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As Grandes Obras Públicas

                    As Grandes Obras Públicas




     A sociedade necessita e reclama. O homem projecta e viabiliza. As grandes obras públicas nascem.
     De facto assim deveria ser, após realizados os estudos ambientais correspondentes, sondadas as partes envolvidas, acautelados os interesses das populações e / ou avaliada e salvaguardada a viabilidade financeira do projecto.
     Um exemplo da relativa importância concernente à viabilidade económica de determinados empreendimentos de interesse público é o espaço onde se realizou a Exposição Universal de 98. A obra e a realização do evento continuam a levantar vozes críticas, por razões diversas, das quais uma, é a falta de retorno do capital investido.
     Recordo-me, deveria na altura rondar os meus sete, oito anitos, de numa ou noutra tarde de ócio domingueiro, me levarem a ver os hidroaviões que se balançavam nos ancoradouros ao longo dessa já à época descurada margem oriental da cidade, mais tarde transformada em armazém a céu aberto de contentores e vagões de mercadorias, num misto de desleixo, sujidade e abandono.
     A realização da Expo 98 iria radicalmente alterar a fisionomia dessa zona, modernizando-a e recuperando-a para a cidade. De facto, nesse espaço nasceu um novo burgo dentro da própria cidade, com acessibilidades e infra-estruturas próprias, modernas e de aceitável qualidade arquitectónica. Hoje, os pavilhões que acolheram a exposição desapareceram, ficando só os edifícios emblemáticos do certame e em sua substituição nasceram e continuam a nascer e a crescer espaços residenciais, comerciais, de prestações de serviços e zonas de lazer, que fazem com que essa grande obra pública primária, recuperasse um membro gangrenado e moribundo, devolvendo-o à cidade vigoroso e saudável.
   
     O conturbado, lento e arrastado processo do novo aeroporto de Lisboa não tem os mesmos contornos. Enferma de maiores polémicas e discórdias mas, radicalmente, sou favorável à sua construção.
     Foi sobre a Ota que incidiu a responsabilidade e o prémio de acolher as futuras infra-estruturas. A opção poderia ter recaído noutro local. Em todo o caso os estudos sobre a necessidade, a viabilidade e a localização do novo aeroporto arrastam-se há mais de vinte anos, vários executivos de diferentes tendências políticas debruçaram-se sobre o assunto, e é pouco credível que não tenha sido seriamente aflorada e ponderada a escolha da sua localização. Se é verdade que os políticos padecem de credibilidade e de inteligência duvidosa, não deixa de ser improvável que a cegueira seja tão exacerbada.
     Os detractores argumentam que a distância afastará passageiros e que Lisboa perderá visitantes. É claro que nos tempos da mala-posta pouco mais de quarenta quilómetros eram uma enormidade. Hoje qualquer transporte público dedicado percorre pachorrentamente essa distância em menos de meia hora.
     Diz-se ainda que o local escolhido não permitirá futuras ampliações. Em que enormidade de remendos e acrescentos estarão a pensar se o projecto em si mesmo já contempla de raiz uma grande folga ao afluxo de tráfego aéreo?
     Voltam à carga insistindo preferencialmente na ampliação do saturado aeroporto da Portela. Acontece que o actual aeroporto, desde que foi construído, nos anos quarenta do século passado tem, ao longo da sua vida, ininterruptamente estado a sofrer obras, ora de beneficiação, ora de ampliação, ora de ambas as coisas e outras mais ao mesmo tempo…Acresce ainda notar que o aeroporto mais movimentado do país, porque naturalmente o burgo cresceu, se encontra hoje situado quase no centro da cidade: qualquer hipotético acidente aéreo poder-se-ia transformar numa enorme tragédia em vidas humanas visto estar resvés por todos os lados com densas franjas residenciais.
     Por fim, e para reforçar a opinião de que o aeroporto deve quanto antes sair da capital, devendo os seus terrenos serem restituídos à cidade, é credível pensar que os empreendimentos realizados, tanto os que estão em curso quanto os já projectados, na zona do Parque das Nações por um lado, e a Quinta do Lumiar por outro, irão ter a sua natural continuidade no local onde hoje aterram e descolam inúmeras naves ao dia, barulhentas, poluentes e perigosas.
     A cidade agradece que a enriqueçam com os terrenos que muito provavelmente virão a ser um dos pólos mais atractivos da Lisboa do futuro. Só faço votos que não se esqueçam dos espaços verdes e de acautelar a qualidade de vida e o bem-estar da população.




Moisés Salgado
Murça – Portugal
alestedoparaiso
Enviado por alestedoparaiso em 26/08/2006
Código do texto: T225766

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