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TAMANHO NÃO É DOCUMENTO

E nem poderia .

Cada vez mais a questão da sobrevivência chama a atenção para este fato, a relatividade do tamanho. Os anfíbios, por exemplo, dentro da cadeia ambiental, antecipam a saída da condição de girinos, passando à sapos ou familiares, por simplesmente, sobrevivência .  Ao habitarem em águas poluídas, tornam prematuro seu nascedouro, para então, fora delas, não sucumbirem diante dos detritos humanos que desestabilizam por inteiro o equilíbrio ecológico .

Se trouxermos a mesma relação para o homem, ao olhar em volta, vemos que sempre mais novinhas, as crianças vão às ruas por um biscate de sobrevivência, bem como nos canaviais, nos campos dos interiores rurais e nas periferias das grandes cidades .

Um dia desses havia num sinal  um malabarista de bolinhas coloridas que usava chupeta  para fazer seu show de matar a fome, usava como palco, subir nos para - choques dos carros, de tão miúdo que ainda era, cena cruel e dolorosa .

Ora fora batizado de fofinho, gracinha, tadinho e até nadinha, por aqueles que lhe viravam os rostos, dirigindo carrões importados ou marcas caríssimas, acondicionadas à um excelente ar refrigerado.

São contextos em que estamos inseridos, mas assistimos de forma passiva, como se fizéssemos parte de uma sociedade anestesiada à certas discrepâncias.

Há outras prioridades, ainda que os pequenos, girinos ou meninos denunciem questões efetivamente sérias, não mais embaladas por canções de ninar ou fazendo parte dos contos de fadas, posto que as crianças, já não tem mais tempo para conhecer a infância, e os sapos, certamente não virarão príncipes.

Outrossim, os sábios sapinhos minúsculos, vão dizendo numa linguagem silenciosa, que caminhamos, desta forma, para a falta de água e oxigênio no planeta; as crianças, tão pequenininhas, clamam por socorro, buscando nos seios da nação, o alimento que há muito já secou, demonstrando enquanto ilustram as ruas como pequenas estrelas no céu, que a terra está contaminada por algo estéril e insensível, que talvez seja preciso tirar as leis das bocas e das prateleiras para fazê-las vivas, sendo então, reconhecidas como ações de resultados visíveis, concretos e palpáveis ...

Surpreendente, não são apenas essas questões associadas ao ambiente ou à infância e juventude, o caso da Xuxa é de estarrecer, enternecer e porque não, inclusive estremecer ...

Não falamos aqui da Rainha dos baixinhos, mas, da baixinha por natureza que sonhava ser uma grande rainha e acabou sendo prostituta numa esquina qualquer, segundo ela, também por uma questão de sobrevivência.

Há quem pense que é piada, mas que nada, é verdade, acredite se quiser ...

Algum leitor, já conheceu uma mulher da vida anã?

Xuxa é uma mulher de 28 anos, mede 1, 35 cm, pesa 40 kilos, anãzinha de pai e mãe, cresceu dentro da dura realidade do preconceito e da miséria. Muito tímida, jamais apresentou vocação circense, no mercado de trabalho enfrentou todas as dificuldades da discriminação implacável .

Conclusão: caiu na vida ... Agora imaginem , aquele pingo de gente, loura, cabelos escorridos, roupas extravagantes, rosa vermelha no cabelo e biquini fio dental, sendo objeto do fetiche dos grandes machões brasileiros!!!

E aí eu fico me perguntando ...

Por que é que um pequeno girino, nada em direção à superfície e num ato quase mágico transforma-se num sapo minúsculo, demonstrando que por causa das grandes coisas dos homens, ele precisou violentar sua natureza, exibindo um malabarismo - show de defesa pessoal?

Por que é que um bebê de apenas três aninhos incompletos, faz da rua, o palco da realidade explícita no nosso país?

Por que a anãzinha negou a cara pintada do palhaço de circo, porque não superou a timidez e ganhou de presente o sorriso da criançada, ao invés das gargalhadas zombeteiras dos homens inescrupulosos?

Ah ! ... Quisera que a grandeza humana fosse suficientemente consciente, alterando o dito popular e ultrapassado ...

Tamanho seria documento sim, e, toda reverência seria feita aos girinos, retratariam-se com a família anfíbia, responsabilizariam-se pelas criancinhas afora os estatutos, entidades beneficentes ou reformatórios de menores.

Certamente, aplaudiriam a Xuxa anãzinha, pela coragem invertida, atribuindo-lhe a dignidade necessária, para uma sobrevivência de menos riscos marginalizados.

Mas desde que o mundo é mundo, os maiores são os maiores e portanto, não se curvam aos pequenos .

E tamanho não é documento não, esta é apenas uma pequena crônica, de uma mínima observação, feita por um jovem escritor, num minúsculo espaço de tempo, de uma irrelevante madrugada insone .

Entretanto, fica aqui uma reflexão :

- O que vale neste texto não é a legitimidade da estatura física ou social, nem tampouco, isto é um documento DESTE tamanho , mas durante o pequeno tempo que me leu, lembre que a grandeza dos menores muitas vezes está na sutileza como os girinos, na pureza como as crianças e na coragem como aquela meretriz .

Portanto, ao sentir-se em estado de morte ou perigo, chame por sua capacidade de se promover uma metamorfose; ao esgotar-se da sociedade por vezes hipócrita, medíocre e cruel, chame por sua capacidade soberana e genuína de pureza e verdade nos sentimentos nobres; ao sentir-se encurralado diante de caminhos improváveis, chame por sua coragem nas escolhas certas e sua liberdade de traçar o destino, ainda que a vida lhe empurre à sensações efêmeras e irreais, manifestas por situações onde perceba – se menor que um grão .

Afinal, o que seria da grande imensidão azul, dos infinitos mares, se não fossem as pequenas partículas de areia, que formam o enorme tapete onde ele se deita?
Márcia Beatriz Prema
Enviado por Márcia Beatriz Prema em 27/08/2006
Reeditado em 30/08/2006
Código do texto: T226134

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Sobre a autora
Márcia Beatriz Prema
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Márcia Beatriz Prema