol a lhe iluminar a alma, a lhe confirmar seus majestosos talentos os quais serão oferecidos para ela como incenso , como oração – um ritual místico quando o fiel  oferece os frutos de seu trabalho ao deus de sua mais sincera  devoção.


                                           FIM


Ps: Quem não se lembrará do poeta italiano Dante Alighieri e sua musa , sua eterna princesa Beatriz ? Não foi aos pés dela que ele depositou a sua obra prima, a Divina Comédia?

CAVALAIRE
Enviado por CAVALAIRE em 24/08/2006
Código do texto: T223842
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Sobre o autor
CAVALAIRE
Alagoinhas - Bahia - Brasil, 57 anos
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